25 de julho é dia do quê?

25 de julho é dia do quê?

Karolyne Utomi*

25 de julho de 2021 | 14h50

Karolyne Utomi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sem dúvidas não é um dia de comemorações ou de homenagens, e sim dia de se lembrar do que não se deve esquecer. O dia 25 de julho simboliza o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

E por que temos que “nos lembrar de não nos esquecermos” da simbologia que este dia traz? Diante de tantos problemas e desafios que todos nós, em especial brasileiros, temos que superar diariamente, muitas vezes não paramos para refletir sobre problemas ainda maiores que alguns grupos específicos de pessoas passam e que no final impactam a toda a sociedade, mesmo que indiretamente.

E quando menciono “problemas ainda maiores” é simplesmente pelo fato de as pessoas destes grupos além de sofrerem os desafios e problemas inerentes a todo cidadão brasileiro, ainda possuírem a soma de problemas impostos aos grupos aos quais pertencem.

Dentre estes diversos grupos que são discriminados, existem as mulheres negras, que até entre os discriminados são consideradas como um dos elos mais vulneráveis. Os números não mentem. Basta analisarmos os dados que apontam os índices de quais grupos mais sofrem com homicídios, feminicídio, analfabetismo, solidão, entre outros.

Os dados do IPEA em 2018, por exemplo, apontaram que mulheres negras estão 50% mais suscetíveis ao desemprego do que pessoas pertencentes a outros grupos. E o que precisamos entender e remediar é que estar entre os números de pessoas que mais são assassinadas, que mais são pobres, que mais são preteridas pelo sexo oposto, que mais estão desempregadas nunca foi e nunca será uma escolha das mulheres negras.

Afinal, ninguém com o mínimo de sanidade mental escolhe pertencer a estes números. Portanto, basta pararmos um minuto para compreendermos que se não há diversidade, em especial de cor, raça e gênero, também na miséria é porque algo errado e injusto continua acontecendo.

E o ponto de partida de tudo isso é muito claro e evidente, e sem entrar em muitos detalhes podemos resumir que lá atrás na história de colonização de vários países, principalmente os da América Latina, um grupo de pessoas com características específicas decidiu que um outro grupo de pessoas com outras características específicas eram pessoas que deveriam ser escravizadas, menosprezadas, discriminadas, espancadas diariamente, mutiladas diariamente, violentadas diariamente, entre muitas outras coisas estrondosas e desumanas.

Fato é que essas pessoas não eram pobres ou analfabetas porque eram desprovidas de inteligência, ou ainda com desenvolvimento cerebral inferior, e sim porque independentemente do que eram e tinham antes, elas foram resumidas a escravas. Mas não eram escravas, e sim escravizadas. E este detalhe faz muita diferença.

E apesar de todo o avanço da humanidade e alterações legislativas, estas “condenações” arbitrárias impostas às mulheres negras há séculos se perpetuam até hoje, seja de forma consciente ou inconsciente. Caso contrário, os números indicativos de pesquisas seriam outros.

Incontestavelmente, as mulheres negras que alcançam altas posições na sociedade e são vistas como mulheres negras de sucesso, sem dúvidas têm muito orgulho de toda a sua caminhada e espaços conquistados, e dos muitos passos que ainda percorrerão, contudo não sentem satisfação e muito menos alegria de serem exceções, pois ainda infelizmente são raras.

É triste pensar que a imagem da mulher negra foi tão deturpada, que não nos damos conta de que romantizaram muitos de seus sofrimentos o que pioram algumas situações cotidianas, como o fato que estas mulheres são vistas por muitos como mulheres naturalmente mais fortes, quando na realidade são fortes por não terem opção de não serem. Ninguém quer ter que sofrer para conquistar as coisas, muito menos ter o sofrimento multiplicado por dez em razão da forma que a sociedade as vê.

Muitas mulheres negras enfrentam a solidão de diversas maneiras, seja por nunca terem personagens a quem pudessem se inspirar e assumirem suas características sem medo, seja por serem vistas como agressivas ou independentes demais assustando pessoas com quem se relacionam, e enfim.

Pensem em como faz pouco tempo em que as mulheres negras em novelas começaram a fazer outros papéis que não fossem de escravas, amantes ou criminosas? Já eram poucas as atrizes negras, pois para chegarem até lá já era praticamente impossível, e quando chegavam, não eram indicadas a outras papéis. Inconscientemente ou conscientemente eram colocadas nos papéis que sempre tentaram destinar a elas.

Quantas mulheres negras incríveis deixam de ser vistas, pois os problemas que elas enfrentam quase não são vistos pelo restante da população, o que é comum dentre tantos problemas que as pessoas enfrentam, mas considerando o contexto histórico injusto e manipulador, isto não pode ser desculpa. No fim, todos perdem, pois uma parte da população que pode ser muito benéfica para o desenvolvimento da sociedade está “no subsolo”.

São muitas as questões atuais que refletem os motivos de resistência das mulheres negras e a existência da simbologia do dia 25 de julho. Mas uma coisa é certa, elas estão cansadas de resistir e já passou da hora de a resistência se tornar preferência. E com certeza, todos podem fazer algo.

*Karolyne Utomi, KR Advogados – parceira DASA. Advogada especialista certificada em Privacidade e Proteção de Dados Pessoais, Direito Digital e Contratos. Palestrante e empresária com foco em educação digital e iniciativas de combate ao racismo

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