100 anos de escravidão

100 anos de escravidão

Márcio Coimbra*

21 de julho de 2021 | 06h30

Menino uigurur mascarado participa de um protesto contra a China. FOTO: MURAD SEZER/REUTERS

Da fome nos campos de trabalho forçado até o modelo tecnológico que tudo enxerga e vigia, a China mudou sua posição no mundo, mas não seus métodos. O país que saiu do campo e chegou até o espaço, realizou muitas mudanças, porém, o custo foi imenso. Muitas vidas perdidas, inúmeros crimes tolerados, incontáveis violações silenciadas. No momento que a China celebra os 100 anos de seu Partido Comunista chegou também o tempo de o mundo questionar seus métodos e o alto custo pago por seus resultados.

A chegada ao poder de Mao Tse-Tung em 1949 trouxe mudanças brutais para o país, entretanto, seus erros, baseados em desenhos marxistas de desenvolvimento, geraram custos humanitários sem precedentes para a população desde o princípio. Ao prometer industrializar a China em 15 anos, Mao realizou a tentativa de coletivização do campo mediante uma reforma agrária forçada e uma industrialização urbana compulsória, chamada de “Grande Salto Adiante”. O saldo foram 45 milhões de mortos pela fome, tornando-se um dos maiores crimes contra humanidade do regime. A História, reescrita pelo Partido Comunista, credita as mortes, de forma falsa, a “desastres naturais”.

A reação ao fracasso foi acentuar os erros. A “Revolução Cultural” que ocorre logo adiante, tinha por objetivo declarado preservar o comunismo chinês eliminando os restos de elementos capitalistas e tradicionais da sociedade chinesa. Era o recrudescimento do regime, a imposição do maoísmo como elemento central do país. O movimento foi outro desastre humanitário, responsável pela morte de mais de 20 milhões de pessoas. Perseguições, assassinatos, julgamentos sumários, torturas, estupros, expurgos políticos, linchamentos, episódios de canibalismo humano e massacres como o Agosto Vermelho, Quancim, Yunann, Ruijin e Hunan, entre muitos outros marcaram este período. Os Guardas Vermelhos de Mao inclusive destruíram relíquias e artefatos históricos e saqueavam locais culturais e religiosos, apagando importantes capítulos da história do país como forma de exterminar o capitalismo.

As mudanças que começariam a mudar a face da China vieram com o fim da Era Mao e a chegada de Deng Xiaoping ao poder. Naquele momento é iniciado um período de reforma e abertura. Porém, controle e repressão continuavam a fazer parte do cardápio do partido comunista. O emprego da força militar em 1989 contra manifestações populares por mais liberdade política e econômica e contra os crescentes casos de corrupção acarretaram o assassinato de um grande número de civis e ficou conhecido como Massacre da Praça Paz Celestial. Percebia-se que apesar da abertura comercial, a China ainda precisava lidar com os seus fantasmas internos. Desde o massacre, a liberalização econômica acelerou, entretanto, o partido silenciou sobre os pedidos por mais liberdade civil e democracia.

Depois dos anos de Jiang Zemin e Hu Jintao, onde foram sedimentadas as políticas de abertura econômica, a chegada de Xi Jinping vem alterar profundamente os rumos da política chinesa. Xi é o líder que acumula mais poder desde Mao e isto pode não ser uma boa notícia. Desde sua chegada ao poder, defensores de Direitos Humanos passaram a ser perseguidos e presos. Institutos que discordam das políticas do governo foram fechados e a perseguição contra a imprensa é a mais brutal em décadas. Hong Kong passou a ser fortemente tutelada, com impiedosos cerceamentos de liberdades. A situação se deteriora rapidamente e o ocidente suspeita que Pequim pode avançar sobre Taiwan.

A ideologia de outrora voltou com força e os pensamentos de Xi são celebrados como na época de Mao. O culto da personalidade está de volta e pela primeira vez um líder do partido não possui mais limitação de tempo no poder como os antecessores. Xi Jinping redesenhou o modelo e pode comandar o país por tempo indeterminado.

Os retrocessos no tímido movimento de liberdade chinês das últimas décadas é uma preocupação. Hoje o país possui campos de detenção onde uigures são torturados, igrejas são destruídas e textos religiosos reescritos. Tudo ocorre exatamente quando tenta-se vencer um vírus surgido em Wuhan. Cientistas silenciados, imprensa censurada e informações limitadas levantam teses e teorias diversas. Isto sem mencionar a influência política e eleitoral ao redor do mundo. A falta de transparência faz parte da nova China de Xi Jinping.

Muito mudou desde que Mao, juntamente com outras 50 pessoas, fundaram o Partido Comunista Chinês em 1921 em Xangai. Mas 100 anos depois, os retrocessos e a postura imperial de Xi Jinping ameaçam os progressos feitos ao longo de décadas. Com as devidas maquiagens e uma nova roupagem, é o retorno da escravidão conhecida. A China está passando neste momento pela mudança mais profunda desde os anos de Mao. O mundo e especialmente os chineses não têm nada a celebrar.

*Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil. Diretor executivo do Interlegis no Senado Federal

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoEscravidãoChina [Ásia]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.