Educação no Brasil: há espaço para inovação?

Educação no Brasil: há espaço para inovação?

Danilo Costa*

25 de julho de 2019 | 04h00

Danilo Costa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ouvi de um professor que admiro: “Estamos lidando com a coisa mais difícil de se compreender. Aprender é o recurso mais complexo que há”. Não só acredito que ele tenha razão, como me pergunto constantemente o que significa, realmente, aprender. Como uma escola pode desenvolver o máximo potencial de cada um de seus estudantes e como isso se representa? E como ela deve ensiná-los a serem éticos e confiantes?

Vamos aos fatos. Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE, do ano de 2016, 99% das crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos, e 87% do grupo entre 15 e 17 anos, frequentam a escola. Significativo, o dado enfraquece em seguida: cerca de 70% deles não aprendem, suficientemente, sequer português e matemática. A alta inclusão de nossas crianças nas escolas não é correspondida, de fato, em aprendizagem.

Ao refletirmos sobre os dados, por si só alarmantes, encontramos um agravante: os resultados acima apontam uma falência na aprendizagem das disciplinas básicas. Isso significa que a barreira do básico, cuja ultrapassagem se põe necessária para acessarmos o extra, limita nossas próprias expectativas quanto ao futuro.

Parece um lugar comum dizer que uma escola tem que formar alunos capazes de enfrentar os desafios do mundo atual. Entretanto, se uma educação inovadora faz sentido para o estudante, e o ensino atual não os atende, estamos nós, portanto, diante de um déficit institucional. Neste caso, deveríamos persistir ou mudar? E em que medida? Não há uma resposta simples para essa pergunta.

Voltemos ao escopo “comunidade-aprendizagem”. Uma escola não é viva sem ser também uma comunidade, assegurando uma socialização marcante, capaz de vibrar nossas crianças; não sobrevive, também, se não garantir as condições de entrada no ensino superior.

Essa é uma dificuldade que muitos não chegam a reconhecer, pois ao contratarem uma escola, passam a entendê-la, em alguma medida, como um serviço dado, típico da relação de consumo. Ela compreende isto também, é claro, mas se reduzida a essa relação, ela perde sua essência. Não existe escola certa, existe escola viva.

E o que dizer do futuro? O que dizer do próprio de escola, de aprendizagem, de desempenho ou mesmo da metodologia de ensino? Será que não podemos por nossas concepções disso tudo em cheque, com o intuito de atualização, com suas intimidades preservadas?

Precisamos lembrar que os nossos estudante atualmente no início do ensino fundamental ingressarão no mercado de trabalho em 2040 – me pergunto se alguém sabe como estará o mundo por lá. Línguas estrangeiras, programação, empreendedorismo e design já dão mostras que podem alavancar um jovem a patamares profissionais e sociais nunca experimentados. Contudo, diante das complexidades de nosso sistema, do qual todos nós somos parte, é necessário se garantir as disciplinas básicas para, de modo sustentável, desenvolvermos conteúdos extras como, por exemplo, os acima mencionados, bem como quaisquer outros que nos permitam ir além.

É preciso despertarmos os jovens da educação básica para o fato de que aprender é um processo central, ativo e que envolve lidar continuamente com a mudança. Mudança e aprendizagem caminham juntas. Isso envolve também, na outra ponta, o papel do professor em ajustar a dificuldade dos desafios para que o aluno as perceba como realizáveis, e não como desestimulantes.

Estamos nós lidando com um fato antigo e conhecido: só há aprendizagem se há interesse. Mesmo que seja um interesse mais indireto como “passar no vestibular.” Ainda assim, uma vez que esse interesse é despertado e vinculado a um projeto de vida do jovem, tem-se ignição.

Essa é uma de minhas principais esperanças com a educação. Nós, educadores e empreendedores da área, estamos lidando com essa possibilidade – e ela traz consigo uma responsabilidade enorme.

Por fim, uma injeção de ânimo para as pessoas que vêm tentando concretizar conceitos novos sobre a aprendizagem, ou seja, àqueles que não desistem de tentar inovar e ir além em nosso setor. Talvez essas inovações não sejam sentidas agora, durante nossos mandatos. Mas, um aluno que estudou em salas de aula hexagonais, com recursos tecnológicos de última geração, que possibilitaram um olhar individualizado sobre si e o
mundo, daqui a 20 anos, com certeza olhará para sua educação ciente de que ela pode ter sido o grande fator que contribuiu para ele ser o que é hoje.

E que bom se nós, como educadores, conseguirmos plantar a semente do que virá a ser um mercado de trabalho com profissionais éticos e prontos para atender às necessidades da vida em 2040.

*Danilo Costa é advogado e fundador da Vereda Educação S.A.

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