A anatomia do perdão

A anatomia do perdão

Flora Victoria*

21 de junho de 2020 | 04h00

Flora Victoria. FOTO: DIVULGAÇÃO

As imagens de policiais americanos ajoelhando-se diante de manifestantes que protestavam contra a morte de George Floyd, asfixiado por um policial em 25 de maio, em Mineápolis, ganharam o mundo por seu impactante simbolismo. Em meio à pandemia, à crise econômica que vem em seu rastro, aos números de infectados, de mortos, de perdas, eis que algo inusitado ganha espaço nesse cenário perturbador: o perdão. No instante em que uso essa palavra, muitas coisas podem vir à cabeça – de questões religiosas a tentativas de colocar panos quentes numa trágica situação. No entanto, não são por esses caminhos que eu vou enveredar. Vou falar da ciência por trás do perdão. Por ciência refiro-me a estudos que seguem as coordenadas da metodologia científica, e que com o advento da psicologia positiva passou a direcionar suas lentes a tudo o que nos torna mentalmente saudáveis. Por exemplo, o perdão.

É na Universidade de Stanford, que abastece o Vale do silício com seus novos milionários, que se encontra um dos principais focos desse estudo. Stanford abriga o Projeto do Perdão, um laboratório criado pelo professor Fred Luskin que não apenas pesquisa o perdão, mas também aplica suas descobertas em iniciativas que vão do treinamento de psicólogos à pacificação de comunidades dilaceradas por conflitos. É de Luskin que vem a definição do perdão como a habilidade de deixar o passado para trás. Aqui, porém, cabe avisar. “Deixar o passado para trás” não é um estímulo à impunidade e ao esquecimento. Não se trata de fazer de conta que nada aconteceu – mesmo porque, sem admitir que algo aconteceu, não existe perdão. Entender essa peculiar anatomia é essencial para desfazer mal-entendidos e usufruir do poder regenerador do perdão, em vez de apenas perpetuar mágoas e injustiças, ou de tentar tolerar o intolerável – o que, por sinal, em nada contribui para uma saúde mental mais robusta e para uma sociedade menos desigual.

Perdoar não é o mesmo que desculpar ou justificar. Não é eximir alguém das consequências de suas ações. Não é nem sequer uma reconciliação – às vezes, a reconciliação é uma possibilidade, e às vezes não é. Perdoar é entender que o passado não pode ser mudado, e concentrar as energias em mudar aquilo que é possível – recriar o presente para construir um futuro em bases diferentes. Essa atitude proativa que o perdão enseja é um santo remédio contra a ruminação mental, o ato de repassar interminavelmente uma situação de dor, retroalimentando o estresse e a ansiedade. Sob o ponto de vista psicológico, quanto mais você rumina, mais reforça a sensação de desamparo, de não estar no controle da situação, de que as outras pessoas não são dignas de confiança. A autoconfiança também é abalada, assim como a autoestima e a autoimagem. A conclusão inevitável é que, por mais negativo que tenha sido o evento vivido, a ruminação o torna ainda pior. Perdoar é reassumir o controle das próprias emoções. É adotar, diante da pessoa ou situação que o ofendeu, uma postura que transmite uma mensagem de resiliência e de força interior: “Você não vai mais controlar o modo como eu me sinto”.

Quando, e somente quando, essa postura é adotada por quem foi ofendido e reconhecida pelo ofensor, um passo inicial para a conciliação pode estar sendo dado. E isso ocorre porque o perdão é um estímulo à empatia. Emiliano Ricciardi, professor de Psicobiologia e Psicofisiologia da Universidade de Pisa, assina, com colegas, um estudo com um nome sugestivo e um tanto poético: “Como o cérebro cura feridas emocionais: a neuroanatomia funcional do perdão”. Ele mapeou as regiões cerebrais envolvidas no ato de perdoar. Em seu estudo, voluntários que se submetiam à ressonância magnética deveriam imaginar cenários de dor emocional seguidos por duas possíveis saídas: perdoar quem causou a dor ou alimentar o rancor. O que as imagens da ressonância mostraram é que o perdão ativa áreas do cérebro associadas à empatia, à perspectiva e ao controle emocional. A empatia é acionada porque o indivíduo está tentando entender os motivos de quem o ofendeu, ou mesmo se colocar no lugar dele. A perspectiva ajuda a redimensionar os acontecimentos e ajustar sua proporção – e, consequentemente, seu impacto. E o controle emocional proporciona a contenção da raiva, da frustração e da irritação e a adoção de uma atitude mais compreensiva e benevolente.

Contudo, é preciso frisar mais uma vez. Perdoar não obriga ninguém a permanecer em uma relação tóxica, ou a desistir de suas reivindicações por justiça ou reparação. Para que o ato de ajoelhar-se dos policiais americanos seja mais do que um simbolismo, é preciso que haja arrependimento. Essa palavra poderia ser definida como a dor sentida pela dor causada, implicando, portanto, a intenção de não voltar a causar essa dor. E, é claro, é necessário também um intenso processo de mudança para que a intenção possa dar origem à ação. E para que a ação possa, enfim, dar origem a uma realidade transformada.

*Flora Victoria, mestre vem psicologia positiva aplicada pela Universidade da Pensilvânia, empresária, trainer, palestrante e autora de O Tempo da Felicidade (HarperCollins)

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