A aproximação necessária do governo Bolsonaro com Joe Biden

A aproximação necessária do governo Bolsonaro com Joe Biden

Rodrigo Guedes Nunes e Frederic Rocafort*

27 de janeiro de 2021 | 10h30

Rodrigo Guedes Nunes e Frederic Rocafort. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Nesta histórica quarta-feira de 20 de janeiro de 2021, assumiu o mandato de 46º presidente dos Estados Unidos da América Joseph Robinette Biden Jr., mais conhecido como Joe Biden.

Biden, que é advogado, reúne uma série de características que, se observadas com atenção, podem garantir um relacionamento muito mais produtivo entre Brasília e Washington do que se imagina.

Além de ser católico, o novo presidente americano é um tradicional representante da esquerda moderada e praticamente a definição do candidato representante do establishment político. É um hábil negociador, com fortíssima atuação na promoção dos direitos humanos, principalmente em causas de violência contra a mulher e igualdade racial.

Tem ainda grande experiência com os meandros de Washington, uma vez que foi senador pelo Estado de Delaware de 1973 até 2009, quando assumiu o cargo de vice-presidente do governo Obama, que se estendeu por dois mandatos até 2017.

Para o Brasil abre-se agora uma janela de oportunidade de desenvolver uma real parceria com a maior economia e potência militar do mundo, sendo ambos países livres e democráticos. Visualizar e focar no que nos une pode ser a chave para um futuro melhor.

Biden, que assume em meio à devastação econômica causada pela pandemia da Covid-19 e uma radicalização política vista pela última vez apenas no período anterior à guerra civil americana de 1861, deve intensificar ainda mais a pressão sobre a China do partido comunista, reconhecidamente um país violador dos Direitos Humanos e que utiliza trabalhos forçados em sua força produtiva. Pouco se fala, mas neste exato momento campos de concentração são mantidos com milhões de pessoas produzindo à força aquelas luzes bonitas que acabamos de retirar de nossas árvores de Natal.

Em outras palavras, estamos todos adquirindo produtos que só tem aquele preço bom porque foram produzidos por escravos.

O novo presidente americano vai precisar de aliados que, assim como o governo brasileiro, consideram as práticas do partido comunista Chinês inaceitáveis. E sendo Biden quem é, vai provavelmente saber usar e aceitar de forma meticulosa cada apoio que lhe for oferecido, ainda que venha dos lugares mais improváveis.

Pequenos gestos serão de grande valia diplomática. A condenação expressa do Brasil à militarização do mar do sul da China e às ameaças deste país de invasão e tomada de Taiwan pela força podem ser pontos certeiros de cooperação, apenas utilizando entendimentos já comuns entre Brasil e EUA, além de consenso absoluto no mundo livre.

Atos e palavras neste sentido colocariam novamente à mostra o tradicional lado justo, imparcial e sofisticado que a diplomacia brasileira sempre demonstrou em sua história.

Investimentos e aproximação comercial também são alvos óbvios. Biden provavelmente continuará a cruzada protecionista iniciada por Trump, até mesmo para tentar blindar a economia americana da perda de empregos causada pela entrada de mercadorias baratas produzidas com práticas inaceitáveis para o século que vivemos.

Incentivos oficiais para que empresas brasileiras ampliem presença no mercado americano seriam vistos pela nova administração como um aceno do Brasil de que o país tem compromisso não com a “grana fácil” oriunda de acordos espúrios com ditaduras, mas com valores universais.

Quando a água sobe é que vemos com quem podemos contar. O Brasil pode demonstrar de forma inequívoca a sua vocação para a liberdade e apoio aos seus pares em tempos de vacas magras, com isso se juntando desde já com o mundo livre para, quando e se um dia houver uma disputa de forças entre o autoritarismo e a democracia, estar do lado certo da história.

Os EUA, por sua vez, estão agora refletindo se fizeram certo ao mover uma enorme parte de sua cadeia produtiva para países cujos custos são baixos exatamente por não aderirem a padrões mínimos de respeito aos Direitos Humanos.

Um dia a conta chega, esta é a lição clara. E a história mostra que, de tempos em tempos, esta disputa acaba ocorrendo de uma forma mais objetiva e violenta do que a do dia a dia que, por vezes, passa despercebida aos mais desatentos.

O Brasil pode demonstrar ao mundo que tem calibre para ser um parceiro de negócios limpo, livre e democrático (mesmo com todas as turbulências e “custos” que a liberdade traz), tornando-se uma alternativa verdadeiramente sustentável ao lucro fácil oriundo da exploração humana e do meio ambiente.

Outro aspecto importantíssimo a ser atentado por quem quer fazer negócios duradouros com os Estados Unidos: o país não tem este nome à toa. Ele é formado por estados que desfrutam de imensa autonomia em relação ao seu governo federal. Cada estado legisla de forma quase que totalmente autônoma, inclusive na esfera penal, o que pode ser visto com clareza em temas como a maconha ou a legalidade do porte ostensivo de armas.

Taiwan e Israel são bons exemplos de compreensão desta peculiaridade americana. Taiwan envia representantes de estado a estado para fechar acordos regionais em temas diversos e às vezes tão simples como a concessão de reciprocidade do direito de utilizar a carteira de habilitação. Em outras palavras, quem tem uma habilitação para dirigir em Taiwan está dispensado de obter a americana em alguns estados.

Pode parecer desimportante, mas aqueles diplomatas taiwaneses que negociaram com legisladores estaduais americanos conseguiram não apenas o que pediam, mas também criaram laços de amizade e confiança com aqueles que um dia serão eleitos para a Presidência da República. Cultivar relações mais fortes com governadores e legislaturas estaduais pode trazer enormes benefícios de curto, médio e longo prazo para o entendimento mútuo.

Todos os presidentes americanos surgiram, por óbvio, de algum dos estados. E, assim como o presidente Biden, quase sempre começam cedo a trabalhar em cargos de pequena amplitude, em geral em conselhos municipais ou em casas legislativas regionais.

Sabemos que amigos de verdade, aqueles que estendem a mão quando mais necessitamos, são aqueles que cultivamos desde quando não éramos nada e não tínhamos nada a oferecer, a não ser a própria amizade e uma certa similaridade de visão de mundo.

Se o Brasil tiver habilidade para entender o momento histórico vivido hoje pelos EUA e inteligência estratégica para lidar com ele, então não tem nada a temer com Biden na presidência. Muito pelo contrário.

*Rodrigo Guedes Nunes e Frederic Rocafort são advogados do escritório de advocacia Harris Bricken

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