2020: o ano em que as ideias de negócios deixaram de vir da alta liderança

2020: o ano em que as ideias de negócios deixaram de vir da alta liderança

Kleber Santos*

26 de outubro de 2020 | 03h30

Kleber Santos. FOTO: DIVULGAÇÃO

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Esse provérbio foi a lógica que imperou em nosso mundo desde sempre, e nas empresas nunca foi diferente. De cima para baixo, a alta liderança das empresas pensavam no futuro e na estratégia, enquanto os demais se limitavam exclusivamente na realização de suas atribuições, na forma mais otimizada possível e de preferência sem dar muitos “pitacos”.

De todas as transformações que nosso mundo está experimentando talvez a mais significativa seja a quebra deste paradigma. As empresas mais valiosas atualmente são aquelas que conseguem transmitir seu propósito, sua cultura e que conseguem engajar mais. As hierarquias estão ficando cada vez menos rígidas, ao invés de limitar um colaborador e enquadrá-lo numa caixinha, nós o influenciamos a desenvolver senso de dono.

Um conceito que está cada vez mais forte é o Open Innovation, que significa transcender os muros da alta liderança e fazer inovação de forma aberta, com toda empresa, com parceiros, clientes e com ecossistema de startups. A ideia é ampliar a possibilidade de inovar usando todo capital intelectual possível e engajar, sobretudo os próprios colaboradores, nesta jornada.

Um estudo da Universidade de Warwick, no Reino Unido, mostra que colaboradores satisfeitos e felizes são 12% mais produtivos. Outra pesquisa da Universidade da Califórnia, nos EUA, evidenciou que funcionários da equipe de vendas que se dizem felizes e positivos conseguiram vender 37% a mais que os demais. Um colaborador engajado cria um ambiente mais propício à criatividade e à inovação. Com o agravamento da pandemia e o impacto nos negócios, as empresas se viram diante de uma realidade que exigia avanços por meio da inovação. O engajamento dos colaboradores, quando foi considerado como uma métrica de crescimento, se desenvolveu de forma exponencial em 2020.

O que estou falando, na prática? Quando se é estruturada uma metodologia dentro da corporação que traça objetivos, ações e incentivos para que o colaborador de base mostre suas ideias, esse movimento cria uma engenharia de geração de novos negócios. Os benefícios são simples: colaborador reconhecido, engajado e satisfeito, sua ideia gerando novos negócios para empresa e a cultura de inovação sendo compartilhada por todos. Se uma equipe com 30 executivos experientes pode gerar resultados importantes, imagine se a mesma equipe tivesse, além dos 30 executivos, outros 3.000 colaboradores engajados pensando junto.

Existe um acrônimo bem interessante que traduz o processo de inovação a partir do engajamento dos colaboradores. I.M.A.G.I.N.E: Ideias Mais Ações Geram Inovações Na Empresa. Utilizando uma ferramenta como mecanismo aglutinador de ideias é possível, inclusive, reduzir custos operacionais, que antes não eram levados em consideração.

A tecnologia já nos dá essa ferramenta. Como funciona? Ela é inspirada nas redes sociais e consiste em um feed, no qual colaboradores inscritos podem submeter e debater ideias de inovação para as mais diversas áreas. O formato facilita a interação e o acompanhamento do desenvolvimento das ideias, que após submetidas são avaliadas pelos gestores dos setores envolvidos para sua possível implementação.

Segundo um de nossos clientes, a ferramenta registrou 2.600 colaboradores inscritos, mais de 8 mil ideias criadas e 2.000 ideias implementadas em dois anos. As ideias somadas já geraram retorno estimado de quase R$ 4 milhões à companhia. A parte mais importante do processo é a atenção especial que damos aos feedbacks, seja uma ideia que avance ou não. Esse feedback mostra que a empresa está alinhada e garante o aculturamento, além de aproximar as pessoas do propósito e dos direcionamentos estratégicos.

Além de democratizar a participação no processo de inovação, a ferramenta tem viés educativo, levando aos colaboradores as informações necessárias para formalizar a apresentação de suas ideias a partir de diferentes templates disponíveis aos usuários. Tem ainda a inserção da feature ‘roadmap’ que prevê uma parte para implementação de analytics, onde todos os dados referente a jornada das ideias serão transformados em informação estratégica e diferencial competitivo no contexto da inovação.

Estamos falando aqui de uma filosofia corporativa que se tornou em uma ferramenta para geração de novos negócios e de engajamento. O objetivo é fazer com que o colaborador passe a ser um agente ativo de inovação dentro da empresa e seja reconhecido por isso. Portanto, assim como os movimentos de grandes empresas para incluir diversidade nos altos cargos, talvez estamos presenciando também de um movimento focado na outra ponta, valorizando o capital intelectual de base.

*Kleber Santos é empreendedor e vice-presidente de transformação digital do Grupo FCamara

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