A Amazônia é de todos

A Amazônia é de todos

José Renato Nalini*

19 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O mundo inteiro lamenta o que o governo federal brasileiro faz com a última grande floresta tropical do planeta. O impacto atinge a uma legião de viventes. Não prejudica apenas os brasileiros. Legítima a preocupação mundial quanto a essa insana desfaçatez.

Mas não basta repudiar e criticar, mas permanecer inerte. Todos podem fazer algo para frear essa volúpia exterminadora. Aqui, exigir compostura de quem é pago pelo povo para defender seus interesses, indignar-se, provocar o Parlamento e o Judiciário para atuar, principalmente o Ministério Público, em suas atribuições institucionais destinadas à tutela dos interesses difusos e coletivos.

Mas também prestigiar aqueles que, mais concretamente, opõem-se ao descalabro. Quem visita o site Amazônia 2030, vê a dimensão da tragédia. Só que alguns abnegados heróis enfrentam a incompreensão e até a perseguição de quem assumiu a condição de destruir esse patrimônio e formam uma rede de solidariedade. Estimulam pesquisas e fazem parcerias no rumo exatamente contrário ao do governo federal: a preservação e a recuperação do ecossistema.

Assim as cooperativas, os ribeirinhos que captam e utilizam energia solar, a indústria do ecoturismo, as novas técnicas de produção que comprovam a possibilidade de produzir mais carne sem grilagem. O repórter Pablo Pereira mostrou algumas dessas iniciativas.

A Fundação Amazônia Sustentável – FAS considera viável a recuperação do bioma. O programa Floresta em Pé já evidenciou a redução de 61% no desmatamento, após receber apoio dos governos estrangeiros, além da participação de empresas brasileiras. São quase duzentas instituições com mais de trezentos parceiros institucionais. Atua em dezesseis áreas de proteção natural da Amazônia, envolvendo 7,5 mil comunidades ribeirinhas, além da periferia urbana de Manaus.

O trabalho de apoio e conscientização já gerou 202% de aumento na renda média das comunidades, com melhoria em todos os indicadores. O governo federal não só se omite no apoio, como continua a patrocinar o desmatamento e a grilagem ilegal, conforme o testemunho de Virgilio Viana, o Superintendente da FAS.

As cooperativas constituem outra auspiciosa realidade. Uma delas, com 172 pequenos e médios produtores rurais em Tomé-Açú, a 240 quilômetros ao sul de Belém, explora produtos naturais da região. Produz e vende polpa de frutas, pimenta do reino e cacau, sementes oleaginosas para produção de manteigas de cupuaçu e maracujá. O destino é São Paulo, mas também Argentina e Japão. Um brasileiro que ensina na Universidade de Nova York e pesquisa o assunto, afirma que existe uma cesta com sessenta e quatro produtos que podem ser explorados na floresta, sem cortar uma só árvore e sem causar qualquer dano ambiental.

Há um tesouro incalculável de moléculas, enzimas e fármacos ainda ocultos na floresta. Também não há incentivo à cultura do valor agregado. Em vez de exportar o óleo, fazer o xampu. Produzir chocolate, em vez de vender cacau. O consumidor pode ajudar, escolhendo as marcas comprometidas com a preservação da floresta.

É incrível constatar a cegueira das autoridades federais, que não enxergam o quanto o Brasil poderia ganhar se levasse a sério a pauta de exportações dos produtos amazônicos. Estes podem entrar no Primeiro Mundo com valor substancialmente acrescido, pois a mensagem é “ajude a preservar a floresta”. Os sessenta e quatro produtos da Amazônia geram receita de 300 milhões de dólares por ano e o mercado global atinge quase 180 bilhões de dólares, mas a nossa Amazônia, com 30% da cobertura vegetal do planeta, tem participação pífia, de 0,2%!

Outra possibilidade concreta é o ecoturismo. A Amazônia é objeto do desejo de todo turista do Primeiro Mundo. O exemplo mostrado por Pablo Pereira é a lagoa de Acajatuba, a 60 quilômetros de Manaus. Passeios de barco e expedições de canoa pelo Rio Negro, são a rotina da família proprietária do Hotel Manati Lodge, pousada de oito quartos, construída sobre seis metros de palafita. Dentro da Unidade de Conservação da natureza Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro.

O turismo é uma indústria rentável. Salvou a Espanha durante recente crise. No Brasil, não é convenientemente explorada. Mas isso não deve assustar empreendedores sensíveis à urgência de se salvar a floresta amazônica. Toda iniciativa nessa direção há de ser recompensada.

Por isso é bom que os brasileiros se lembrem: a Amazônia é de todos. É nossa também. Temos legitimidade ao exigir que ela seja preservada. Não desistamos, a despeito das turbulências. Se Deus quiser, passageiras.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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