É falso que Vila Olímpica do Rio tenha custado 31 vezes mais que a de Tóquio

É falso que Vila Olímpica do Rio tenha custado 31 vezes mais que a de Tóquio

Apartamentos dos atletas dos jogos no Japão custaram US$ 489 milhões, pouco mais da metade do investido no conjunto habitacional do Rio, considerando valor do dólar em 2016

Victor Pinheiro

09 de agosto de 2021 | 18h46

É falso que a Vila Olímpica dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, tenha custado 31 vezes o valor dos apartamentos construídos para receber os atletas para as Olimpíadas de Tóquio. Com críticas ao PT, a afirmação é compartilhada nas redes sociais para sugerir que o partido superfaturou as obras na capital fluminense. 

O boato subestima o custo da vila olímpica japonesa e omite que o empreendimento carioca recebeu investimentos privados. Uma única postagem no Facebook com a alegação falsa foi compartilhada mais de 63 mil vezes. Já um site que havia divulgado a informação na rede social publicou uma errata com valores corrigidos. 

Vila de Tóquio custou US$ 490 mi

O conteúdo afirma equivocadamente que foram investidos apenas US$ 29 milhões na construção do complexo que abrigou atletas em Tóquio. Segundo informações da agência Reuters, no entanto, a Vila Olímpica da cidade recebeu investimento estimado em cerca de 54 bilhões de ienes (moeda japonesa), ou US$ 489,6 milhões, conforme a cotação do dólar atual. 

Já a construção da Vila Olímpica do Rio de Janeiro custou cerca de R$ 2,9 bilhões, segundo o site da Rede Nacional do Esporte, a agência de notícias esportivas vinculada ao Governo Federal. O valor inclui R$ 579 milhões referentes ao terreno onde o empreendimento foi construído. A propriedade pertencia a Carvalho Hosken, uma das empreiteiras privadas responsáveis pela obra.

O montante informado também consta em um relatório da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados, publicado em 2017. 

O investimento corresponde a US$ 900,6 milhões, considerando a cotação da moeda americana em 21 de agosto de 2016, dia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio. Na cotação atual, o valor equivaleria a aproximadamente US$ 555 milhões. De qualquer maneira, o boato comete um exagero grotesco ao afirmar que o empreendimento brasileiro foi 31 vezes mais caro que o construído em Tóquio.

Ao comparar os investimentos das duas obras em reais e reajustar a quantia investida na Vila Olímpica do Rio pela inflação acumulada entre agosto de 2016 e junho de 2021, o resultado também mostra um cenário bem diferente do alarmado na postagem. Nessas condições, a vila do Rio de Janeiro custaria R$ 3,5 bilhões, frente a R$ 2,58 bilhões das instalações japonesas. 

Recursos privados

O boato ainda omite que as obras da vila dos atletas do Rio foram executadas com recursos privados, apoiado por um financiamento da Caixa Econômica Federal. O projeto foi conduzido por um consórcio formado pelas empresas Carvalho Hosken e Odebrecht, que deixou a sociedade posteriormente. 

O Comitê Organizador das Olimpíadas do Rio 2016 assinou um contrato com o consórcio para usufruir da Vila Olímpica durante a competição. Em troca, o comitê pagou os juros a valor de mercado do financiamento tomado pelas empresas junto à Caixa Econômica Federal e os apartamentos ficaram em posse das empreiteiras.

Segundo reportagem do UOL, os organizadores dos jogos estimaram despesas de R$ 150 a 200 milhões com o acordo. Após o término das Olimpíadas, o Comitê realizou reparos e devolveu as instalações ao Consórcio, que transformou o empreendimento em um condomínio de luxo privado chamado Ilha Pura. Embora o projeto da Vila Olímpica não tenha contado com investimentos públicos diretos, a prefeitura do Rio de Janeiro investiu em obras de infraestrutura nos entornos do local para tornar a região mais atraente para iniciativa privada, mostra uma matéria do Jornal Nacional de 2016. Naquela época, a prefeitura do Rio de Janeiro era comandada por Eduardo Paes (PSD), ainda filiado ao MDB.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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