14 de julho

14 de julho

Ricardo Viveiros*

14 de julho de 2020 | 13h15

Ricardo Viveiros. Foto: Arquivo Pessoal

Hoje a França e os franceses comemoram uma data muito importante de sua História: 14 de julho.

Pois é, mas qual dos 14 de julho?

A História registra duas datas no mesmo 14 de julho, com importâncias distintas. Há os que comemoram uma, há os que comemoram outra.

Explico. Em 14 de julho de 1789 aconteceu a célebre Tomada da Bastilha, o arsenal de pólvora que o povo procurava já há dois, desde quando havia invadido o depósito de armas “Os Inválidos”, sob a liderança de Camille Desmoulins, e saqueado fuzis e canhões para derrubar a monarquia corrupta e despótica.

Aliás, embora se tratasse de um brilhante advogado, Camille era gago. Movido pela consciência de que mudar o estado de coisas fazia-se necessário, tornou-se um orador capaz de levantar a população contra a monarquia.

Verdade é que, também na Bastilha, não encontraram a munição que procuravam. No imponente símbolo de poder da monarquia, havia em suas masmorras apenas alguns poucos presos: quatro estelionatários, dois loucos e um nobre acusado de libertino (devia ser alguém pouco influente ou mal visto pelos seus pares, porque na França daquela época…).

O povo foi cruel com o comandante e os soldados que guardavam a Bastilha, mataram todos e cortaram suas cabeças, marchando por Paris com elas espetadas em varas. Caia a monarquia absolutista a partir desse gesto de revolta, porque a partir dele seguiram-se outros. O movimento cresceu por Paris, pela França e, até mesmo, contagiou o Mundo.

Esta é a data mais popular, o 14 de julho que o povo comemora desde sempre e até hoje.

Apenas um ano depois do levante, com os nobres sem suas vantagens e o clero sem seus bens já confiscados pelo povo, foi redigida e aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nasciam os chamados direitos civis, entre os quais a liberdade de expressão, igualdade perante a lei, garantia de propriedade e, até mesmo, direito de protestar contra atos injustos das autoridades públicas. Preparava-se uma Assembléia Nacional Constituinte, acalmava-se a relação do povo com a monarquia e o clima já era outro, sem ódio e violência. Estava, supostamente, nascendo o diálogo sob união e paz.

Assim, em 14 de julho de 1790, aconteceu a Festa da Federação. Foi no Campo de Marte, em Paris (o mesmo das experiências aéreas de nosso Santos Dumont), que se ergueu o imponente Altar da Pátria e mais de 100 mil pessoas se reuniram. Nobres e parlamentares, até o rei em mangas de camisa, trabalharam juntos na edificação do palco com seis metros de altura. A rigor, toda essa união e comemoração durou pouco. A revolução havia apenas começado, outras cabeças, muito mais importantes, rolariam tempos depois. Entre as quais, as do rei e da rainha.

Portanto, são dois 14 de julho na França que comemoram a data nacional do país. Qual deles você comemoraria? A Queda da Bastilha ou a Festa da Federação?

Prevaleceu, por decisão parlamentar, em 1880, o 14 de julho de 1790 que, então, foi proclamado como a data nacional francesa. A Festa da Federação é oficialmente lembrada pelos franceses no que se determinou legalmente como a mais importante data cívica da França.

O imaginário popular, a memória da grande maioria dos franceses, a rigor comemora nos bares, restaurantes, sindicatos e clubes o outro 14 de julho, o de 1789. O champanhe é tomado em alegres brindes, pelo menos uma vez por ano, para comemorar a vontade do povo contra a tirania e a opressão dos que optaram pela distância dos interesses coletivos.

*Ricardo Viveiros, jornalista, escritor e professor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) e autor, entre outros, dos livros: A vila que descobriu o Brasil (Geração), Justiça seja feita (Sesi) e Educação S/A (Pearson)

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