A arena de disputa em serviços financeiros para 2021

A arena de disputa em serviços financeiros para 2021

Bernardo Cavour*

26 de fevereiro de 2021 | 05h30

Bernardo Cavour. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ano de 2021 promete ser de muito dinamismo para o mercado de serviços financeiros, que engloba bancos tradicionais, bancos digitais, empresas de meios de pagamento e startups, além de empresas do varejo e da indústria que já oferecem ou querem começar a oferecer produtos ou serviços financeiros para o ecossistema de clientes e fornecedores em que atuam.

Até então, apesar do grande dinamismo, a sensação é que havia espaço para todos e as novas tecnologias não pareciam ser uma grande ameaça. No entanto, alguns movimentos aconteceram ao longo de 2020 e impactaram essa percepção.

O primeiro tem a ver com um cenário macroeconômico de taxas de juros baixas, que reduzem linhas de receita importantes das instituições tradicionais. A redução dos spreads gera uma pressão nestas instituições, que precisam elevar sua eficiência para manter as mesmas margens. Esse mesmo cenário de juros baixos aumenta o nível de acesso a capital pelas startups o que alavanca a capacidade de investir no desenvolvimento de plataformas.

O segundo foi o processo de evolução da digitalização da sociedade por conta das restrições de movimentação impostas pelo Covid-19. Milhões de brasileiros foram obrigados a mudar seus hábitos de consumo e experimentar, pela primeira vez, a compra de produtos e serviços online. Esse movimento fez com que muitos consumidores, ao experimentar o mundo digital, optassem por empresas que oferecem as melhores experiências e ofertas de produtos e serviços.

O terceiro é o novo conceito de open banking em implementação. O movimento impulsiona o compartilhamento de dados do cliente e uma maior mobilidade ao consumidor para concentrar suas operações na instituição que proporcionar a melhor experiência de uso, atendimento e resolução de problemas.

Essa combinação de desafios e oportunidades impacta bancos tradicionais e startups de formas diferentes, e para nenhum deles o caminho da execução parece ser tranquilo. Bancos tradicionais precisam transformar seus negócios atuais, apesar de gerarem lucros recorde, para competir com novos entrantes que se propõem a mudar o mercado, mas que ainda não ganham dinheiro fazendo isso. Fintechs precisam encontrar o caminho do crescimento para entregar de maneira escalável e sustentável a proposta de valor de seus produtos, gerar resultado e se consolidar em seus mercados.

São muitos vetores de força agindo sobre o setor de serviços financeiros e as mudanças que estão acontecendo levam as empresas a novos desafios de negócio. Em linhas gerais, o desafio para os executivos nas instituições tradicionais é liderar as mudanças e inovações em ambientes consolidados, grandes e complexos, onde há muitas barreiras a serem vencidas tanto em questões de governança quanto de estratégia e tecnologia. Também é papel dos gestores gerir o legado de sistemas e construir soluções com a agilidade que o mercado exige. Tudo isso, lembrando, em um cenário de resultados ainda muito fortes, sem uma grande pressão ou necessidade de curtíssimo prazo.

Já no caso das startups, a lógica é quase inversa. Se o fato de ser menor facilita a agilidade e a inovação, o desafio nesse caso é gerir a complexidade para atingir uma escala de negócios que permita à empresa ser rentável, algo que a maior parte das fintechs ainda não conseguiu. Muitas vezes, os desafios são relacionados a temas mais tradicionais, como modelo de gestão, questões técnicas de risco de crédito ou mesmo de logística. Com o aumento do volume de transações, a gestão fica mais complexa e os riscos aumentam. Nem sempre o executivo que tem a visão de futuro do negócio é a melhor opção para liderar a agenda operacional e estruturante de curto prazo.

O desempenho das novas iniciativas e das novas empresas dependerá do desempenho dos líderes responsáveis pela concepção e execução dessas novas estratégias. São grandes iniciativas a serem executadas em um contexto com fatores que podem ter barreiras no caminho.

*Bernardo Cavour, sócio da FLOW Executive Finders

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