Vídeo alarmista diz que atualização do WhatsApp permite ao Facebook ler e catalogar opiniões política de usuários; não é verdade

Vídeo alarmista diz que atualização do WhatsApp permite ao Facebook ler e catalogar opiniões política de usuários; não é verdade

Empresas não têm acesso ao conteúdo de mensagens, pois elas são protegidas por criptografia de ponta a ponta e só podem ser decifradas nos aparelhos dos usuários

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

11 de fevereiro de 2021 | 13h03

É falso que a nova atualização da política de privacidade do WhatsApp permitirá que a plataforma crie “listas públicas” sobre as preferências político-partidárias de usuários e as comercialize com outras empresas. Um vídeo enganoso que circula no próprio aplicativo e nas redes sociais espalha uma série de falsidades a respeito das novas diretrizes de compartilhamento de dados do WhatsApp com o Facebook.

No vídeo, o apresentador afirma que, a partir da atualização, os conteúdos de áudios e mensagens de texto serão armazenados em bancos de dados do Facebook e poderão ser acessados e lidos pelas empresa. A alegação está incorreta, uma vez que as mensagens de conversas pessoais do WhatsApp são protegidas por criptografia de ponta a ponta. O recurso impede que a mensagem seja interceptada por alguém que não seja o remetente ou destinatário – nem mesmo o próprio WhatsApp tem acesso ao conteúdo. O material é protegido por um código que só pode ser “decifrado” com a combinação de chaves gravadas no aparelho de quem enviou e recebeu a mensagem.

 

De acordo com a política de privacidade atualizada do WhatsApp, arquivos não entregues e mídias encaminhadas com frequência  podem ser armazenados temporariamente nos servidores da companhia, mas ainda são protegidos com a criptografia. Em nota ao Estadão Verifica, a empresa afirmou que o vídeo “contém muitas informações incorretas” e que a acusação de que o aplicativo comercializa dados dos usuários “é completamente falsa”.

Mariana Rielli, coordenadora de projetos da Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa,  também diz que os apontamentos do vídeo não correspondem à realidade. Ela ressalta que, embora o WhatsApp não possa ler o conteúdo de mensagens, é importante ter atenção sobre a coleta de dados sobre as atividades do usuário no aplicativo.

A política de privacidade da empresa revela que o serviço armazena informações como o tempo de uso, lista de contatos, marca do aparelho, operadora, endereço de IP e dados de transações de pagamentos via WhatsApp. 

O Estadão Verifica tentou contato com os gestores do canal em que o vídeo foi publicado, mas eles não se manifestaram até a publicação da reportagem.

O que muda

Apesar do tom alarmista do vídeo, as novas políticas de privacidade do WhatsApp não representam uma mudança significativa para usuários que utilizam a plataforma para fins pessoais, aponta Mariana Rielli. As novas diretrizes, segundo a especialista, somente explicitam o compartilhamento de dados do aplicativo com o Facebook que já acontece desde 2016. Naquele ano, o WhatsApp solicitou aos usuários consentimento para compartilhar dados com a rede social.

Diante da repercussão negativa, porém, a atualização que ocorreria inicialmente em 8 de fevereiros, foi adiada para maio. De acordo com o próprio WhatsApp, a empresa já compartilha informações da conta, registros, dados de interação com outros usuários (incluindo empresas), bem como informações do aparelho com o Facebook. O impacto da atualização incide principalmente em um futuro serviço de hospedagem que o aplicativo deve oferecer, para que empresas possam terceirizar o relacionamento com clientes na plataforma. 

Dados de localização

O vídeo enganoso diz ainda que, com as novas regras de privacidade, usuários poderão ser rastreados em tempo real. “Através do GPS do seu celular uma pessoa pode saber o endereço exato de onde você estava ao escrever uma mensagem”, afirma o apresentador. Ele acrescenta: “Pior, qualquer um pode saber onde você está agora!”

Ao Estadão Verifica, o WhatsApp também negou essa informação. Em página informativa, a plataforma diz utilizar “dados precisos” de localização com a permissão do usuário quando o último recorre a recursos como o compartilhamento da localização em tempo real com um outro contato. “Mesmo se você não utiliza nossos recursos relacionados à localização, usamos endereços IP e outros dados como códigos de área de número de telefone para calcular sua localização geral (por exemplo, cidade e país).”, complementou o WhatsApp.

Em nota, a empresa destacou que o compartilhamento de localização com outros usuários “é protegido pela criptografia de ponta a ponta e ninguém, além das pessoas que você selecionou, nem mesmo o WhatsApp, pode ver sua localização em tempo real”. A assessoria de imprensa também garantiu que os dados de localização gerais não são compartilhados com terceiros.

Audiência de Zuckerberg no Senado americano

O vídeo ainda cita que o Mark Zuckerberg, presidente-executivo e fundador do Facebook, teria sido convocado pelo Senado americano a dar explicações sobre uma venda indireta de dados de usuários para outras empresas. A afirmação, no entanto, carece de contexto. Em 2018, o empresário respondeu a perguntas de parlamentares após a imprensa estrangeira revelar um escândalo de coleta e uso indevido de dados por parte da companhia de consultoria Cambridge Analytica. 

Estima-se que dados de 50 milhões de usuários tenham sido coletados por meio de um jogo de perguntas e respostas no Facebook, elaborado por um pesquisador de uma universidade britânica. Ele alegou inicialmente que o questionário fazia parte de uma investigação acadêmica. As informações, no entanto, foram repassadas à Cambridge Analytica, sem o consentimento dos usuários. 

 

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