Vídeo exagera sobre feitos do governo Bolsonaro para exaltar o presidente

Vídeo exagera sobre feitos do governo Bolsonaro para exaltar o presidente

Valor do Auxílio Brasil em R$ 400 citado em postagem não é definitivo e dados sobre queda de assassinatos estão fora de contexto

Clarissa Pacheco e Pedro Prata

10 de março de 2022 | 17h22

Um vídeo com uma lista de supostas realizações do governo de Jair Bolsonaro (PL) circula no Facebook e engana ao atribuir ao presidente conquistas que não foram resultado do atual governo – ou, pelo menos, não somente da gestão bolsonarista. 

É enganosa, por exemplo, a informação que sugere que o presidente dorme em quartéis do Exército para economizar em hospedagem durante as viagens oficiais. Isso aconteceu ao menos duas vezes, em São Paulo e Recife (PE), mas não significa que o presidente não use hotéis e não tenha gastos desse tipo.

O vídeo também engana ao afirmar que o Auxílio Brasil tem valor de R$ 400, contra R$ 180, no máximo, do Bolsa Família. Os atuais R$ 400 pagos pelo benefício não são permanentes e estão assegurados, por enquanto, apenas até o final de 2022. Também falta contexto na publicação quando afirma que os homicídios caíram no atual governo.

O vídeo com estas e outras alegações foi postado originalmente no YouTube e circula também no Facebook, onde soma mais de 177 mil interações. A mulher que aparece nas imagens é Val Paschoalini, que foi candidata a vereadora de São Bernardo do Campo (SP), pelo PRTB. Os canais dela nas redes sociais não informam um endereço de contato.

Confira a seguir a apuração:

O que diz o vídeo: Bolsonaro construiu ferrovias, privatizou portos e aeroportos; imagens mostram BR-226 entre Altos e Coivaras, no Piauí

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso por duas razões: primeiro, porque a autora do vídeo usa a imagem de uma rodovia associada à fala sobre a construção de ferrovias; e depois, porque isso insinua que o atual governo foi responsável pela construção da BR-226, que tem mais de 2 mil quilômetros de extensão e vai de Natal (RN) a Paraíso do Tocantins (TO), o que não é verdade.

Durante o governo Bolsonaro, um trecho pequeno, de apenas 28 quilômetros entre as cidades de Altos e Coivaras, no Piauí, foi que passou por obras de revitalização, como informou o próprio governo em novembro de 2021, e não construção. A obra foi tocada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e custou R$ 4,2 milhões.

Em relação a ferrovias, em 2021 o presidente participou da inauguração de um trecho da Norte-Sul, que deve ligar Goiás ao Porto de Santos. O trecho de 172 quilômetros foi construído pela empresa Rumo, que investiu R$ 711 milhões. Na inauguração, Bolsonaro disse que o governo buscou “destravar os processos” da ferrovia. “Trabalhamos para ajudar a iniciativa privada”, disse.

Já a fala sobre privatização de portos e aeroportos é verdadeira. Só em abril do ano passado foram leiloados 22 aeroportos em 12 estados, além de cinco terminais portuários.

 

O que diz o vídeo: Presidente pernoita em quartel do Exército, em vez de usar hotéis de luxo, como outros presidentes

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O Estadão Verifica encontrou duas notícias sobre Bolsonaro ter pernoitado em quartéis do Exército durante viagens – uma vez em São Paulo e outra em Recife. Isto não significa, contudo, que o atual presidente não se hospede em hotéis luxuosos ou que não gaste com hospedagens, como sugere o vídeo.

Quando decidiu pernoitar em um quartel em São Paulo, por exemplo, a atitude do presidente foi vista por fontes da matéria compartilhada no próprio vídeo como uma “nostalgia” dos tempos de farda, sem qualquer menção a uma intenção de economizar.

Gastos com viagens do presidente foram notícia recentemente, inclusive. O jornal O Globo publicou que as visitas de Bolsonaro à Rússia e à Hungria custaram R$ 2,1 milhões, incluindo gastos com hospedagem. Não são listados os custos do presidente, mas apenas um de seus assessores recebeu R$ 13 mil em diárias. Segundo o jornal O Povo, a diária no hotel onde o presidente pernoitou — Four Seasons, no centro de Moscou — custa até 309 mil rublos, aproximadamente R$ 21 mil.

Já nas férias do presidente no final de 2021 foram gastos R$2,3 milhões, segundo o deputado federal Elias Vaz (PSB-GO), que solicitou as informações à Secretaria-Geral da Presidência e ao Gabinete de Segurança Institucional. De acordo com o parlamentar, boa parte foram gastos com hospedagem e segurança.

 

O que diz o vídeo: O novo Bolsa Família tem benefício no valor de R$ 400 para todos; o antigo programa pagava no máximo R$ 180.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O programa Bolsa Família foi extinto e substituído por outro benefício chamado Auxílio Brasil. O valor de R$ 400 não é definitivo – ele só existe por causa de uma Medida Provisória que o garante até dezembro de 2022. Sem a MP, o valor do benefício é de R$ 217,18, um reajuste de 17,84% em relação ao valor pago pelo Bolsa Família, que girava em torno de R$ 190. O reajuste corresponde à inflação, já que não havia correção desde 2018.

 

O que diz o vídeo: que o governo Bolsonaro reduziu em 21,4% o número de assassinatos.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. A mulher não diz a que período está se referindo, mas uma manchete que acompanha sua alegação é de janeiro a setembro de 2019. Ela refere-se apenas a homicídios e está correta. Naquele ano completo, o primeiro do mandato de Jair Bolsonaro, os homicídios caíram 21,5% em comparação com o período anterior.

O Atlas da Violência, iniciativa do Fórum de Segurança Pública, ressaltou que o número de mortes violentas por causas indeterminadas no mesmo período aumentou 35,2%. Segundo o Atlas, essas mortes podem ser de agressões, suicídios, assassinatos ou acidentes. Mas são classificadas como indefinidas nas estatísticas e podem ajudar a baixar os registros de homicídios.

Os dados do Fórum de Segurança Pública foram compilados a partir de registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) a partir dos atestados de óbito. Os dois sistemas são do Ministério da Saúde.

 

O que diz o vídeo: que nenhum governo anterior teria liberado o aumento máximo do piso salarial aos professores como fez Bolsonaro.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O piso salarial dos professores na educação básica da rede pública foi estabelecido pela Lei 11.738/2008 e cabe ao presidente apenas sancionar o valor. Ela determina que o piso pago aos educadores deve acompanhar o percentual de crescimento do valor anual mínimo por aluno, isto é, o mínimo que deve ser investido por Estados e municípios em relação ao número de estudantes.

Em nota, o Ministério da Educação confirmou que o reajuste sempre seguiu a Lei do Piso. O único ano em que não teria havido reajuste foi em 2021. “A variação do Valor Aluno Ano, índice usado no cálculo, foi negativa, prevalecendo, então, o princípio da irredutibilidade de vencimentos”, diz a pasta.

Um ano depois, o Congresso Nacional aprovou uma nova regulamentação para o Fundeb, o mecanismo pelo qual a União ajuda a financiar os sistemas de educação pública. Isso gerou um impasse quanto ao reajuste dos professores para o ano de 2022. Prefeitos de todo o País alegam que a nova regra para o Fundeb teria anulado a lei que estipulava o critério para manutenção dos pisos salariais. Eles até tentaram articular a aprovação de uma nova lei, atrelando o reajuste à correção pela inflação no ano anterior. A medida não saiu do papel.

Já as entidades de classe pressionaram o governo federal alegando que, na ausência de uma nova lei, a regra deveria ser mantida. E pediam uma correção que somasse também o reajuste não concedido em 2020. Essa foi a saída política acatada pela gestão Bolsonaro, que oficializou o reajuste de 33,24%.

 

O que diz o vídeo: Bolsonaro levou água para o Nordeste, que sempre vivia na seca com os outros governos

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. São comuns as peças de desinformação que inflam a responsabilidade de Bolsonaro com relação à chegada da água ao Nordeste por meio da Transposição do Rio São Francisco. O atual governo concluiu a obra, mas ela já estava com mais de 90% da execução física pronta quando Bolsonaro tomou posse, em 2019.

Além disso, o objetivo da Transposição não é acabar com a seca e sim possibilitar uma convivência com o semiárido, como mostrou esta checagem do Comprova. A seca é um fenômeno secular e provocado por diversos fatores, como irregularidade das chuvas em determinados lugares, temperaturas elevadas e alto índice de evaporação no semiárido.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.