É falso que a XP tenha declarado apoio a Lula e sofrido ‘fuga de investidores’ por conta de boicote

É falso que a XP tenha declarado apoio a Lula e sofrido ‘fuga de investidores’ por conta de boicote

Postagem espalha boato infundado após encontros de executivos da empresa com pré-candidatos ao Planalto

Samuel Lima

12 de maio de 2022 | 15h33

Circula nas redes sociais uma postagem falsa dizendo que a XP Investimentos teria declarado apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais e depois sofrido uma “fuga de investidores” — em tentativa de emplacar uma tese insustentável de boicote de grupos conservadores contra a empresa. O boato se aproveita da queda das ações da XP na bolsa de valores para espalhar uma mentira: não é verdade que o banco tenha apoiado qualquer candidato na corrida ao Planalto.

 

O que ocorreu é que o fundador e presidente do conselho de administração da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, teve um encontro recente com o ex-presidente Lula, em 20 de abril. A reunião foi noticiada pelo blog do Lauro Jardim, do jornal O Globo e confirmada pelo Estadão. O executivo disse que pretende se reunir com todos os presidenciáveis de forma isonômica. 

Naquele momento, Benchimol e representantes da XP já haviam conversado com outros políticos citados como possíveis candidatos a presidente este ano, a exemplo do ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB), do ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB) e do ex-juiz Sergio Moro (UNIÃO). Dias depois, em 3 de maio, o fundador da XP também conversou pessoalmente com o presidente Jair Bolsonaro (PL), em encontro articulado pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD).

“A agenda é sempre a mesma coisa: como conseguimos ter uma economia estável, juros baixos, inflação controlada e fazer com que os nossos 20 milhões de empreendedores, que empregam mais de 50 milhões de brasileiros, aumentem em quantidade e possam ser cada vez melhores, gerando assim mais renda e prosperidade para o nosso país”, escreveu Benchimol em post no Instagram, rebatendo críticas de seguidores.

Procurada pelo Estadão Verifica, a assessoria de comunicação da XP negou que tenha ocorrido “qualquer manifestação política ou declaração de apoio a candidatos”. Também negou ter havido queda na base de clientes. “Misturar encontros de relacionamento com notícias falsas tem o intuito criminoso de confundir a opinião pública”, acrescenta a nota. Segundo a Lei nº. 7.492/1986, é crime divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira, sob pena de dois a seis anos de reclusão e multa.

O Estadão confirmou a existência de eventos anteriores da XP com Moro, Doria e Leite. O ex-governador de São Paulo teve almoço com Guilherme Benchimol em 8 de dezembro, segundo a sua agenda oficial; a assessoria informou ainda que, neste começo de maio, Doria teve encontro com representantes da XP em Nova York. Moro participou de um evento público da XP em São Paulo, em 29 de novembro de 2021, precedido de reunião privada. Leite declarou no Twitter que, a convite da XP, conversou com investidores em 28 de janeiro deste ano.

Queda nas ações é atribuída a cenário econômico e resultados da XP

Além de desinformar sobre agendas institucionais da XP com políticos, o boato investe em uma tese de que o encontro com o ex-presidente Lula teria ocasionado uma “fuga de investidores” da empresa. A alegação sequer é explicada na postagem — que não cita nenhuma fonte confiável de informação ao longo de todo o texto — mas tende a se referir a uma queda recente no preço das ações da XP na bolsa de valores.

O papel é negociado tanto nos Estados Unidos (XP, na Nasdaq), quanto no Brasil (XPBR31, na B3) — neste caso, na forma de BDR, sigla para Brazilian Depositary Receipt, um certificado de depósito emitido e negociado no Brasil que representa ações de empresas listadas em outros países. 

Os dados da Nasdaq mostram que houve uma tendência de baixa nas cotações desde o final de março, passando de US$ 33,50 (29/3) para US$ 18,09 (11/5). No Brasil, entre as mesmas datas, o BDR desvalorizou de R$ 158,88 a R$ 93,18. A queda no preço das ações neste ano, portanto, já estava ocorrendo cerca de três semanas antes do encontro do fundador da XP com o ex-presidente Lula.

Analistas do mercado financeiro atribuem a queda a fatores externos, como a deterioração do cenário econômico e a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos e no Brasil, além dos números apresentados pela companhia no 1º trimestre deste ano. A XP é considerada uma empresa de crescimento, ou seja, muito do valor atribuído a ela no presente depende das expectativas de expansão futuras, explica reportagem do Estadão.

O boletim mais recente da companhia (1°t/22) mostra que a base de clientes ativos aumentou 3% em relação ao final do ano passado, assim como o total de ativos sob custódia, na ordem de 7%. Como os dados se referem aos três primeiros meses do ano, não há como saber ainda como se deu o desempenho da XP em abril e maio. 

Boatos sobre boicotes aparecem com frequência

Essa não é a primeira vez que boatos sobre boicotes circulam nas redes sociais. A mesma tática foi usada por grupos conservadores para criticar uma campanha de Dia dos Pais da Natura com o ator Thammy Miranda e para espalhar que a Fiat teria sofrido prejuízo após repudiar declarações homofóbicas do jogador de vôlei Maurício Souza.

Recentemente, a empresária Luiza Trajano e a rede de lojas Magazine Luiza também foram alvo de uma falsidade envolvendo o ex-presidente Lula. Um post falso alegava que a empresa teria perdido R$ 30 bilhões “após declarar apoio a Lula”. Assim como nesta checagem sobre a XP, o Magazine Luiza não apoiou publicamente o nome de qualquer político nas eleições. A rede também havia sofrido revés nas ações negociadas na bolsa, mas por conta do cenário econômico.

A XP também é alvo de bolsonaristas na internet por custear pesquisas eleitorais do Ipespe — ainda que a posição dos candidatos indicada nesses levantamentos seja a mesma dos principais institutos. Desconfie de mensagens alarmistas contendo expressões como “quem lacra, não lucra” e verifique se existem fontes confiáveis de informação relatando aquele mesmo fato antes de compartilhar.

O boato sobre o suposto apoio da XP ao petista também foi desmentido pela Lupa.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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