2021: o ano da conectividade?

2021: o ano da conectividade?

José Renato Nalini*

31 de dezembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O mergulho irreversível da humanidade no universo produzido pela Quarta Revolução Industrial obriga todas as pessoas de bom senso a contribuírem com a consolidação da cultura digital. Já não se pode considerar bizarro alguém afirmar-se “jurássico” e inimigo da comunicação turbinada pelas novas tecnologias. Tudo o que o mundo se viu obrigado a utilizar no ano da pandemia veio para ficar. Aulas híbridas continuarão. O e-commerce já é uma realidade. O home office mostrou-se eficiente. Mencione-se a vetusta Justiça: a produtividade aumentou e mostrou que a grita recorrente por falta de recursos financeiros pode ser amenizada com a desocupação de inúmeros imóveis tornados ociosos e que não precisam, inevitavelmente, continuar a sugar o Erário. Ou seja, o povo pobre, que sustenta os sofisticados equipamentos do gigantesco e crescente sistema Justiça.

O Brasil de mais de duzentos e setenta milhões de mobiles para uma população de cerca de duzentos e doze milhões de habitantes é um laboratório instigante. Tudo o que puder ser feito pela internet deverá sê-lo. Nada indica a possibilidade de retorno às velhas aglomerações, ainda depois da vacina. O vírus é mutante. Há várias cepas. Continuará a necessidade de cuidado permanente e de redução dessa volúpia da mobilidade que transformou o trânsito num verdadeiro inferno e a atividade poluidora que deverá estar com os dias contados, ao menos nos países civilizados.

Todo investimento em conectividade é imprescindível e urgente. As concessionárias dos serviços de comunicação já haviam se comprometido a conectar todas as escolas do Brasil em poucos anos. Negligenciou-se a fiscalização e a cobrança dessa obrigação contratual assumida pelo conglomerado de empresas do setor.

Uma esperança estava na Lei 14.109/2020, que previu utilização do FUST – Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, para levar internet a todas as unidades educacionais brasileiras até 2024. Infelizmente, essa obrigação mereceu veto do Presidente da República. Tomara que o Parlamento, cujo protagonismo é fundamental para manter a democracia brasileira em funcionamento, rejeite esse veto.

Sem uma educação de qualidade, o Brasil continuará a patinar ou, o que é pior, a marchar aceleradamente para o atraso. O movimento retilíneo uniformemente acelerado para trás é uma constante neste País que adotou o retrocesso como padrão de conduta estatal. Basta verificar o que ocorre no ambiente dizimado, nas relações exteriores que nos tornaram pária rejeitado pelas nações do Primeiro Mundo e na educação, em que o pódio é sempre inverso. Estamos na rabeira do planeta.

Outro veto lamentável numa lei que teria tudo para fazer o Brasil acertar o passo com a modernidade foi aquele aposto ao dispositivo que permitia abatimento de até 50% do valor devido ao FUST, por investimento direto em projetos aprovados pelo Conselho do Fundo. É evidente que esse estímulo ampliaria a possibilidade de implementação de iniciativas que não conseguem sobreviver à inércia, à invencível burocracia governamental e à ignorância que parece predominar sobre o mínimo de bom senso exigível nestes tempos.

Deixar exclusivamente com o Estado a condução de uma era que requer engenhosidade, criatividade, empreendedorismo e ousadia, é condenar o setor à estagnação. Como aquela já existente em quase todos os outros. Pense-se, como exercício hipotético, se o agronegócio fosse deixado a cargo do governo. Onde estaria o Brasil em 2020?

O momento é o de participação cada vez mais plena da sociedade organizada, do empresariado, da Universidade, da cidadania, para colocar rédeas em toda espécie de comando estatal. Estado é fase transitória numa jornada calcada na vocação de perfectibilidade do ser humano. À medida em que a humanidade evolui, há menos necessidade de comando estatal e da cornucópia de exteriorizações criadas para sugar o suado e sacrificado dinheiro da população, já extenuada com a mais pesada carga tributária de todo o globo.

O momento é o de investir em startups, incentivar a juventude que já nasceu com chip, os millenials com desenvoltura eficaz no manejo das bugigangas eletrônicas, para a solução de problemas aparentemente insolúveis. O mundo precisa de inovação, de criatividade, de engenho e arte e de uma escola com olhos na realidade e pés no chão.

Ainda estes dias noticiava-se que a matemática ensinada nas escolas brasileiras é a do século XIX. Com essa verdadeira cegueira dos experts, dos cultores da nova pedagogia, dos especialistas em educação que nunca estão em sala de aula, mas preferem elaborar onerosas consultorias, não se estranha o papel vexaminoso de nossos estudantes no Pisa.

Ainda é tempo de recuperar o precioso tempo perdido. O Brasil não tem mais como se dar à estultice de jogar ao lixo da História mais uma década. O Parlamento está fazendo sua parte. Editou também a Lei 14.108/2020, que permite aplicação efetiva da internet das coisas. Atendeu a uma proposta formulada no Plano Nacional de Internet das Coisas. É um passo. Mas o Congresso tem de fiscalizar o cumprimento das leis e impedir que elas sejam desfiguradas. Afinal, estamos naquele país incrível em que há “leis que pegam e leis que não pegam”. Todo cuidado é pouco.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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