A ajuda de Bendine para a Odebrecht contra ‘efeito de arresto’ com a Lava Jato

A ajuda de Bendine para a Odebrecht contra ‘efeito de arresto’ com a Lava Jato

Delator disse que em 2015, como presidente do Banco do Brasil, 'Cobra' afirmou que 'coordenaria soluções junto ao setor financeiro' para evitar quebra de empresas alvos da Lava Jato

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

23 Agosto 2017 | 05h00

No dia 26 de janeiro de 2015, Marcelo Bahia Odebrecht retornava de férias com uma preocupação na cabeça: o avanço da Operação Lava Jato, que dois meses antes levara à cadeia empresários do “clube de empreiteiras”, que fatiava bilionários contratos na Petrobrás. Um dos primeiros compromissos profissionais foi uma reunião com o presidente do Banco Brasil, Aldemir Bendine, em uma sala da direção do banco, na Avenida Paulista, em São Paulo.

“Fomos recebidos em uma sala de reunião do Banco do Brasil em São Paulo (Av. Paulista, 2163, 18ª andar) e quando Aldemir Bendine entrou na sala, já o fez ostentando uma pasta verde com o Brasão da Presidência”, narrou Fernando da Cunha Reis, ex-presidente da Odebrecht Ambiental, que acompanhou Odebrecht no encontro, marcado a pedido da secretária de Bendine.

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A “Pasta Verde” era a credencial de Bendine como interlocutor da então presidente da República, Dilma Rousseff, afirmaram os delatores da Odebrecht. “Claramente a ostensividade da ‘pasta verde’ era para ‘certifica-lo’ como interlocutor mandatado da Presidenta da República, pois foi assim que ele se apresentou naquele dia, dizendo ter sido encarregado pela Presidente para interagir com as empresas, buscando especialmente garantir a higidez financeira destas, pois, a ameaça de ‘quebra’ poderia ser um indutor/acelerador de novas delações premiadas.”

O anexo da delação de Fernando Reis sobre o assunto, denominado “Aldemir Bendine, reunião para tratar de Lava Jato”, foi anexado à denúncia contra o ele, apresentada nesta terça-feira, 22, pela força-tarefa, em Curitiba. Bendine foi acusado pela cobrança de R$ 17 milhões de propinas para a Odebrecht e pelo recebimento de R$ 3 milhões. A ele são imputados crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução à Justiça.

Os delatores afirmaram que o material em posse de Bendine havia sido encaminhado para a presidente Dilma, que escalou o então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, para resolver o assunto.

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Bendine está preso desde o dia 27 de julho, quando foi alvo da 42ª fase – Operação Cobra, referência ao seu codinome no setor de propinas da Odebrecht. A reunião em janeiro de 2015 ocorreu dias antes dele assumir a presidência da Petrobrás. Marcelo Odebrecht também falou do encontro e das possibilidades de o Banco do Brasil ajudar a salvar as empresas do “efeito do arresto”.

“Naquele momento, apesar de a Odebrecht não ter ainda sido alvo, havia diersos executivos de outras emprsas presos na 7ª fase da Operação Lava Jato e já se ouvia rumores dda intenção de Ricardo Pessoa (UTC) de fazer uma acordo de colaboração premiada”, registra o delator.

R$ 200 bilhões. “Bendine também disse que coordenaria soluções junto ao setor financeiro, dizendo que tranquilizaria os bancos e que o Banco do Brasil sairia na frente dando o apoio, evitando a quebra das empresas envolvidas na Lava Jato, já que, segundo ele disse, os efeitos de uma crise de liquidez generalizada seriam catastróficos, provocando um rombo de R$ 200 bilhões, o que ele chamou de ‘efeito de arrasto’.”

Para o delator, principal interlocutor da Odebrecht com Bendine, a conversa entre eles naquele dia 26 de janeiro sugeriu a ele que “estávamos todos do mesmo lado, tentando de alguma forma nos proteger”. “Se as possíveis colaborações causavam receio à Odebrecht, ficou absolutamente claro, que o Governo também as temia. Temor este que alimentou este encontro entre a empresa e o governo para discutir os efeitos da Operação Lava Jato e possíveis sugestões para evitar as delações.”

Reis disse eu sua delação, fechada em dezembro de 2016 com a Procuradoria-Geral da República (PGR), que no encontro foram discutidas a “descaracterização do conceito de grupo econômico, garantia de liquidez das empresas, com a liberação de financiamentos pendentes, pagamentos de faturas retidas na Petrobrás, levantamento do bloqueio cautelar de empresas na Petrobrás, entre outras coisas”.

Na transcrição de seu depoimento de delação, prestado aos procuradores da Lava Jato no dia 12 de dezembro de 2016, posteriormente ao anexo entregue por sua defesa, em que resume o tema a ser tratado,  executivo da Odebrecht detalhou da preocupação de evitar uma quebradeira na empresa.

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“Ele disse que o faria, que mandaria uma mensagem pro governo, mandaria uma mensagem pro setor financeiro, e ele, Banco do Brasil, de fato, tem essa preponderância quando ele atua, ele manda um sinal de qual é a posição do governo em relação aquela atuação do Banco do Brasil, ou seja, os bancos privados se guiam muito pelo Banco do Brasil, por onde, que camnho ele está adotando.”

Dez dias depois do encontro, Bendine foi nomeado presidente da Petrobrás por Dilma. Ponto de partida das investigações contra ele, as delações da Odebrecht levaram investigadores a provas do que foi narrado pelos delatores. Nas apurações da 42ª fase, a Lava Jato localizou um e-mail funcional de Bendine em que ele tentou desbloquear a empreiteira e beneficia-la em um negócio do Estaleiro Enseada Paraguaçú, que pertence ao grupo.

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A investida acabou não se efetivando, pois o setor jurídico da Petrobrás alertou sobre os riscos. As mensagens foram anexadas na acusação criminal contra Bendine, que será analisada pelo juiz federal Sérgio Moro. Se aceitar a acusação, o ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil passa a ser réu da Lava Jato.

O principal alvo desta nova fase esteve à frente do Banco do Brasil entre 17 de abril de 2009 e 6 de fevereiro de 2015, e foi presidente da Petrobás entre 6 de fevereiro de 2015 e 30 de maio de 2016.

“Há evidências indicando que, numa primeira oportunidade, um pedido de propina no valor de R$ 17 milhões foi realizado por Aldemir Bedine à época em que era presidente do Banco do Brasil, para viabilizar a rolagem de dívida de um financiamento da Odebrecht AgroIndustrial”, diz a Procuradoria.

Os delatores afirmaram que teriam negado o pedido de solicitação de propina, em um primeiro momento, porque entenderam que Bendine não tinha capacidade de influenciar no contrato de financiamento do Banco do Brasil. De acordo com o Ministério Público Federal, em decorrência deste novo pedido e com receio de ser prejudicada na estatal petrolífera, a Odebrecht optou por pagar uma propina de R$ 3 milhões, solicitada em encontros posteriores. O valor foi repassado em três entregas em espécie, no valor de R$ 1 milhão cada, em São Paulo.

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