Vídeo que alerta sobre a importação de máscaras contaminadas é montagem
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Vídeo que alerta sobre a importação de máscaras contaminadas é montagem

A OMS não fez alertas sobre máscaras importadas da China e da Índia, como afirma um vídeo publicado no YouTube

Alessandra Monnerat

27 de abril de 2020 | 20h40

Esta checagem foi produzida pela coalizão do Comprova. Leia mais aqui.

É falso o vídeo que diz que a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou sobre máscaras importadas da China e da Índia que estariam infectadas com o novo coronavírus. Na publicação, uma narração em off sobrepõe o áudio original do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, com informações completamente diferentes do conteúdo original. A edição usa os logotipos do canal GloboNews e do site G1, mas o vídeo não foi exibido por nenhum dos dois veículos.

Ao Comprova, a OMS informou, em nota, que não emitiu nenhum alerta sobre importação de máscaras. O Escritório da OMS para as Américas também desmentiu a necessidade de esterilização do equipamento de proteção. “Se a máscara cirúrgica descartável estiver lacrada antes do uso, não é necessário fazer nada”, comunicou. “Se a máscara tiver sido contaminada, não se deve tentar esterilizá-la e sim descartá-la imediatamente.”

O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou que não há nenhuma evidência de que produtos enviados da China estejam contaminados: “Os vírus geralmente não sobrevivem muito tempo fora do corpo de outros seres vivos, e o tempo de tráfego destes produtos costuma ser de muitos dias”.

A pasta explicou ainda que importou máscaras apenas da China, assim como fizeram “diversos outros países”.

Por que checamos este vídeo?

A verificação deste vídeo foi pedida por leitores do Comprova. Nossa decisão por verificar considerou três motivos. 

O primeiro deles, o tema. Postagens que denunciam a importação de máscaras contaminadas têm sido comuns durante a pandemia do novo coronavírus. O Projeto Comprova já verificou conteúdo semelhante recentemente

Outro motivo foi a viralização. O Comprova só verifica conteúdos suspeitos sobre a covid-19 que tenham grande viralização. O vídeo verificado foi postado no dia 23 de abril no canal Xadrez Brasil12 no YouTube e, até o dia 27, foi assistido mais de 500 mil vezes.

Finalmente, chamou a atenção do Comprova o fato de o vídeo estar publicado no YouTube como “não listado”. Quando um vídeo é caracterizado desse modo, ele não aparece nos mecanismos de busca e só pode ser assistido por quem tem o link para a publicação. Mesmo com essa restrição, o vídeo obteve grande alcance.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira. 

Como verificamos?

Buscamos os poucos trechos com o áudio original que aparecem na publicação para localizar o vídeo original, sem adulteração no áudio. Depois fizemos a busca por esse vídeo no G1 e no site da GloboNews para conferir se as imagens foram exibidas e se houve edição. 

Em seguida, procuramos publicações com as imagens das máscaras sendo produzidas em condições precárias para identificar o país em que elas foram feitas.

Também entramos em contato com o Ministério da Saúde para saber de que países os equipamentos de proteção individual (EPIs) como máscaras estão sendo importados. Por fim, consultamos a OMS e a OPAS para esclarecer se há algum tipo de restrição às máscaras produzidas na China e na Índia.

Qual a declaração original do diretor-geral da OMS?

As imagens foram tiradas de uma entrevista coletiva que os dirigentes da OMS concederam no dia 20 de abril quando, aos 54 minutos e 54 segundos, Tedros Adhanon critica o uso político da pandemia do novo coronavírus. “Nós avisamos que esse vírus ia surpreender até mesmo os países desenvolvidos”, lembrou. 

O trecho exato usado na edição foi publicado no mesmo dia 20 pelo canal no YouTube da agência de notícias Bloomberg, com o discurso verdadeiro. Conseguimos identificá-lo porque a edição deixou duas frases no inglês original. A primeira, “vamos evitar essa tragédia”, e a última: “enough is enough”, ou seja, “já chega”. Todo o resto da fala foi coberto por uma narração em off em que uma voz masculina diz que a OMS “alerta que as máscaras vindas da Índia e da China estão apresentando um alto grau de contaminação por coronavírus”. 

Para reforçar, a edição alterna a imagem de Adhanon com um vídeo de máscaras sendo produzidas em condições precárias. O registro mais antigo dessas imagens no YouTube  é do dia 25 de março, em uma publicação que descreve uma oficina clandestina na Índia. Outros usuários também apontam a Índia com o local onde as imagens teriam sido captadas. De acordo com uma reportagem veiculada pelo telejornal India Today no dia 26 de março, essas oficinas piratas são um problema para as autoridades indianas. 

O Comprova não encontrou registros de que o Ministério da Saúde tenha importado máscaras indianas. Em nota, a pasta informou apenas que comprou equipamentos de proteção chineses.

Apesar de usar vinhetas e logomarca do canal GloboNews e do site G1, nenhum dos dois veículos exibiu as imagens editadas da forma como elas aparecem no vídeo que viralizou. Uma reportagem exibida no dia 20 de abril no Jornal Nacional, da Rede Globo, usou trechos da entrevista de Adhanon. Esta sim foi a matéria reproduzida tanto pelo G1 quanto pela GloboNews.   

OMS não divulgou alerta sobre máscaras

Por e-mail, a assessoria de imprensa da OMS informou que a organização não divulgou nenhum alerta sobre compra de máscaras. Atualmente, a entidade recomenda expressamente o uso de máscaras médicas por profissionais da saúde, pessoas cuidando de pacientes com a covid-19 e todos aqueles que apresentarem sintomas da doença, como tosse e dor de garganta.

O Ministério da Saúde, por sua vez, indica a utilização de máscaras de pano por toda a população. Para garantir a proteção, é necessário que a máscara seja de uso individual, tenha ao menos duas camadas de pano e cubra o nariz e a boca completamente.

Contexto

Desde que o uso de máscaras virou uma orientação do Ministério da Saúde, a desinformação sobre a importação dos equipamentos de proteção tem se espalhados pelas redes sociais. A acusação mais comum é a de contaminação pelo novo coronavírus. Alguns usuários chegam a afirmar que a China produziu o vírus em laboratório justamente para vender os EPIs. O Projeto Comprova já verificou denúncia semelhante no dia 14 de abril. 

Outros veículos já verificaram denúncias de máscaras contaminadas, como o Boatos.org, a agência Aos Fatos e o Fato ou Fake, do G1. 

Alcance

O canal Xadrez Brasil12 tem 1,72 mil inscritos no YouTube, mas há apenas um vídeo público, com 962 visualizações. Mesmo sem ter ligação com a Rede Globo, o canal usa o logotipo da emissora. O conteúdo que viralizou está cadastrado como “não listado” e não aparece nos mecanismos de busca. Entre 23 e 27 de abril ele foi visualizado mais de 500 mil vezes.

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