Vídeo antigo sobre cabine para pacientes de covid circula fora de contexto; saiba mais sobre o equipamento
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Vídeo antigo sobre cabine para pacientes de covid circula fora de contexto; saiba mais sobre o equipamento

'Cápsula Vanessa' foi projetada para reduzir a disseminação de partículas de pacientes submetidos a procedimentos de ventilação não invasiva; evidências sobre eficácia do equipamento são escassas

Victor Pinheiro

13 de maio de 2021 | 15h45

Circula no WhatsApp um vídeo antigo da rede hospitalar amazonense Samel que mostra o uso de cápsulas de proteção para terapias de ventilação não invasiva de pacientes com covid-19. Embora o material tenha sido originalmente publicado no primeiro semestre de 2020, mensagens recentes compartilham a gravação fora de contexto no aplicativo. 

A ventilação não invasiva, ou VNI, compreende métodos que oferecem suporte de oxigênio a pacientes que apresentam limitações respiratórias leves ou moderadas. Como reportou o Estadão em agosto, o produto apresentado no vídeo, apelidado de “Cápsula Vanessa”, consiste em uma estrutura montada com peças de PVC e revestida por um plástico transparente que serve como barreira de proteção a profissionais de saúde durante o manejo de equipamentos de VNI em pacientes com covid-19.

A cabine, desenvolvida pelo Instituto Transire em parceria com a Samel, também conta com um sistema de exaustão e filtros que renovam o ar e proporcionam uma pressão negativa dentro do equipamento. Essa pressão ajudaria a evitar que pequenas partículas exaladas pelo paciente escapem para o ambiente externo e possam aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus.

Entretanto, os potenciais de proteção dos profissionais de saúde e benefícios clínicos do produto ainda são incertos. No ano passado, entidades de saúde apontaram que ainda faltavam evidências sobre a eficácia do equipamento em reduzir infecções. De acordo com o grupo Samel, um estudo técnico gerou dados preliminares sobre o funcionamento do dispositivo, mas a conclusão da pesquisa ainda deve ser publicada. 

A ‘cápsula Vanessa’ recebeu este nome em homenagem à primeira paciente de Manaus Foto: Divulgação

Evidências são escassas

Ao Estadão, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) afirmou que a entidade mantém um posicionamento divulgado em abril de 2020 sobre a cápsula. O documento diz que, até aquele momento, não existiam estudos científicos que comprovassem que a câmara oferecia proteção efetiva aos envolvidos no atendimento ao paciente. A nota também faz os mesmos apontamentos sobre supostos benefícios clínicos do produto.

Documento

Uma análise de evidências do Ministério da Saúde, atualizado em junho, também aponta a falta de evidências diretas sobre a cabine de proteção. O relatório destaca que a Cápsula Vanessa é um protótipo e que, naquele momento, ainda não existiam “quaisquer dados disponíveis sobre o desempenho frente à geração de aerossóis pelos indivíduos com covid-19”.

“Desse modo, faz-se necessária a realização de análises de desempenho que avaliem adequadamente sua capacidade de redução do risco de propagação viral, por retenção dos aerossóis gerados pelos pacientes com covid-19”, conclui o documento.

Em nota, a Anvisa afirmou ao Estadão que a cápsula não é considerada um produto de saúde passível à regularização da agência porque não é destinada diretamente ao diagnóstico ou terapia de pacientes. 

“O que é indicado para o tratamento/terapia médica e proporciona a melhoria do quadro clínico do paciente é a ventilação não invasiva (VNI), proporcionada por um ventilador mecânico (CPAP, BIPAP, dentre outros), que provêm fluxo contínuo de ar/oxigênio ao paciente de forma não invasiva. Tais produtos, por sua vez, devem ser regularizados na Anvisa para fins de uso em pacientes”, explica a instituição.

Estudo em curso

Procurado pelo Estadão, o Grupo Samel afirmou que o Instituto Transire realizou uma pesquisa técnica para o desenvolvimento e caracterização da cápsula, mas os resultados ainda são preliminares. De acordo com a companhia, os estudos foram realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT).

A empresa afirma que os dados preliminares identificaram a capacidade da cápsula em promover pelo menos 10 renovações de ar por hora no ambiente interno do equipamento. Essa renovação pode chegar a 20 vezes em situações específicas. Segundo a nota, os ensaios também indicaram aumento não significativo na temperatura e na umidade relativa do ar no ambiente interior da cápsula, quando usada continuamente em locais com temperatura controlada, como hospitais. Os estudos também confirmaram que a estrutura pode propiciar pressões negativas ao redor do paciente. 

Ainda de acordo com o comunicado da Samel, ambas as empresas têm tomado providências para que o estudo técnico seja concluído, e novos resultados devem ser divulgados em breve. 

A ventilação não invasiva

No vídeo, o diretor da Samel, Luís Alberto Nicolau, defende que a ventilação não invasiva é o melhor tratamento para covid-19, “porque evita UTI, evita o respirador”. Entidades e agências de saúde internacionais reconhecem estratégias respiratórias não invasivas como uma opção de tratamento para a doença, mas o debate científico sobre os benefícios e riscos do procedimento ainda está em aberto.

Um artigo publicado na revista médica Lancet, em abril deste ano, pontua que há escassez de evidências de qualidade sobre o impacto das estratégias de suporte respiratório não invasivas no âmbito da covid-19. Segundo os autores, uma das principais preocupações é que médicos possam atrasar, de forma inadequada, a intubação dos pacientes. 

O documento abaixo mostra uma lista da posição de entidades de saúde sobre o uso da ventilação não invasiva para a covid-19.

O guia de manejo clínico da Organização Mundial da Saúde aponta que em casos específicos de covid-19 com síndrome de desconforto respiratório moderado métodos não invasivos podem ser uma opção. A entidade destaca, no entanto, que diante da deterioração do quadro de saúde de pacientes a intubação não deve ser adiada. A OMS também recomenda que equipes hospitalares adotem precauções para diminuir os riscos de infecção por partículas de aerossóis expelidas durante as terapias.

Por outro lado, o momento adequado para a intervenção invasiva também é uma pergunta a ser respondida sobre a covid-19, como mostra este artigo da revista científica British Medical Journal.

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