Vídeo mostra presidente eleito do Chile hostilizado por ter apoiado nova Constituição em 2019

Vídeo mostra presidente eleito do Chile hostilizado por ter apoiado nova Constituição em 2019

Gravação foi editada e circula fora de contexto no Instagram e no TikTok; nas imagens, Gabriel Boric aparece molhado depois que manifestantes atiram líquidos contra ele

Alessandra Monnerat

13 de janeiro de 2022 | 17h10

Circula fora de contexto nas redes sociais um vídeo em que o presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, é hostilizado por um grupo de pessoas em um parque de Santiago. Ele aparece com o cabelo e a camisa molhados. A gravação foi feita em 2019, quando o chileno era deputado e foi atacado por ter assinado um acordo por uma nova Constituição, sem apoio de seu partido.

Postagens recentes no Instagram e TikTok compartilham apenas um trecho do vídeo original, com a alegação de que Boric estaria sob efeito de drogas – mas não há provas disso. A gravação foi editada para omitir a parte em que manifestantes atiram líquidos contra o deputado, deixando-o encharcado. A assessoria de Boric afirmou ao Estadão Verifica que os posts são falsos.

O ataque a Boric ocorreu em dezembro de 2019 e foi registrado em vários meios de comunicação chilenos. Nas imagens, o deputado está sentado em um banco de praça; ele usa um boné azul e  conversa com uma mulher. Manifestantes o interpelam pelas costas, gritando ofensas. Eles jogam o chapéu no chão e atiram líquidos e uma lata contra ele. Boric não responde às agressões, até que eventualmente o grupo o expulsa do parque.

O vídeo não mostra em nenhum momento Boric consumindo drogas, e não encontramos nenhuma notícia da época que relacione a agressão a isso. Nas postagens mais recentes, a gravação foi editada para mostrar apenas o trecho em que o presidente eleito aparece já com a camisa e o cabelo molhados. 

O jornal chileno La Tercera informou que a agressão ocorreu no dia 20 de dezembro de 2019. Naquela época, Boric era deputado e assinou um acordo que abriria caminho uma nova Constituição para o Chile, aprovada em 2020. Isso fez com que seu partido, Convergência Social, decidisse suspender sua militância. Na tarde da agressão, um grupo de jovens o chamou de “traidor” e “vendido”. 

Segundo a CNN chilena, Boric também era criticado por ter votado a favor de uma lei que foi usada para reprimir as manifestações que ocorriam no país naquela época – posteriormente, ele se arrependeu do posicionamento. Os protestos no Chile foram convocados inicialmente contra o aumento do preço de passagens de transporte público, mas eventualmente tiveram a pauta ampliada para incluir questões como saúde, educação, moradia e aposentadorias. Foram registrados vários episódios de violência durante as manifestações.

O canal de TV T13 informou que vários parlamentares repudiaram o ataque a Boric. Depois do episódio, ele escreveu no Twitter: “Que o medo nunca vença a esperança. Que a violência nunca intimide a convicção. Seguimos”.

Presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, em encontro com empresários em 13/01/2022. Foto: EFE/Alberto Valdés

Em nota enviada à AFP do Chile em 12 de janeiro de 2022, a equipe do presidente eleito afirmou: “Foi um ataque que o candidato recebeu em meio à convulsão social, onde se observa a humildade de Gabriel Boric. Como equipe acreditamos ser fundamental verificar os fatos, mas também os contextos e assim não contribuir para a divulgação de informações falsas”.

A AFP mostrou que Boric foi relacionado ao consumo de drogas em outras ocasiões, inclusive pelo seu opositor durante a campanha presidencial, José Antonio Kast. Em um debate televisionado em 13 de dezembro de 2021, Kast defende que os dois candidatos se submetam a um teste de drogas. Boric então mostra um resultado negativo e afirma: “não sou consumidor de drogas”. O presidente eleito publicou o exame em suas redes sociais. 

Além da AFP, o jornal peruano La Republica publicou uma checagem semelhante.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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