22 ecoou em Minas Gerais?

22 ecoou em Minas Gerais?

José Renato Nalini*

27 de março de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 ecoa em todo o Brasil. Polemista, o notável Ruy Castro quis desqualificá-la, afirmando que um episódio insignificante foi construído pela onipotência intelectual da USP. O que não deixa de ser um elogio à nossa Universidade campeã!

Mas é muito bom ouvir outras leituras, que não as laudatórias. Enalteço a Semana de 22 por uma razão afetiva: ela nasceu dentro da Academia Paulista de Letras, instituição que completará 113 anos de ininterrupta atuação na vida bandeirante. Mas estou aberto para todas as demais opiniões. Fui tentar saber se em Minas ela repercutiu.

O fato é que as renovações ideológicas e artísticas já estavam em Minas a proporcionar liberdade formal e linguística a um grupo de jovens idealistas. Eles vinham sobretudo do interior e agitaram culturalmente Belo Horizonte, cidade planejada e urbanisticamente pioneira. Entre outros, eram Carlos Drummond de Andrade, Emilio Moura, Pedro Nava, Martins de Almeida, Abgar Renault, Milton Campos, Gustavo Capanema e João Alphonsus.

Minas não tomou conhecimento da Semana de Arte Moderna de 22, mas os jovens mineiros já se reuniam antes dela, com suas ideias inspiradas na literatura francesa, principalmente em Anatole França, cuja obra era deleitosamente devorada por eles.

A caravana paulista que visitou Minas em 1924, sob argumento de mostrar o barroco para o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, é considerada “A Semana dos Mineiros de Belo Horizonte”. Os mineiros experimentaram e gostaram do que os paulistas já praticavam, o verso livre, o poema-piada, a ironia, o coloquialismo e o prosaismo.

Minas foi o Estado que levou a sério a liberdade. Nela repensou-se a tradição e conciliou-se a lealdade com a História e a abertura para o novo, a inventividade, a ousadia. Além da descoberta identitária de uma singularidade muito especial, deu-se a identificação emocional entre poesia e Minas. Daí falar-se em “mineiridade”, expressão de Laís Correa de Araújo, e em “mineirismo”, termo de Waltensir Dutra.

Drummond liderava o grupo e criou “A Revista”, cujo segundo número trouxe “O Coração numeroso”: “Foi no Rio/Eu passava na Avenida quase meia noite/Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis/Havia a promessa do mar/e bondes tilintavam,/abafando o calor/que soprava no vento/e o vento vinha de Minas“.

Posteriormente publicado no livro “Alguma Poesia”, o trecho “bicos de seio” foi eliminado, por sua conotação sensual. Mas a vanguarda mineira estava no grupo Verde, que nasceu em Cataguases, em 1927. Esse o nome da Revista elaborada por Rogério Fusco, Ascânio Lopes, Guilhermino Cesar, Francisco Inácio Peixoto e Henrique de Resende. O Manifesto do Grupo Verde de Cataguases firmava posição, libertando-se da influência paulista, sobretudo o antropofagismo mas também quanto ao grupo de BH. Prova disso, o poema “Cataguases”, de Ascânio Lopes: Nem BH, colcha de retalhos/iguais/cidade europeia de ruas retas, árvores certas, casas simétricas/Crepúsculos bonitos, sempre bonitos/Nem Juiz de Fora, Ruído, Rumor/Apitos, Klaxons/Cidade inglesa de céu esfumaçado/cheio de chaminés negras/Cataguases/Não és passado, não és futuro, não tens idade/Só sei que és a mais mineira das cidades/de Minas Gerais.

Os jovens de Cataguases não ignoravam a pobreza da cidade, como se verifica no lindo poema de Ascânio Lopes, Serão do Menino Pobre, cujos últimos versos enternecem:Quando mamãe morreu/o serão ficou triste, a sala vazia. Papai já não lia os jornais e ficava a olhar-nos silencioso. A luz do lampião ficou mais fraca/e havia muito mais sombra pelas paredes. E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior. Inegável a analogia com a “Infância” de Drummond.

Em 1929 surge em BH o “Leite criolo”, que pretende responder com  africanidade à antropofagia de Oswald de Andrade. Veja-se o ritmo de “Poema a uma morena, de João Dornas Filho: “Cangote cheiroso/moreno, gostoso/Meu bem! Não tenha receio/do meu galanteio/pois ele aqui veio/louvar-te também”. Não era a abolição da escravatura, somente. Era a libertação de todas as amarras, opressões e humilhações.

É óbvio que tudo o que se passou em São Paulo repercutiu em Minas e em outros Estados, queiram ou não os detratores da Semana. Veja-se   a obra de Adélia Prado, da qual é exemplo o seu “Licença poética”: Quando nasci um anjo esbelto/desses que tocam trombeta, anunciou/vai carregar bandeira/cargo muito pesado pra mulher/esta espécie ainda envergonhada…Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou”.

O Brasil é uma terra formidável! O dia em que se unir e superar estranhamentos, será de fato uma potência em múltiplos setores.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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