‘2017 terminaremos ricos hehehe’, disse servidor do Trabalho preso na Registro Espúrio

‘2017 terminaremos ricos hehehe’, disse servidor do Trabalho preso na Registro Espúrio

Conversas por aplicativos interceptadas na operação que desvendou esquema sobre registros sindicais pegaram diálogos que indicam pagamentos de propinas

Breno Pires e Fabio Serapião/BRASÍLIA

06 Junho 2018 | 11h59

Foto: Estadão

Além de movimentações suspeitas em contas bancárias, a Polícia Federal apontou, ao analisar a transcrição de diálogos travados por investigados no âmbito da operação Registro Espúrio, mensagens cifradas sobre pagamentos de propina. Em um dos diálogos sobre o processo para agilizar um registro sindical, um servidor mostra a pretensão de enriquecimento.

“Terminamos o ano meio pobres. Mas 2017 terminaremos ricos hehehe”, afirmou, em 26 de dezembro de 2016, o agente-administrativo Renato Araújo Junior, em conversa com o advogado Guilherme Simão dos Santos, que estava atuando para acelerar o registro sindical do Sintrasresp (Sindicato dos Empregados em Restaurantes e Empresas do Comércio e Serviço de Alimentação Preparada e Bebida a Varejo de São Paulo e Região). Renato tinha relação com o PTB.

A PF disse haver “fortes indícios” de que foram pagos R$ 300 mil em propina para a liberação do registro desse sindicato em tempo recorde, de 4 meses.

Esse registro, no entanto, acabou sendo deferido por outro grupo, que é ligado ao Solidariedade. Sobre isso, Renato Araújo Júnior afirmou que “o (Leonardo) Cabral furou a fila e publicou o processo do ‘faz-me rir’”, em outro diálogo interceptado pela PF. Cabral era o coordenador -geral da Secretaria de Registro Sindical e estava abaixo, hierarquicamente, do chefe da secretaria, Carlos Lacerda — este, por sua vez, sustentado pelo partido Solidariedade e exonerado em abril do posto. Segundo a PF, há indícios de que os R$ 300 mil foram utilizados para pagamento de propina a Lacerda e a Cabral.

Em outros diálogos com a presença de Renato Araújo também há menções a “mudas de café”, “panetone” e “vinho do Porto”, que a PF identifica como mensagens cifradas sobre pagamento de propinas.

No fim de abril de 2018, após a exoneração de Carlos Lacerda, Renato Araújo Júnior foi promovido ao posto de coordenador-geral da Secretaria de Registro Sindical, antes ocupado por Leonardo Cabral. Todos os três foram presos na operação. O advogado Guilherme Simão dos Santos, apontado como integrante do núcleo captador do esquema envolvendo fraudes nos registros sindicais, foi preso temporariamente.

A defesa de Leonardo Cabral afirmou que não irá comentar as informações levantadas pela reportagem. Os advogados de Lacerda, Araújo Júnior, Guilherme Simão dos Santos e Jéssica Capeletti não foram localizados.

COM A PALAVRA, PTB

“A Direção Nacional do PTB não participou de quaisquer negociações espúrias no Ministério do Trabalho.”
Roberto Jefferson, Presidente Nacional do PTB

COM A PALAVRA, SOLIDARIEDADE

“Os fatos que estão sendo relatados na matéria são ilações feitas por policiais, não são verídicos e não possuem laços documental.”

“A imputação de que existe uma coabitação entre PTB e Solidariedade no âmbito do Ministério é mentirosa. É de conhecimento público e notário que o órgão foi indicado pelo PTB e não coube ao Solidariedade nenhuma indicação para cargos ao Ministério, portanto, a pasta não possui nenhum grau de influencia política. Tanto que o convite a Carlos Lacerda para ocupar o cargo na Secretaria foi feito pelo então ministro a época, por entender que ele reunia condições pessoais, técnicas por militar mais de 40 anos no movimento sindical.”

“A única menção existente a Paulo Ferrari, no âmbito do inquérito, diz respeito a um pedido pessoal para análise de um de seus casos, não havendo nenhum tipo de oferta de vantagem e nenhum tipo de solicitação de tratamento privilegiado ou diferenciado, razão pela qual, não se sustenta as declarações feitas sobre Paulo Ferrari.”

“Com relação ao Paulo Pereira da Silva e seu chefe de gabinete, Marcelo Cavalcante, não há nenhum assunto em mais de mil páginas do inquérito que denotem qualquer atuação ou solicitação, de providencias no âmbito da Secretaria, muito menos de qualquer oferecimento de vantagem, qualquer que seja. Não existe nenhuma menção ao deputado Paulo Pereira da Silva e quanto ao Marcelo Cavalcante, a única menção no inquérito se dá ao encaminhamento de um e-mail solicitado pelo diretor jurídico da Força Sindical, com relação a entidade ligada ao vice-presidente da Força, Sr. Ramalho.”

“Para confirmar tudo que foi exposto acima, é importante ressaltar que não foi noticiado pela imprensa, que a procuradora geral da República Sra. Raquel Dodge, se manifestou contrária a busca e apreensão no partido Solidariedade e na Força Sindical, por entender que não há fundamentos que enseja tal medida.”

Luiz Adriano – Secretário-Geral Nacional do Solidariedade

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