2022 e os dois dígitos

2022 e os dois dígitos

Sílvio Ribas*

19 de novembro de 2021 | 08h35

Sílvio Ribas. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A expressão é recorrente. Para o ano eleitoral que se aproxima já estão sendo endereçadas tensões redobradas em torno de números na casa dos dois dígitos. A inflação alcançou recentemente este ritmo, acima de 10%, e a autoridade monetária está sendo pressionada a para elevar em igual patamar a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 6,25% ao ano.

Ao se confirmar a dupla de indicadores macroeconômicos formada por carestia galopante e crescente custo do dinheiro, teremos para 2022 o risco altíssimo de registrar, ao menos, estagnação da atividade produtiva e dias ainda mais difíceis para dezenas de milhões de brasileiros. A fome já atinge 19,1 milhões, 9% da população. Logo chegará aos fatídicos dois dígitos.

A crise brasileira tem forte componente externo, provocado pelas cotações mundiais de alimentos e energia, que ameaçam o país também com a tendência de os bancos centrais, especialmente o americano, elevarem as suas taxas. Mas o principal fator de desarranjo é um velho conhecido nosso: a desconfiança dos credores nacionais e estrangeiros em torno de nossa estabilidade fiscal e seus desdobramentos políticos.

O sintoma mais evidente dos efeitos maléficos das incertezas geradas pela irresponsabilidade com o gasto público se reflete nos índices dos mercados cambial e financeiro, abalados, sobretudo, com as ameaças trazidas pela PEC dos Precatórios, cunhada para romper limites orçamentários e destinar dezenas de bilhões de reais a rubricas secretas e a investidas eleitoreiras.

No ano, a Bolsa brasileira já acumula queda de mais de 13%, acima dos dois dígitos. O dólar registra em 2021 até agora uma valorização de 7,35% sobre o real, percentual de um dígito, mas já muito desconfortável para o país na forma de piora do custo de vida. Esse quadro desafiador fica mais dramático com respostas erradas dadas pelo governo e com crescentes dúvidas sobre o pleito eleitoral.

A polarização entre as duas opções de extremos, Lula e Bolsonaro, que, dizem as pesquisas, concentram metade das intenções de voto do eleitorado não ajuda a traçar um horizonte seguro de volta a padrões conquistados após a gestão de Michel Temer, com inflação e juros declinantes, na casinha de um dígito. Lambanças fiscais e discursos populistas solapam qualquer acerto recente.

A esperança, então, passa a ser o surgimento de alvissareiro número de dois dígitos para os mercados, que precisa ser atingido o quanto antes nas pesquisas eleitorais por um pré-candidato da terceira via, seja de centro ou de centro-direita. Por isso Sergio Moro (Podemos) discursa como a alternativa aos polos e já brandiu a sua âncora fiscal, na pele de Affonso Celso Pastore.

*Sílvio Ribas, jornalista, escritor, consultor em relações institucionais e assessor parlamentar no Senado Federal

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