47 procuradores da Lava Jato ganham premiação internacional na África do Sul

47 procuradores da Lava Jato ganham premiação internacional na África do Sul

Maior ofensiva já desfechada contra a corrupção no Brasil foi reconhecida pela Internacional Association of Prosecutors (IAP), que outorgou o Special Achievement Award à força-tarefa do Ministério Público Federal no Rio e em Curitiba, além do Grupo de Trabalho da Procuradoria-Geral da República

Ricardo Brandt e Julia Affonso

12 Setembro 2018 | 17h27

Da esquerda para a direita: José Robalinho Cavalcanti, Marisa Ferrari, Fabiana Schneider e Maria Clara Noleto. Foto: MPF

A Internacional Association of Prosecutors (IAP) concedeu nesta quarta, 12, o prêmio Special Achievement Award a 47 membros (veja aqui) do Ministério Público Federal que integram ou integraram as forças-tarefas da Lava Jato no Paraná e no Rio, além do Grupo de Trabalho da Procuradoria Geral da República.

A premiação é outorgada anualmente durante a Conferência Internacional da entidade, que este ano foi realizada em Joanesburgo, na África do Sul, informou a Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria no Rio e em Curitiba.

O Special Achievement Award (Prêmio por Realização Especial) é concedido ao promotor, procurador ou grupo de procuradores que ‘demonstrou especial dedicação no cumprimento de suas responsabilidades profissionais ou as cumpriu em face de circunstâncias duras ou adversas ou, ainda, de outras circunstâncias que merecem reconhecimento especial’.

A entidade internacional destacou que a honraria foi concedida em razão das notáveis conquistas da Lava Jato no fortalecimento do estado de direito no Brasil, combatendo a corrupção e a fraude em grande escala.

As procuradoras da República Marisa Ferrari, Fabiana Schneider e Maria Clara Noleto, além do presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, José Robalinho Cavalcanti, receberam o prêmio em nome de todos os colegas.

A Lava Jato é a maior investigação de combate à corrupção e lavagem de dinheiro da história do Brasil. O caso teve início em março de 2014, em Curitiba, a partir da apuração dos crimes cometidos por quatro organizações criminosas lideradas por doleiros.

Com o aprofundamento das investigações, foram identificados desvios vultosos de recursos públicos em contratos da Petrobrás e de outros órgãos públicos, com ramificações até em outros países.

Em outubro de 2015, a denúncia relativa a irregularidades nos contratos para construção da usina nuclear de Angra 3 foram remetidas para o Rio.

O aprofundamento das investigações pela força-tarefa da Lava Jato no Rio levou à descoberta de uma grande organização criminosa atuando para desviar recursos públicos dos cofres do estado, com a prisão do ex-governador Sérgio Cabral durante a Operação Calicute, em novembro de 2016.

A procuradora Fabiana Schneider destacou que, a partir da investigação de um esquema local de lavagem de dinheiro, a Lava Jato se tornou uma das maiores investigações da história da América Latina.

“Nós processamos e obtivemos sentenças duras contra alguns do mais poderosos membros da elite econômica e política do país”, disse Schneider.

“A vigilância pública contra a corrupção é maior agora e tem o apoio da opinião pública”, enfatizou. “Nossa tarefa não é simples. Nós buscamos mudar hábitos desonestos que cedem de maneira dolorosa.”

A procuradora ainda relatou ameaças à investigação, como projetos de lei apresentados no Congresso para restringir a independência do Ministério Público.

A IAP é uma organização não governamental de procuradores e promotores totalmente independente e a única desse segmento com atuação global.

Foi criada nos escritórios das Nações Unidas em Viena em 1995, quando se constatou a necessidade de ampliar a cooperação internacional devido ao rápido crescimento de crimes transnacionais, particularmente tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e fraude.

Atualmente, a associação promove a troca de informações e de experiência entre mais de 350 mil procuradores e promotores em 177 países.

“A Lava Jato tem recebido grande reconhecimento internacional, porque tem chamado a atenção de estudiosos e profissionais do mundo todo como exemplo de que um Ministério Público sério e independente, agindo de acordo com o Estado Democrático de Direito, é imprescindível para se opor à corrupção sistêmica”, declarou o procurador Paulo Roberto Galvão, da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, base e origem da grande investigação.

Galvão anota que ‘outros países almejam se espelhar no exemplo brasileiro para tentar combater a corrupção também em seus governos’.

“Isso contribui para o desenvolvimento de uma consciência global contra a corrupção, esse grave mal que assola tanto o Brasil quanto outros países e retira recursos da população para favorecer grupos políticos e empresariais no poder.”

O trabalho desenvolvido pelas equipes da Lava Jato é inovador em vários aspectos, o que contribui para os resultados históricos alcançados até agora e também para a transparência da operação, destacam os procuradores que integram a força-tarefa.

Entre esses fatores estão a cooperação internacional, o uso de ferramentas de ‘big data’ para analisar o grande volume de dados, a realização de acordos de colaboração premiada que permitem a ampliação das investigações, a colaboração entre as várias instituições públicas envolvidas na operação e a criação do primeiro site brasileiro de um caso criminal (www.lavajato.mpf.mp.br).

No Paraná, por meio de 196 acordos de colaboração premiada com pessoas físicas, 11 acordos de leniência com pessoas jurídicas e 1 termo de ajustamento de conduta (TAC), está prevista a recuperação de R$ 12,3 bilhões para os cofres públicos. Desse total, R$ 2,5 bilhões já foram efetivamente devolvidos.

Ao longo de pouco mais de quatro anos, foram realizados 548 pedidos de cooperação internacional no âmbito da Lava Jato, sendo 269 pedidos ativos para 45 países e 279 pedidos passivos com 36 países. Incluindo os colaboradores, mais de 160 pessoas foram condenadas, contabilizando mais de 2.400 anos de pena.

Além disso, também tramitam na Justiça Federal do Paraná oito acusações de improbidade administrativa contra 50 pessoas físicas, 16 empresas e um partido político.

No Rio, foram apresentadas 44 denúncias contra 255 pessoas por 14 tipos de crime, com a solicitação de reparação de danos no valor de R$ 2,36 bilhões. Nos 35 acordos de colaboração já homologados, foram ressarcidos e pagos em multas compensatórias R$ 575 milhões, além de R$ 134 milhões em dois acordos de leniência. Até o momento, 37 pessoas foram condenadas a penas que somam 558 anos e 4 meses de reclusão.

A PGR, por sua vez, já apresentou 36 denúncias ao Supremo, envolvendo 101 acusados. O total de manifestações em processos (apelações, habeas corpus, mandados de segurança etc.) chega a 4,6 mil. A primeira condenação da Lava Jato no Supremo ocorreu no mês passado.

Os procuradores de Curitiba e do Rio já foram premiados pelo Global Investigations Review (GIR) nos anos de 2016 e 2017, respectivamente, na categoria ‘Órgão de Persecução Criminal ou Membro do Ministério Público do Ano’, e receberam o Diploma de Mérito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

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