Vídeo engana ao sugerir que sobram vacinas contra a covid-19 no Brasil
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Vídeo engana ao sugerir que sobram vacinas contra a covid-19 no Brasil

Youtuber bolsonarista usa dado sem contexto para alegar que doses distribuídas pelo governo federal não estão em falta e que o problema está na aplicação pelos municípios

Samuel Lima, especial para o Estadão

14 de abril de 2021 | 17h46

Atualizado em 15/4 para incluir resposta do Ministério da Saúde.

Um vídeo em circulação nas redes sociais engana ao afirmar que não faltam vacinas contra a covid-19 no Brasil e que o ritmo de imunização é comprometido pela defasagem entre o número de doses distribuídas pelo governo federal e a quantidade efetivamente aplicada pelos municípios. Essa alegação omite uma série de fatores que contribuem para o descasamento entre esses números — como reservas para segunda dose e intervalos de tempo para entrega dos lotes e registro de informações.

A declaração é feita pelo youtuber bolsonarista Gustavo Gayer, em um conteúdo com mais de 250 mil visualizações, divulgado em 3 de abril. O conteúdo foi encaminhado por leitores do Estadão Verifica pelo WhatsApp (11) 97683-7490.

Na gravação, Gayer elogia uma proposta do governo federal de usar as Forças Armadas na campanha de vacinação contra a covid-19, que foi noticiada pela agência O Globo e republicada no portal IG. Essa mesma reportagem traz depoimentos de especialistas afirmando que o gargalo para acelerar a campanha é a falta de doses, e não falhas nos postos de imunização, mas essa análise é desqualificada pelo youtuber.

“Nós estamos tendo um problema em relação à vacinação, mas não é a falta de vacinas”, alega Gayer. “Isso já ficou comprovado. Os próprios números como esse aqui já mostram: nós já temos mais de 40 milhões de vacinas distribuídas e apenas a metade disso já foi usada em vacinação. Ou seja, o problema está na linha de frente, e não no governo federal como a imprensa quer fazer você acreditar”.

Dados atualizados do Ministério da Saúde, disponíveis na plataforma Localiza SUS, mostram que o governo federal encaminhou 47,8 milhões de doses para os estados e o Distrito Federal até a manhã desta quarta-feira, 14 de abril. Desse volume, as secretarias estaduais de Saúde repassaram 44,4 milhões (92,8%) aos municípios, que são os responsáveis diretos pela aplicação. Já o número de doses aplicadas era de 30,9 milhões, cerca de 65% do total.

Distribuição das vacinas depende de características regionais

Ao contrário do que Gayer sugere no vídeo, esses dados não “comprovam” que o problema está nos postos de imunização. Em resposta ao Estadão Verifica, os conselhos que representam os secretários estaduais e municipais de Saúde esclareceram que essa diferença está relacionada principalmente com o intervalo de entrega das vacinas aos postos de saúde; com a demora no registro das informações em algumas localidades; e com reservas técnicas e de curto prazo para cobrir a segunda dose, orientadas pelo próprio Ministério da Saúde.

“Não é porque o Ministério da Saúde distribuiu uma pauta que as doses estarão amanhã na porta das salas de vacina do município”, afirma o secretário-executivo do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Mauro Junqueira. “Em Minas Gerais, por exemplo, o Estado recebe (os lotes do governo federal) e encaminha para 26 regionais de saúde, que então distribuem para 853 municípios. Belo Horizonte até consegue receber e aplicar no mesmo dia, ou no dia seguinte, mas uma cidade que está no (Vale do) Jequitinhonha, no norte de Minas, recebe só cinco ou seis dias depois.”

Após a chegada da remessa e a aplicação efetiva nos grupos prioritários, ainda existe uma parcela de atraso no registro de dados no sistema — problema que afeta principalmente as cidades mais afastadas dos centros urbanos e com dificuldades de acesso à internet. “Estamos fazendo uma vacinação nominal e extramuro. Não estamos usando apenas salas de vacina, que têm computador e toda uma estrutura, mas também drive thru e praças”, lembra Junqueira. 

Nesses casos, uma solução é coletar as informações em planilhas físicas e depois digitar os dados no sistema. Mas nem todas as cidades cumprem a orientação ou apresentam condições de comunicar diariamente o andamento da campanha. “Tem município que está fazendo imediatamente. Tem município que faz em planilha e digita no final de semana. Outros, dois ou três dias depois. São 5.570 municípios, então varia muito entre um e outro. A gente tem solicitado aos gestores para fazer isso diariamente”, relata o representante do Conasems.

Filas de carros quilométricas e centenas de pessoas aglomeradas foram o resultado de uma decisão da prefeitura de Duque de Caxias, na baixada fluminense, de vacinar todas as pessoas com mais de 60 anos. O anúncio foi feito em 14 de março e fez as filas iniciarem desde as 5h do dia seguinte. No centro de Xerém, distrito de Duque de Caxias, alguns idosos relataram espera de até 8 horas na fila. FOTO WILTON JUNIOR / ESTADÃO

Reserva para segunda dose

Outro aspecto que influencia o painel é o volume de vacinas reservadas para a segunda dose. Essa aplicação de reforço é obrigatória para garantir a proteção com a Covishield (vacina da Universidade de Oxford/Astrazeneca produzida nacionalmente pela Fiocruz) e a Coronavac (da farmacêutica Sinovac e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan), as duas vacinas que estão sendo distribuídas atualmente pelo governo federal.

Para cada etapa de distribuição, o Ministério da Saúde publica uma nota técnica informando quantas doses podem ser usadas para imunizar novos grupos de vacinados e quantas devem ser reservadas para o reforço daqueles que já receberam a primeira, com base na previsão de entrega da Fiocruz e do Butantan para as semanas seguintes. Com isso, os municípios tendem a formar algum estoque de curto prazo para garantir o atendimento. 

A plataforma de monitoramento do Ministério da Saúde mostra que 16,4 milhões de brasileiros tinham recebido apenas a primeira dose até a manhã desta quarta, 14 de abril. Oito a cada dez doses aplicadas no Brasil hoje são da Coronavac, que tem um intervalo mais curto entre a primeira e a segunda aplicação, de 28 dias. No caso da Covishield, esse intervalo sobe para três meses. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, revelou ontem que 1,5 milhão de pessoas estavam com a segunda dose atrasada em todo o território nacional.

Em relação ao percentual de doses que ainda não foram repassadas pelos estados para os municípios, que é de 7,2%, o Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) informou que isso se deve a quatro motivos. As vacinas podem estar armazenadas em centrais estaduais ou regionais para aplicação de segunda dose; em centrais regionais de distribuição para preservar adequadamente os materiais destinados a municípios próximos com pouca estrutura de armazenagem; em processo logístico de distribuição aos municípios; ou compondo reserva técnica de 5% para compensar eventuais perdas operacionais, conforme recomendação do Programa Nacional de Imunização (PNI).

Professores fazem fila em frente ao Centro de Formação do Educador (CEFE) no Parque da Cidade, em São José dos Campos, interior paulista, nesta terça-feira, 13 de abril de 2021, para receberem a primeira dose da vacina contra a covid-19 – Foto: LUCAS LACAZ RUIZ/ESTADÃO CONTEÚDO

Não há vacinas suficientes para a população brasileira ou para grupo prioritário

Mesmo que todos esses fatores fossem desconsiderados, a distribuição feita até agora pelo Ministério da Saúde é suficiente apenas para a imunização completa, com duas doses, de 24 milhões de brasileiros — o equivalente a 11,3% da população estimada em 212 milhões de habitantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao grupo prioritário, calculado em 77,8 milhões de pessoas, o volume cobre pouco mais de 30%.

Para o médico Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a diferença entre as doses distribuídas e aplicadas é uma situação normal e esperada durante a campanha de imunização. “Esse número tem delay nos registros e vacinas guardadas para a segunda dose. Não vejo nenhuma razão para imaginar que se tenha vacinas sendo estocadas, desviadas ou não aplicadas. Isso tudo é teoria da conspiração que não cabe”, afirma. 

Kfouri lembra que o Brasil conseguiu vacinar somente em torno de 10% da população com a primeira dose em três meses, mas enxerga uma evolução nas últimas semanas, com o avanço na imunização de idosos. “Temos uma capacidade de vacinar muito mais do que isso, só não estamos fazendo por falta de vacina”, avalia.

Em 15 de abril, o Ministério da Saúde respondeu ao Estadão Verifica “que o registro de aplicação de doses deve ser feito por estados e municípios em até 48 horas” e ressaltou que “podem ocorrer atrasos neste processo, considerando que muitas salas de vacinação não tem acesso à internet e que há diferentes sistemas onde esses dados podem ser cadastrados”. De acordo com a pasta, os números divulgados pela plataforma LocalizaSUS são atualizados conforme o abastecimento feito pelos gestores locais de saúde.

A epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde entre 2011 e 2019, também mencionou as dificuldades apontadas pelas secretarias de Saúde ao explicar a discrepância na distribuição e aplicação de doses e criticou a desinformação sobre o assunto. “Estão pegando os números e dando sem contexto, ignorando uma realidade tão complexa. Fica parecendo que é o município que não está querendo vacinar, que o Ministério fez a parte dele e o município, não. Como se Estados e municípios estivessem de corpo mole. Não é: em todos os lugares, chega a vacina e tem fila para vacinar, as pessoas fazendo drive thru e outras estratégias.”

Para ela, o maior entrave para a imunização ganhar velocidade é a falta de vacinas. Com poucos lotes disponíveis, novas remessas precisam ser feitas pelo Ministério da Saúde quase toda a semana, tornando a logística mais desafiadora. “O nosso problema se chama escassez de vacina. Nas campanhas de influenza, nós vacinamos 80 milhões de pessoas em dois meses, porque faz duas ou três pautas de distribuição, com um grande quantitativo de vacinas. Flui muito rápido.”

Butantan libera novo carregamento da Coronavac nesta segunda-feira, 12 de abril. Foto: Divulgação/Governo de SP

Vídeo tem outras alegações infundadas sobre a vacinação

A peça de desinformação compartilhada pelo youtuber Gustavo Gayer traz outras declarações enganosas sobre o ritmo de vacinação contra a covid-19. O youtuber fala, por exemplo, que o Brasil aplicou mais de 1 milhão de doses em dois dias consecutivos, o que não ocorreu de fato até hoje. A primeira vez que o País conseguiu superar a marca foi em 1º de abril, mas foram aplicadas somente 318 mil doses no dia seguinte. O índice só voltaria a esse patamar em 6 de abril, com o ritmo caindo novamente na sequência.

O youtuber diz ainda que o Brasil teria ultrapassado a União Europeia em porcentagem da população vacinada. Não é o que mostra a plataforma Our World in Data, mantida por pesquisadores da Universidade de Oxford. O Brasil tinha 7,57% da população vacinada em 2 de abril, dia anterior ao compartilhamento do vídeo, contra 12,53% da União Europeia. Atualmente, o Brasil aparece com 11,10% da população com pelo menos uma dose recebida, e a União Europeia, com 16,36%. Os brasileiros estão em 64º no ranking global.

A reportagem também não encontrou registro de nenhuma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tenha impedido o governo federal de “colocar o Exército, com seus médicos, sua estrutura e sua capacidade de produzir hospitais, para lutar contra a pandemia” no ano passado, como Gayer sugere. Ao Estadão Verifica, a assessoria de comunicação do STF afirmou que “não localizou qualquer decisão nesse sentido”. 

O youtuber acerta ao dizer que o Brasil era o “quarto país do mundo em número de vacinações diárias”. Dados da plataforma Our World in Data mostram que o Brasil realmente foi o quarto país que mais aplicou doses de vacina contra a covid-19 no dia 2 de abril, ficando atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia. Mas, quando o critério leva em conta o tamanho da população (doses aplicadas a cada 100 habitantes na média dos últimos 7 dias), o Brasil cai para 70º na lista de países e territórios.

Procurado por e-mail, o youtuber Gustavo Gayer não retornou o contato. A checagem será atualizada em caso de resposta. / COLABOROU PEDRO PRATA

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