100 dias pós-covid-19

100 dias pós-covid-19

Marcelo Souza*

03 de setembro de 2020 | 05h30

Marcelo Souza. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não há dúvidas de que esse ano será um marco histórico. Em breve, os livros relatarão o mundo com antes e depois de 2020. O planeta, que vivia um tsunami de transformações, frente às tecnologias disruptivas que marcavam uma mudança de era, conhecida como a quarta revolução industrial, foi catalisada pela Covid-19, acelerando ainda mais essa transformação.

O mundo se viu vulnerável. Fábricas paradas, comércio fechado, turismo inexistente, hospitais lotados foram apenas alguns fenômenos que presenciamos nesses últimos meses. O mundo das organizações se deparou com um vírus de proporções exponenciais. Uma coisa ninguém tinha dúvida: o pós-covid-19 seria diferente, conhecido como sendo “Novo Normal”. Assim, gostaria de propor uma reflexão, como seria viver o coronavírus antes da 4° revolução industrial, sem aplicativos, sem smartphones, sem Netflix, sem escola online, telemedicina e isso sem falar da capacidade que tivemos de pesquisas nesse momento?

Hoje, ainda vivemos em um período de de vulnerabilidade no Brasil. Ainda estamos em tempo de pandemia, mas como será o pós-Covid? Essa é uma pergunta de muita especulação, mas se utilizarmos técnicas de tendências, é possível predizer o futuro ou podemos também observar os países que já saíram da pandemia?

O primeiro foco da doença aconteceu na China,que anunciou o controle da pandemia em 8 de abril de 2020. Dessa maneira, os chineses já vivem 100 dias pós-pandemia, tempo suficiente para ver quais foram as principais tendências da reabertura da economia e quais comportamentos adotados durante a crise vieram para ficar. Esse foi o ponto de partida da pesquisa “10 tendências no ‘novo mundo’”, realizada pela Inovasia Consulting, especializada no país asiático.

Lives como local de vendas – Desde de 2015, a venda com lives é prática comum na China, contudo, houve um crescimento considerável durante a pandemia. O estudo mostra que, segundo o instituto iiMedia Research, esse canal movimentou US$ 63 bilhões no país em 2019. Em 2020, esse montante deve superar US$ 135 bilhões.

Delivery em uma hora – As entregas em até uma hora tornaram-se exigência entre os consumidores, que não desejam voltar às filas de supermercados. Observou-se a valorização dos aluguéis em regiões que possuem entregas rápidas. As pessoas querem estar onde são atendidas por fast-delivery.

Serviços sem contato físico – Quanto menos contato melhor. Equipamentos para medir sinais de saúde, novas tecnologias como smartphone 5G, dispositivos de realidade virtual ou aumentada foram alguns dos itens que tiveram grande procura. As plataformas de aulas online registraram crescimento de até 600%.

Alimentação saudável e fitness – Observou-se alta demanda por alimentação saudável e produtos fitness. 80% dos entrevistados estão mais atentos à essas questões e ao conteúdo da rotulagem. O que antes era pouco observado passa a ser mais valorizado segundo o estudo. Apesar do crescente interesse por saúde e hábitos fitness, isso não significa crescimento das academias, por serem locais com tendência de contatos e risco de contágio. Dessa forma, observou-se crescimento por planos de treinos on-line.

Carros pequenos e elétricos – A China vive uma ascensão da classe média, que possui alto poder de compra e passou a preferir veículos elétricos e menores pela menor chance de contaminação ao invés da utilização do transporte coletivo. Essa alta, segundo a pesquisa, contribui para uma expansão da indústria automobilística. A venda de veículos registrou queda de aproximadamente 90% durante a quarentena, segundo a associação chinesa de indústrias do setor, contudo, o consumo foi rapidamente retomado após a reabertura.

Checagem de notícias – As Fakes news não são uma particularidade do Brasil. Grande parte dos chineses criaram o hábito de duvidar de informações compartilhadas em massa e passaram a conferir suas fontes.

Força para o comércio local – O comércio local registrou crescimento significativo, impulsionado por dois principais motivos: solidariedade econômica ao pequeno empreendedor e como forma de autopreservação, preferindo ir no mais perto e se expondo a menos risco de contaminação. A iiMedia Research mostrou que o comércio local registrou crescimento de 19% para 38,6% e 50,6% dos consumidores passaram a consumir artigos nacionais.

Pagamentos digitais – Conhecida como o primeiro país cashless – sem dinheiro físico – do mundo, com mais de 850 milhões de pessoas efetuando pagamentos via smartphones, observou-se um crescimento na casa de 6% nesse índice durante a pandemia. Segundo o estudo da Inovasia, é consenso que pagamentos sem contato serão considerados diferencial comercial.

Novos usuários online – Muitas pessoas não se sentiam seguras para realizar compras online, e isso teve que ser superado durante a pandemia e deve ser um caminho sem volta. Os consumidores que iniciaram essa prática tendem a não deixá-la. Na pesquisa, 85% das pessoas que começaram a comprar online afirmam ter tido experiências positivas e não pretendem deixar a prática e 95% dos novos vendedores, que experimentaram delivery impulsionados pela pandemia, dizem que vão continuar oferecendo.

Retomada veloz no consumo, mas sem planos a longo prazo – O sentimento de ter a vida de volta veio com a vontade de celebrá-la. Isso elevou o consumo imediato. Muitas compras foram impulsionadas pelo “Eu mereço isso”. Pesquisa realizada pela Dentsu Aegis Network mostra que mais de 60% das pessoas confraternizaram com amigos, 55% foram ao salão de beleza e 52% investiram em produtos para se exercitar. Contudo, essa reação não se aplicou para planos de longo prazo tais como, compra financiada de um um carro novo, planejamento de casamentos ou imóveis. Observou-se mais de 50% de cancelamentos de contratos imobiliários. Existe um sentimento de insegurança e, agora, os planos passam a estar focado no curto prazo.

*Marcelo Souza é CEO da Indústria Fox, pioneira em indústrias de reciclagem e refurbished de eletrônicos

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