40 decepções nos contemplam

40 decepções nos contemplam

José Renato Nalini*

10 de junho de 2022 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Há 40 anos o Brasil recebeu cerca de duzentos chefes de Estado para a ECO-92, radiosa esperança de concretização de um projeto perfeitamente viável: a consolidação da “Potência Verde”. Hoje acumulam-se decepções, que ultrapassam o número de anos que nos separa daquele evento. Convém enumerá-las.

1.Somos “Pária Ambiental” e há quem se orgulhe disso. Bastaria esta, mas tem mais; 2. Todos os meses há recordes de desmatamento da Amazônia; 3. Os demais biomas também estão sacrificados; 4. O ministro contra o meio ambiente convocou grileiros e exploradores do garimpo a se articularem, quando falou em “soltar a boiada”; 5. Greta Thumberg, que deveria servir de exemplo às crianças e jovens brasileiros, na sua faina de educação ambiental, foi ridicularizada; 6. Ofensas a países que custeavam projetos para a preservação da Amazônia bloquearam suas contribuições; 7. Desmanche orquestrado das estruturas lentamente edificadas ao longo de décadas e destinadas à proteção da natureza; 8. Funcionários que se opuseram ao desmanche da estrutura de tutela foram defenestrados; 9. Brasil se recusou a sediar encontro da ONU para cuidar da natureza; 10. Ofensas à China fizeram com que ela procurasse autonomia na produção de grãos e investisse pesadamente na África; 11. Escassa atenção para medidas defensivas fez com que tivéssemos inúmeros eventos fatais, que poderiam ser evitados; 12. Ignora-se a ação predatória de grileiros que se apoderam de áreas públicas e as devastam; 13. Incentiva-se a exploração criminosa de minérios em áreas demarcadas; 14. Ironiza-se e minimiza-se a importância das populações indígenas na conservação ambiental; 15. Aceita-se como se fora normal, a entrada de lixo químico e até radioativo em nosso território; 16. Propala-se que somos o “celeiro do mundo”, quando a fome acomete mais de 33 milhões de brasileiros, o que faz o Brasil voltar ao “mapa da fome”; 17. Autoriza-se a entrada no país de herbicidas proibidos nos países de origem; 18. Dissemina-se “fake News” de que a China quer comprar nosso litoral; 19. Invoca-se o superado conceito de soberania para legitimar a destruição da floresta; 20. Sustenta-se a má-fé de ex-funcionários inescrupulosos que redesenham o mapa brasileiro para fazer crer que temos mais reservas florestais do que território; 21. Folcloriza-se o papel das ONGs, considerando-as todas inimigas do Brasil; 22. Mente-se na COP26, em Glasgow, ao afirmar que a Amazônia está intacta, assim como os portugueses a encontraram em 1500; 23. Ignora-se a mutação climática derivada do aquecimento global, desmentindo a ciência e ridicularizando os cientistas; 24. Não se leva a sério a educação ambiental, que está na Constituição como dever do Estado desde 5.10.1988; 25. Mantém-se o atestado de subdesenvolvimento evidenciado com a existência dos “lixões”, que existem aos milhares por este território continental; 26. Anistiam-se os grileiros, premiando-os com títulos de posse legítima, sem o procedimento da regularização fundiária; 27. Debilita-se a FUNAI, com aparelhamento de parceiros ideológicos em todas as esferas que deveriam proteger a natureza e a biodiversidade; 28. Deixa-se prescrever as multas por infração ambiental, como estímulo à continuidade de práticas nefastas; 29. Brasil patina depois de seis meses da COP-26. Todos os compromissos estão no papel; 30. Vinte milhões de hectares deveriam ser replantados mas não foram, nem existe previsão para que isso ocorra; 31. Não se combate a poluição que prospera como evidência de nosso subdesenvolvimento: no ar, no solo, na água interna e no mar; 32. A redução do nível de poluição e a expansão de áreas verdes evitaria milhares de mortes, mas é meta ignorada; 33. Intensifica-se uma campanha sórdida contra artistas que se preocupam com a destruição de nosso patrimônio maior, como Caetano e seu ato pela Terra, Sebastião Salgado e as fotos do extermínio do verde; 34. Não se quer enxergar que a crise climática eleva desnutrição, migração forçada e doenças, enquanto se incentiva orçamento secreto e Fundões Eleitoral e Partidário; 35. Desperdiça-se o nosso imenso capital disponível para uma política séria de descarbonização e insiste-se em intensificar o uso de combustíveis fósseis e venenosos; 36. Mais de um bilhão em multas aplicadas pelo IBAMA vão prescrever, por inércia de um setor criado para enfraquecer a defesa ambiental; 37. O cadastro ambiental é usado para grilagem na Amazônia; 38. Aceita-se como “Código Florestal” uma legislação que sequer menciona o verbete “florestal”; 39. O mundo clama e o Brasil não enxerga: precisamos de ¾ de energia limpa e dobrar a agroflorestal para cumprir obrigações assumidas; 40. E já não temos Paulo Nogueira Neto, Aziz Ab’Saber, Enéas Salati e outros que já foram levados.

A continuar a relação das desgraças, facilmente chegaríamos a 400 ou mais. Porém, basta essa amostragem para dimensionar a tragédia.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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