A agressão à democracia americana

A agressão à democracia americana

Edson Miranda*

07 de janeiro de 2021 | 10h00

Edson Miranda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A recente invasão do Capitólio em Washington para impedir a oficialização e a certificação da eleição de Joe Biden, como o próximo presidente da maior potência do planeta, é de estarrecer. A que ponto chegou a polarização política nos Estados Unidos.

A turba insuflada por mensagens eletrônicas de Donald Trump, invadiu o parlamento da maior democracia do mundo, como última medida para impedir a posse de um presidente eleito, que promete colocar a terra do Tio Sam nos trilhos novamente e, face à sua influência nas relações internacionais, também alinhar o mundo no rumo certo.

Com certeza, George Washington, Lincoln, Roosevelt e Kennedy devem estar se revolvendo em seus esquifes com a conduta do presidente norte-americano em seus últimos dias de mandato.

A referência mundial da democracia e do presidencialismo está esgarçando as relações sociais por causa da polarização política, que chega ao ponto de colocar em xeque a própria validade do seu processo eleitoral. Diga-se, aliás, que todas as afirmações de fraude na eleição não foram provadas e as tentativas para invalidar a eleição foram rechaçadas pelo Judiciário americano.

FOTO: LEAH MILLIS/REUTERS

A grande preocupação é que, nos últimos tempos, estamos espelhando as atuais trapalhadas políticas americanas por aqui.

A democracia brasileira foi conquistada a duras penas. Enfrentamos regimes ditatoriais durante a Republica e pagamos o alto preço por depositarmos nosso futuro nas mãos de líderes com poderes ilimitados. É confortável não ter que decidir o que é melhor para nós e transferir essa decisão para outrem. O problema está no outrem, que se corrompe com o poder e busca assegurá-lo a qualquer preço, solapando a vontade popular e impondo a sua. Custe o que custar.

Um mandato não pode ser permeado por inverdades ou afirmações infundadas. Um mandato não pode ser plataforma para insuflar seus partidários a incendiar a bandeira da democracia e abalar as instituições que a mantém hasteada em seu pleno vigor, apenas na promessa de supostos dias melhores.

Nem sempre o que é bom para o Estados Unidos é bom para o Brasil. Principalmente a balbúrdia, a prepotência e a inconsequência. Liberdade, paz social e prosperidade são os anseios dos brasileiros. É claro que não é tarefa fácil conquista-los, mas bom senso, respeito e responsabilidade são os meios seguros para obtê-los.

Ainda é possível corrigir o rumo da nau, antes que naufrague na tormenta. Afinal, o dito popular é um verdadeiro vaticínio: quem semeia vento, colhe tempestade.

*Edson Miranda, advogado, professor universitário e escritor

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