31 de dezembro

31 de dezembro

Ricardo Viveiros*

31 de dezembro de 2020 | 09h40

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não me interessa lembrar o dia de ontem.
Não me importa estar
no dia de hoje.
Eu quero ser
o dia de amanhã.

Vou morrer a noite passada
e nascer o sol matutino.
Ser o último silêncio,
o primeiro ruído dos pássaros e ser o voo inicial
da revoada para o sul.

Quero dizer o primeiro — Bom dia!
E ser a espera de que ele seja o melhor.
Desejo ser as olheiras dos
que se amaram na madrugada,
o gosto amargo da festa
e o aroma de hortelã do beijo cotidiano dos casais.

Quero beber o vinho da primeira missa e tontear a fé das beatas. Preciso ser o sangue derramado no primeiro acidente de tráfego, ser o asfalto quente, a calçada fria e o brinquedo quebrado
na euforia infantil da manhã.

Quero ser o primeiro gesto
de fome, o primeiro olhar de amor e a liberdade das ações iniciais.

Eu quero ser
o último a chegar no relógio de ponto e bater o cartão de presença
no mundo ocidental,
no dia de amanhã…

Este poema de Ricardo Viveiros está no livro Doces Beijos Amargos, Editora Rios, 1.ª edição em 1984, capa de Zélio Alves Pinto e apresentação de Dom Paulo Evaristo Arns

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro da Academia Paulista de Educação (APE). Autor de vários livros, entre os quais O poeta e o passarinho (Ed. Biruta), Saudade (Ed. Girassol) e O menino que lia nuvens (Ed. Gaivota)

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