30ª fase da Lava Jato mostra quão alastrada é corrupção na Petrobrás, diz procurador

30ª fase da Lava Jato mostra quão alastrada é corrupção na Petrobrás, diz procurador

Roberson Pozzobom explica que Operação Vício tem como foco esquema de corrupção em contratos de tubulações da Petrobrás feitos pela Apollo e Confab; esquema movimentou pelo menos R$ 40 milhões em propina em negócios de R$ 5 bilhões

Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

24 de maio de 2016 | 10h39

FOTO COLETIVA

 

O procurador da República Roberson Pozzobom afirmou que a 30ª fase da Operação Lava Jato revela como foi alastrada a corrupção na Petrobrás, descoberta inicialmente nas obras de construção de refinarias e petroquímicas. Batizada de Operação Vício, a nova fase deflagrada nesta terça-feira, 24, mirou contratos de duas empresas fornecedoras de tubulações para a estatal que teriam envolvido propina de R$ 40 milhões e recebimentos do ex-ministro José Dirceu – condenado a 23 anos de prisão na semana passada.

“A 30ª fase da Operação Lava Jato mostra o quão alastrado e disseminado é a pratica de corrupção na Petrobrás que vai além do setor de engenharia, vai para o setor de compras”, afirmou Pozzobom, em entrevista coletiva à imprensa na manhã desta terça, em Curitiba.

Segundo ele, a Operação Vício descobriu uma “extensão do esquema” de corrupção nas obras de refinarias, gasodutos e complexos petroquímicos para o setor de compras de produtos. Foram levados coercitivamente para depor executivos das empresas Apolo Tubulares e Confab, duas gigantes do setor.

“Essas empresas celebraram num ambiente da prática de corrupção contratos R$ 5 bilhões”, afirmou o procurador.

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A Operação Vício, segundo o procurador, mostra que “empresários pagaram propinas para prosperar”, sem serem cobrados por agentes públicos, revelando uma prática comum do mercado. A Apollo, por exemplo, no final de 2009, teria procurado o lobista e operador financeiro do esquema de corrupção na Petrobrás Julio Gerin Camargo “e pediram auxílio para que fossem contratados”.

Por conta dessa intermediação, a Lava Jato aponta que a Apolo fechou R$ 462 milhões em contratos, e teriam pago R$ 6,7 milhões em propina. Os valores teriam beneficiado o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque – cota do PT no esquema de loteamento da Petrobrás – e parte para o partido que o sustentava.

A Confab, segundo o procurador, também buscou em 2006 auxílio na Diretoria de Serviços, via Renato Duque, e conseguiu que a Petrobrás mantivesse regra de conteúdo nacional na estatal para fornecer tubulações.

“Os próprios empresários que buscaram o pagamento de propinas como modelo de negócios”, afirmou Pozzobom.

Para ocultar os rastros da propina, a empresa utilizou-se de transferências no exterior para uma offshore controlada por operador financeiro.

COM A PALAVRA, A APOLO TUBULARS:

A empresa informou que se coloca à disposição para colaborar com a Justiça e que não vai emitir nenhuma nota neste momento

COM A PALAVRA, A CONFAB:

“A Confab informa que não tem evidências de que seus funcionários tenham efetuado pagamentos ilegais para a obtenção de negócios com a Petrobras e que está colaborando com a investigação das autoridades.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ALEXANDRE CREPALDI, QUE DEFENDE O EMPRESÁRIO FLÁVIO MACEDO:

O advogado Alexandre Crepaldi, que defende o empresário Flávio Macedo, preso nesta terça-feira, 24, na Operação Vício, desdobramento da Lava Jato, afirmou taxativamente. “A empresa Credencial não é empresa de fachada e não é pagadora de propinas, apesar das acusações do Ministério Público Federal.”
Crepaldi e seu sócio de escritório, Marcos Gimenez, assumiram a defesa de Macedo e nesta quarta, 25, irão se deslocar a Curitiba, base da Lava Jato, para buscar acesso a todos os dados do inquérito da Polícia Federal.

“Reitero que não houve pagamento de propinas e não se justifica o decreto de prisão preventiva. Podemos assegurar que em liberdade Flávio Macedo não representa nenhum risco à ordem pública, muito menos a qualquer tipo de investigação e nem ao processo. O fato é que estão banalizando o instituto da prisão preventiva.”

Alexandre Crepaldi e Marcos Gimenez ponderam que a prisão preventiva ‘é tida no nosso ordenamento jurídico como uma exceção, mas está sendo tratada como regra’.

“Apesar do respeito que temos pelo juiz de Curitiba (Sérgio Moro, da Lava Jato) entendemos que não há fundamento nem necessidade do decreto de uma custódia preventiva. Vamos explicar tudo o que tiver que ser explicado no momento oportuno. Estamos à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos.”

Na avaliação de Crepaldi a ordem de prisão preventiva ‘foi uma medida um pouco desmedida’.
Para o advogado, a Lava Jato poderia ter ‘averiguado primeiro, ouvindo os sócios da Credencial, os investigados, para depois formar um juízo de valor’.

“Ir direto para uma prisão preventiva, jogando (os sócios da Credencial) na mídia, é complicado.”

 

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