Vídeo de obstetra sobre cuidados pós-vacina é tirado de contexto para desencorajar imunização
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Vídeo de obstetra sobre cuidados pós-vacina é tirado de contexto para desencorajar imunização

Renato Kalil gravou apelo para que pessoas mantenham medidas de proteção sanitária mesmo após tomar duas doses; segundo ele, Hospital Sírio-Libanês tinha pacientes já imunizados

Pedro Prata

14 de abril de 2021 | 13h18

Um vídeo do ginecologista e obstetra Renato Kalil, irmão do cardiologista Roberto Kalil Filho, circula fora de contexto no WhatsApp. Ele havia publicado uma série de vídeos nos quais alertava para a necessidade de se manter os cuidados sanitários mesmo após receber as duas doses das vacinas contra covid-19, mas seu vídeo foi usado para contestar a eficácia dos imunizantes distribuídos atualmente no País e desestimular a vacinação.

No WhatsApp, o vídeo de Kalil é compartilhado junto com um texto que diz que “essas vacinas não oferecem a imunidade desejada”, sem citar a quais imunizantes se refere. Também fala que “máscara e distanciamento devem continuar sendo adotados até que se descubra uma vacina realmente eficaz”. Esse texto não é de autoria do médico.

“O vídeo viralizou por pessoas que usaram aquilo (o relato) como um incentivo a não se vacinar, coisa que eu discordo completamente”, disse Kalil ao Estadão Verifica. Ele também falou que o vídeo não foi compartilhado no WhatsApp integralmente, e que uma parte final na qual ele defendia a vacinação foi deletada.

As vacinas aplicadas contra covid-19 hoje no País — Coronavac e Oxford/AstraZeneca — foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro. O órgão ratificou dados de estudos com milhares de participantes, que demonstraram a eficácia dos imunizantes em prevenir casos graves da doença.

Segundo a coordenadora do PNI, Francieli Fontana, mesmo fora do prazo, todos devem retornar para tomar a segunda dose. Foto: Miguel Medina/AFP

O que diz Kalil no vídeo

No vídeo, Kalil afirma que visitou o hospital Sírio-Libanês com o irmão e que encontrou muitas pessoas já imunizadas com as duas doses, mas que teriam se contaminado mesmo assim e em alguns casos até precisaram de entubação. O obstetra, então, deixa um recado: “Não é porque tomou vacina que vai sair sem máscara, que vai quebrar as regras do distanciamento social e deixar de usar o álcool em gel.”

Kalil foi avisado que sua fala estava sendo usada com o propósito de questionar a eficácia dos imunizantes e gravou um novo vídeo para esclarecer seu comentário. “Não sei se o vídeo passou completo, tem muita gente me perguntando. Mas, primeiro: vacinação ontem. Todos devem tomar vacina, todos! O quanto antes”, orienta o médico.

Neste novo vídeo, ele novamente contou que foi visitar o hospital onde o irmão trabalha e que encontrou muitos leitos de UTI ocupados por pessoas que já haviam tomado as duas doses da vacina. Mas ele reforça o pedido para que as pessoas se vacinem e mantenham os cuidados de distanciamento social, uso de máscara e higienização constante das mãos.

Em nota, o hospital Sírio-Libanês informou que tem “pouquíssimos casos de pessoas que teriam, supostamente, tomado a vacina”. Estes estão sendo investigados. Nesta terça-feira, 13, a taxa de ocupação de leitos era de 79% e o hospital registrou queda no número de pacientes com relação à semana anterior. Apesar disso, a unidade de saúde reforçou a necessidade da população continuar seguindo as medidas de distanciamento social, higienização das mãos e o uso de máscara.

Tempo da resposta imunológica

Em seu segundo vídeo, Kalil lembra de um comunicado da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) que lembra que nenhuma vacina é 100% eficaz, o que por si só já demanda continuar com os cuidados sanitários. Mas, além disso, a entidade lembra que, em boa parte dos casos de imunizados que ficam doentes, a infecção pode ter ocorrido no período logo após a aplicação da segunda dose, quando ainda não houve tempo para o desenvolvimento dos anticorpos.

“A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirma que cada vacina tem orientações específicas, mas geralmente a resposta imunológica protetora ocorre após 10 a 20 dias depois da segunda dose”, cita Kalil.

No caso da Coronavac, o Instituto Butantan afirma que a resposta imunológica demora cerca de duas semanas após a aplicação da segunda dose. Em checagem anterior do Estadão Verifica, a instituição havia informado que “algumas pessoas podem ainda desenvolver a doença mesmo tendo sido vacinadas, mas isso é exceção à regra”.  “A resposta imune (proteção) requer a aplicação de duas doses no intervalo previsto em bula (de 14 a 28 dias) e não representa uma ‘barreira’ para a infecção”, afirmou o Butantan. “É, portanto, essencial manter os protocolos não farmacológicos de prevenção, como distanciamento social, uso de máscaras e higienização”.

Isso não quer dizer que os estudos científicos sobre as vacinas foram incompletos ou enganosos. Na verdade, na atual situação da pandemia, os governos precisam de um imunizante que impeça mortes e evite que as pessoas tenham quadros graves, pois os sistemas de saúde do mundo todo não suportam a quantidade de pacientes que o coronavírus é capaz de infectar em tão pouco tempo. E quanto a isso, as vacinas atualmente disponíveis se mostraram eficazes.

Novos estudos serão conduzidos ao longo do tempo para verificar se, além disso, as vacinas também evitam a pessoa de pegar o coronavírus de forma assintomática e de transmiti-lo a outros.

“Quem tomou vacina, continue se cuidando e cuidando do próximo”, pede Kalil. “Se você tirar a máscara, você não está só se arriscando, mas colocando os outros em risco de óbito, pois não tem leito para tratamento. Então brasileiros, vamos dar de brasileiro de verdade, vamos cuidar uns dos outros, que é isso que está faltando no nosso País?”

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490. Baseada em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis em 14 de abril de 2021.

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