2050: de jovem a sênior

2050: de jovem a sênior

Vilmar Rocha*

05 de julho de 2022 | 08h00

Vilmar Rocha. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estamos envelhecendo, e o ritmo de envelhecimento no Brasil é um dos mais rápidos no mundo. O número de idosos triplicou nos últimos 50 anos e projeções apontam que, em 2050, 30% da população brasileira terá mais de 60 anos.

Na contramão do mundo, o Brasil irá diminuir. A partir de 2050 – quando o Brasil terá 238 milhões de pessoas – a ONU projeta uma redução gradual das taxas de crescimento no país, com expectativa de chegar a 200 milhões de pessoas no fim do século.

Estamos deixamos de ser um país jovem e, ao mesmo tempo em que a população envelhece, as famílias têm menos filhos. Essa mudança em nosso perfil demográfico terá impactos econômicos e sociais determinantes para o futuro do Brasil, pois significa mais gastos com saúde e com aposentadoria e uma alteração profunda no mercado de trabalho.

Um dos maiores desafios desse futuro que se aproxima vem a ser sustentar um número cada vez maior de idosos com uma população em idade produtiva que deve entrar em queda nas próximas décadas.

Os ganhos na expectativa de vida vêm aumentando mais rápido que a idade de se aposentar, o que certamente levará o sistema previdenciário ao colapso se não pensarmos em carreiras mais longas com idades de aposentadoria vinculadas à expectativa de vida, que, em 2020, era de 76,8 anos.

Isso nos leva ao segundo grande desafio, que é estruturar as empresas para absorver os 60+, que, hoje, representam 29 milhões, segundo dados do IBGE. Temos observado que o crescimento dos idosos no mercado de trabalho é lento: em seis anos houve um aumento de 15,8%, sendo que, em 2020, pessoas com mais de 60 anos representavam apenas 4,5% dos postos de trabalho. Por outro lado, o desemprego nessa parcela da população cresceu, de 18,5% em 2013 para 40,3% em 2018, porque a oferta é maior, o que aumenta o desemprego.

No Brasil, nas empresas consideradas as melhores para se trabalhar, 97% dos empregados têm menos de 55 anos. Não podemos afirmar que se trata apenas de etarismo. Os avanços da medicina permitem que as pessoas cheguem aos 60 anos com saúde e capacidade de trabalho, no entanto, além de o mercado ainda não estar aberto a esses trabalhadores, eles, por sua vez, não têm a qualificação demandada por um mercado cada vez mais tecnológico. A requalificação de adultos que terão carreiras que devem superar os 50 anos é outro desafio que o envelhecimento do país nos impõe.

Por fim, temos o desafio relacionado à saúde das pessoas idosas, que sem emprego ou com empregos precários, demandam mais da assistência médica pública. Nos próximos anos, nosso sistema de saúde terá que se reestruturar para atender essa população.

A boa notícia é que o envelhecimento da população indica uma melhoria na qualidade de vida, haja vista que o envelhecimento populacional ocorre quando há redução das taxas mortalidade – e também de fertilidade -, favorecendo o acréscimo da longevidade.

Contudo, essa longevidade afeta significativamente os gastos com saúde, que, no Brasil, hoje, representam cerca de 10% do investimento público. Com o aumento da população idosa, é esperado que os gastos com a saúde sejam ampliados, considerando que o custo da assistência de um idoso com mais de 60 anos é 6,9 vezes mais em internações, 7,5 mais nos exames e 5,7 em terapias.

O envelhecimento populacional desafia governo, sociedade e organizações, e o país precisa se preparar agora para garantir que daqui a três, quatro décadas aquele um terço da população com mais de 60 anos esteja inserido no mercado de trabalho de forma igualitária, contribuindo para a previdência social e contando com um sistema de saúde eficiente.

Trata-se, sim, de uma mudança cultural e social a ser capitaneada pelos atores políticos deste país, os que têm acento nos poderes instituídos, mas também aqueles que compões a sociedade civil organizada.

De Goiás, saiu um dos maiores símbolos da capacidade produtividade de pessoas que ultrapassaram os 60 anos. Foi aos 76 anos que Cora Coralina publicou seu primeiro livro e, para ela, o tempo foi mestre: “Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou”.

*Vilmar Rocha, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG); deputado federal por Goiás de 1993 a 2015; um dos fundadores do PSD Nacional, presidente do PSD de Goiás e coordenador de Relações Institucionais da Fundação Espaço Democrático do PSD

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