Vídeo de doação de alimentos pelo MST no Paraná circula sem contexto nas redes

Vídeo de doação de alimentos pelo MST no Paraná circula sem contexto nas redes

Post viral alega que MST e PT estariam usando caminhão do governo do Estado para fazer 'campanha contra o presidente Bolsonaro'

Samuel Lima

03 de maio de 2021 | 14h46

Imagens de uma doação de alimentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na cidade de Paranavaí, no Paraná, estão circulando sem contexto nas redes para sugerir uma campanha conjunta de MST, Partido dos Trabalhadores (PT) e Governo do Estado contra o presidente Jair Bolsonaro. A associação enganosa é feita a partir do caminhão usado para a entrega dos produtos, que estampa o brasão paranaense.

Post usa vídeo de doação de alimentos para alegar que MST, PT e Governo do Paraná estariam fazendo ‘campanha contra o presidente Bolsonaro’. Foto: Reprodução / Arte: Estadão

Na gravação, um homem não identificado discursa com um microfone em meio a um vaivém de pessoas com caixas e sacolas. “Os trabalhadores não podem passar fome, como as pessoas têm passado com esse governo. Não tem vacina, o auxílio foi pouco. E com isso o povo vai passando necessidade”, afirma ele. 

É possível notar que uma mesa na calçada está coberta por uma bandeira do PT. Em seguida, a câmera aponta para a lateral da cabine do caminhão, que aparece adesivada com o símbolo oficial do governo do Paraná e o logotipo do Ministério do Desenvolvimento Agrário, extinto em 2016.

Procurado pela reportagem, o governo do Estado do Paraná informou que o veículo em questão foi adquirido por meio de um convênio celebrado com a pasta em 18 de setembro de 2013, para estruturar a produção de leite e seus derivados, entre outros produtos, nos assentamentos de reforma agrária.

Documento

Ao todo, foram liberados R$ 15,6 milhões da União para a compra de equipamentos como furgões isotérmicos, caminhões-tanque rodoviários, caminhões graneleiros e resfriadores de leite, com uma contrapartida de R$ 2 milhões da Secretaria Estadual de Abastecimento do Paraná. 

Os bens ficaram sob responsabilidade das prefeituras, mediante assinatura de termos de convênio com cláusulas de cessão de uso, e foram entregues na sequência aos agricultores beneficiados (veja exemplos de documentos firmados com os municípios ao final da matéria).

“Vários desses assentamentos de reforma agrária têm conseguido articular produção agrícola e agroindustrial de pequeno porte com bastante eficiência. Por exemplo, são grandes fornecedores, há anos, do leite das crianças e da alimentação escolar”, declarou a gestão de Ratinho Júnior (PSD), em nota enviada ao Estadão Verifica

“Desde o começo da pandemia, [os assentamentos] têm feito distribuição de alimentos a famílias e entidades que tratam de vulneráveis. A ação mostrada no vídeo é uma dessas. Então, não há nada de errado em usar os caminhões legalmente cedidos pelo Estado aos municípios para uma ação social de solidariedade e humanitária”, acrescenta.

Apesar de o fato ter acontecido em Paranavaí, a prefeitura da cidade disse que não teve participação na doação de alimentos pelo MST e que não é responsável pelo veículo. O governo do Estado confirmou que o município não recebeu caminhões nesse convênio e que, na região, as cidades mais próximas incluídas são Arapongas e Paranacity.

Em um texto publicado em sua página oficial, o MST afirma que distribuiu cinco toneladas de alimentos para a cidade de Paranavaí, em 16 de abril deste ano, e que a doação foi realizada por comunidades de Paranacity, Itaguajé, Planaltina do Paraná, Amaporã, Santa Mônica, Querência do Norte, Cruzeiro do Sul, Santo Inácio, Maringá e Terra Rica. 

Fotos do evento publicadas no site Portal da Cidade, de Paranavaí, permitem afirmar que essa ação é a mesma retratada no vídeo. O Estadão Verifica chegou ao conteúdo a partir de uma das frases ditas na gravação, que menciona três bairros da cidade: Conjunto Ettore Giovine, Vila Alta e Jardim São Jorge.

A coordenação estadual do MST informou que as doações envolvem a produção de famílias assentadas, sócias/proprietárias de cooperativas, laticínios e agroindústrias. “Essas cooperativas têm caminhões de diferentes portes e por diversos tipos de projetos e convênios, e que durante a pandemia têm sido colocados a serviço das ações de solidariedade também.” 

A reportagem pediu mais detalhes, incluindo a comunidade ou a cooperativa de agricultores que opera o caminhão, mas o MST respondeu que não conseguiu identificar o veículo porque várias cooperativas diferentes estavam envolvidas. A direção estadual do PT não comentou o assunto.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.