200 anos de jornalismo

200 anos de jornalismo

José Renato Nalini*

23 de junho de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O Brasil independente celebra também duzentos anos de jornalismo. A imprensa política data de 1821 e os redatores eram pessoas gradas, figuras respeitáveis como José da Silva Lisboa, que depois veio a ser o Visconde de Cairu, o cônego Francisco Vieira Goulart, Joaquim Gonçalves Ledo, o padre e depois cônego Januário da Cunha Barbosa, o Coronel Manuel Ferreira de Araújo Guimarães.

Mas, como é inevitável, começaram surgir aqueles menos afeiçoados à ética. Helio Vianna cita “o confuso lisboeta Luis Augusto May, de alcunho “Malagueta” e em 1822, outros aventureiros, que incomodavam o Príncipe Regente, ele também dado a colaborar com o jornalismo. Dentre eles, destacou-se o português João Soares Lisboa.

Em 10 de abril de 1822, ele lançou o “Correio do Rio de Janeiro” e tanto provocou os dirigentes do reino que em julho se tornou o primeiro jornalista processado por abuso da liberdade de imprensa. Foi absolvido em 1º de agosto e em 19 de outubro, dias após à aclamação do Imperador, publicou um artigo provocativo. Mencionava “D. Pedro 1º sem 2º”, porque atribuía intenções republicanas ao primeiro Imperador.

O Intendente Geral da Polícia o intimou a suspender a publicação do “Correio” e ele obedeceu. Ainda foi determinado deixasse o país, o que fez, rumo a Buenos Aires. Nesse mesmo outubro de 1822, desentendeu-se José Bonifácio com outros ministros e pediu demissão. Ocorreu a chamada “bonifácia”, espécie de “queremismo” ou continuísmo. José Bonifácio voltou e fez um expurgo dos adversários, um dos quais Joaquim Gonçalves Ledo. Este acabou também fugindo para Buenos Aires.

Ambos se aliaram e em 30.12.1822, João Soares Lisboa escreve ao Alferes do Batalhão de Caçadores em Colônia do Sacramento, dizendo ter tomado conhecimento de que D.Pedro I declarara guerra a Portugal. Incita o alferes e seus “companheiros d’armas a lançarem mãos delas, para sustentarem a dignidade de homens e a Liberdade dos Povos”.

Essa carta foi mostrada ao Imperador, que encaminhou à publicação “O Espelho” uma carta assinada pelo pseudônimo “O Espreita”. Junto com ela, uma outra, do Barão de Moll, dizendo que só viria ao Brasil se aqui não se adotasse a Democracia.

O artigo do Imperador foi publicado, assim como as duas cartas. João Soares Lisboa voltou ao Rio em 17 de fevereiro de 1823, foi preso e em 7 de julho foi condenado a dez anos de prisão. Quando os irmãos Andrada e Silva deixaram o ministério, mesmo da prisão, em 1º de agosto de 1823, continuou a publicar o “Correio do Rio de Janeiro”, combatendo os Andradas. No ano seguinte foi anistiado pelo Imperador, desde que fosse para a Europa. Partiu em março de 1824 mas desembarcou no Recife, aderiu ao governo revolucionário de Manuel de Carvalho Pais de Andrade e ali publicou, de 25 de junho a 4 de agosto, seis números de um novo periódico: o “Desengano aos Brasileiros”. Apoiou a Confederação do Equador, que foi derrotada. Acompanhou os remanescentes para o interior e ferido, aos 29 de novembro, em Couro d’Anta, morreu no dia seguinte, sendo enterrado no álveo do rio Capibaribe.

Quanto à carta do Barão de Moll, foi endereçada ao brasileiro Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá (1764-1835), formado em Coimbra em 1788 e que até 1798 fez numerosas viagens e estágios de estudos em química e mineralogia em diversos países da Europa, inclusive em companhia de José Bonifácio.

Ele fala do que lhe passa pela mente: “até este momento não passa de uma ideia, mas de uma bela e atrevida ideia, e vem a ser a de acabar meus dias no Brasil”. Pois, escrevia ele, “nada me prende, nada me liga à Europa; no entanto, eu não queria nunca trocar a morada em estado tranquilo, posto que da segunda ordem, pela de um da primeira, mas que estivesse ameaçado de uma revolução no sentido democrático”.

O Barão de Moll tinha horror pela democracia, pois temia que escravos despertassem e começassem a falar em direitos imprescritíveis: “é de temer que uma cor se volte contra outra, um hemisfério não conspire contra outro, não se arme, não se roube, não se incendeie e não se assassine, sem se poupar a ninguém, nem distinguir o inocente do culpado. Se um semelhante desastre pudesse ter lugar no Brasil, se dele mesmo se pudesse ter uma remota ideia ou a possibilidade de temer semelhante desarmonia, eu renunciaria ao desejo de viver debaixo de melhor Céu, e continuaria a substituir por fogos artificiais o que o sangue e o sol me negam no desabrido país que habito”.

Desde então, há dois séculos, já existia resistência à democracia, algo que perdura e que consegue adeptos. Mas a liberdade de Imprensa é um antídoto poderoso e intransigente desse regime que, perfeito não é. Mas ainda não existe outro melhor.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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