A arte de equilibrar a saúde mental por meio da música

A arte de equilibrar a saúde mental por meio da música

Tiago Vilela*

18 de maio de 2021 | 12h10

Tiago Vilela. FOTO: DIV. TV APARECIDA/JUAN RIBEIRO

Arte e Psicologia são como que irmãs: ambas possuem o poder de trabalhar as nossas emoções e aliviar nossas tensões. A música é uma arte e, por consequência, uma ferramenta poderosa para a manutenção da Saúde Mental, pois com suas melodias e palavras muitas vezes nomeiam sentimentos que não podemos explicar, traduzem nossas emoções por meio de poesia e nos ajudam a nos tornarmos mais conscientes do que sentimos.

A execução de uma música causa um impacto nas moléculas de ar, que vibram e se movimentam conforme a emissão do som, ora graves, ora agudos, ora médios, e o nosso sistema nervoso, ao perceber esse estímulo, trabalha para adaptar-se ao movimento e para processar essas informações. Tudo isso envolve uma ativação sináptica que libera, inclusive, dopamina, que dá sensação de prazer. E quem é que não gosta de sentir prazer?

Para Freud, pai da Psicanálise, o conflito mais básico da nossa vida emocional instala-se exatamente nessa dinâmica entre obter prazer e evitar desprazer. Por natureza, evitamos o desprazer e para evita-lo nosso aparelho psíquico cria mecanismos de proteção contra angústia. Entre eles estão o famoso recalque e a repressão, que acabam inibindo emoções, desejos e sentimentos, que são como que encaixotados ou engavetados no que é chamado, pela Psicanálise, de inconsciente.

O inconsciente guarda lembranças, sentimentos, desejos sobre os quais não temos consciência ou clareza. Em muitos casos, segundo a Psicanálise, essas emoções retidas e não nomeadas são potenciais fontes de doenças, angústias, mal estar, sofrimento e até mesmo comportamentos indesejados. A Psicanálise, ainda, acredita que o processo de cura de tensões e outras doenças psicológicas pode se dar por meio da externalização dessas emoções retidas, que se tornam conscientes e, ao serem “colocadas pra fora,” tornam o corpo e a mente livres da angústia. É libertador e transformador.

A música é uma forma de nomear e expressar as emoções. Isso porque o compositor também é um ser de alma, de vivências e experiências que geram emoções que são reprimidas, mas ele tem a habilidade de transformar tudo isso em canção, e no fim está falando de coisas que são, naturalmente, experimentadas por todos os seres humanos: amor, raiva, ódio, agonia, tristeza, alegria. A música também é uma forma de conexão atemporal com a própria história, pois pode te fazer passear pelo tempo, voltar pra infância, pra um momento específico da sua vida. Nos faz reviver momentos e visitar, mentalmente, amigos, pessoas amadas, entes queridos, com a execução de algumas poucas notas, proporcionando, por vezes, uma enorme sensação de saudade com bem-estar e aconchego.

Podemos usá-la para nos ajudar a dizer aquilo que está dentro de nós para alguém. Quem nunca pensou em oferecer uma música para outra pessoa? Seja pra dizer que está apaixonado, que está magoado, ou dando aquela indireta bem direta, pra fazer um pedido de namoro ou casamento, uma serenata, facilitando a interação social. Vale lembrar que a interação social é uma das aliadas ao combate da depressão e outros transtornos, inclusive de ansiedade. Assim a música é um meio eficaz de comunicação, uma possibilidade inquestionável de entretenimento e, de quebra, terapêutica.

Eu venho experimentando o poder terapêutico da música já há algum tempo. Passei por um processo depressivo e durante a pandemia comecei a fazer algumas Lives pelo meu Instagram e Facebook, cantando, diariamente, durante 10 ou 15 minutos. A esse projeto chamei “Música sim, corona não.” Em pouco tempo as pessoas que participavam das minhas Lives começaram a me relatar que aqueles minutinhos diários de música faziam com que elas se sentissem menos angustiadas e menos ansiosas, ajudavam-nas a enfrentar o medo gerado pela pandemia e pelo isolamento social, fazia com que elas se sentissem mais leves e mais tranquilas.

Com o tempo percebi que a música era tudo o que eu precisava para curar a minha tristeza. Me fez nomear esse sentimento e, com as Lives, ter uma interação social muito positiva. Mais que isso, percebi que ao dividir esse processo tão simples com a sociedade, eu ajudava outras pessoas a se curarem de suas próprias feridas.

*Tiago Vilela, cantor e psicólogo

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