200 ideias erradas

200 ideias erradas

José Renato Nalini*

05 de agosto de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Na contramão, de marcha-a-ré e atropelando o bom senso. Parece essa a direção do Brasil ao anunciar mais uma péssima ideia: a cédula de 200 reais. Quando o mundo todo reconhece a desnecessidade do papel moeda, facilitando as transações pela internet, regredimos uma vez mais. Se há alguma coisa superada é o dinheiro físico. Facilita a corrupção, faz regredir as transações e, pior para a nossa época: dissemina a peste.

Tantos talentos desperdiçados. É uma sina ou carma.  As Universidades produzindo mestres, doutores e pós-doutores e nada disso tem servido para alicerçar o governo. Sobram diagnósticos, falta ação. Em lugar de mais papel-moeda, algo destinado à arqueologia da história financeira, por que não investir em alfabetização digital dos excluídos?

Por que não fazer com que as concessionárias de serviços de telecomunicações cumpram o acordo de levar banda larga e tornar acessíveis todas as escolas e todas as comunidades?

Qual a trava que impede uma profunda reforma estrutural no Estado brasileiro, que reduza essa massa perdulária que nada gera e tudo devora? Onde está o esforço para reduzir a burocracia?

O brasileiro já é vítima do algoz mais perverso, o sistema tributário mais iníquo do planeta e ainda tem de sofrer com a burocracia, que consome precioso tempo das vidas sacrificadas dos nacionais.

O dinheiro que se vai desperdiçar com a produção de nova moeda pode ser aplicado no saneamento básico. Urgência urgentíssima, que deve começar com dinheiro nosso. Isso porque o capital internacional será muito cauteloso em relação a um País que não se envergonha de queimar sua floresta e de acabar com sua biodiversidade.

Qual o obstáculo a se acabar de vez com o famigerado Fundo Partidário e o não menos indecente Fundo Eleitoral? Com pessoas passando fome, morrendo nos vestíbulos dos toscos hospitais que se espalham por todo o Brasil, por que se pensar em algo tão bizarro?

As eleições, todas elas, deveriam ser realizadas por via digital. Economia de recursos financeiros, de tempo, de paciência dos requisitados a trabalhar de graça, muito contra a vontade e também segurança inquestionável quanto aos perigos da contaminação pelo coronavírus. Quem é que vai sair de casa para votar, se a peste ainda está aí, à caça de voluntários para ir àquele mistério do qual não se volta mais?

As boas ideias fenecem, as fantasias prosperam. Tanta coisa boa a ser feita em relação à Amazônia, como incentivar a população local a se interessar pelo extrativismo e pela produção de algo que o mundo não tem e que poderá consumir de forma a tornar a bioeconomia um exemplo para o mundo e uma salvação para o Brasil.

Guaraná, açaí, castanha, orquídeas e peixes ornamentais. Mas alguém já terá noção de toda a riqueza ainda não descoberta que está ali, à espera de aproveitamento? Não. Preferimos deixar aquela imensidão que já foi verde à sanha de criminosos que não hesitam em exterminar o futuro de nossas crianças. Em lugar de implementar usinas de transformação para não continuarmos a vocação de exportador de commodities, mas para faturar com valor agregado, fechamos os olhos à nefasta atuação dos dendroclastas.

Por que não dedicar tempo maior à Reforma do Estado, que é pouco funcional, ineficiente e tem mais desencontros do que acertos? Se o Município é entidade da Federação, ele tem de merecer atenção maior da nacionalidade. Até porque, ali é que o brasileiro mora. Para o brasileiro pouco importa falar em União. Ele quer saber é de viver bem em sua cidade.

Alimentar a máquina que suga até aos estertores a economia cidadã e nada devolve para o ser humano, é algo irracional. Entretanto perdura, sem que se comovam as consciências lúcidas e sensíveis desta Nação.

Onde a imprescindível desestatização, para deixar ao Estado apenas aquele mínimo de tarefas das quais pode se desincumbir? Todos sabem que a administração direta é dispendiosa, demorada, ineficiente, sobre ela paira a permanente dúvida sobre o uso de estratégias que escapam à moralidade estrita. Entretanto, de ideia errada em ideia equivocada o Brasil tateia, capenga, cambaleia e perde espaço e respeito na comunidade internacional.

Há muita gente séria e competente que poderia fazer a diferença. Será que essa elite intelectual e ética tem de ficar submetida à insensatez e à irracionalidade?

Se alguém com paciência se dispuser a fazer um levantamento das ideias esdrúxulas em curso pelo Brasil, verá que são muito mais do que duzentas. O título desta reflexão surgiu de uma delas, que está a merecer unanimidade: a desnecessidade, a inconveniência e a inutilidade de se introduzir na economia brasileira mais uma cédula: a de 200 reais.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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