Vídeo com imagens da Amazônia e do Mar Báltico engana ao sugerir conflito entre Brasil e Venezuela

Vídeo com imagens da Amazônia e do Mar Báltico engana ao sugerir conflito entre Brasil e Venezuela

Peça de desinformação afirma que tensão aumentou na fronteira do Brasil com a Venezuela após chegada de militares russos; Exército brasileiro monitorou exercícios que ocorreram em 2021 e disse que não houve invasão

Clarissa Pacheco

03 de maio de 2022 | 17h26

A guerra entre Rússia e Ucrânia continua alimentando desinformação pelo mundo. Desta vez, imagens de uma operação militar brasileira na Amazônia feita em 2020, de exercícios militares da Venezuela em 2021 e até de uma operação da Marinha da Rússia no Mar Báltico em 2019 foram parar num mesmo vídeo que, sem dizer de quando e onde são as imagens, engana ao sugerir a iminência de um conflito armado entre Brasil e Venezuela, com apoio do exército russo ao país comando por Nicolás Maduro.

As forças armadas da Rússia de fato já participaram de exercícios na Venezuela, mas isso ocorre desde 2019 e não houve invasão ao território brasileiro, conforme explicou o então ministro da Defesa do Brasil, general Walter Braga Netto. Ele foi questionado sobre o assunto pelo deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS) durante uma reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional na Câmara dos Deputados, em 5 de maio de 2021.

O vídeo aqui verificado foi postado em mais de uma conta do Facebook a partir de 27 de abril de 2022, três dias após a invasão da Rússia à Ucrânia completar dois meses. Em meio a imagens de militares fardados, tanques de guerra, canhões, fuzileiros navais e até um aeromodelo abatido no ar, o narrador do vídeo alarma o público ao afirmar que as tensões aumentaram na fronteira entre Brasil e Venezuela com a chegada de militares russos ao país vizinho.

A narrativa criada pelo autor do vídeo é de que a presença russa na Venezuela ocorreu em resposta à Operação Amazônia, cuja edição de 2021 foi considerada pelo Exército Brasileiro como “o maior exercício de defesa externa” já realizado pelo Comando Militar da Amazônia. A operação, contudo, ocorre periodicamente e as imagens utilizadas no vídeo são de 2020. Já havia registros de militares venezuelanos e russos próximos à fronteira brasileira ainda em 2019. Não há evidência de invasão ao território nacional nem de que a presença russa fosse uma resposta à operação brasileira.

Os exercícios militares na Venezuela

No dia 2 de maio de 2021, um site especializado em notícias sobre defesa publicou um texto afirmando que homens da Rússia estavam participando de exercícios militares na Venezuela, na fronteira com o estado brasileiro de Roraima. Três dias depois, em 5 de maio de 2021, o deputado federal Marcel van Hattem, do Rio Grande do Sul, aproveitou uma reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados para questionar o ministro Walter Braga Netto sobre o assunto e sobre uma ameaça militar e cibernética partindo da Inteligência russa.

Braga Netto respondeu que houve sim, exercícios, mas do outro lado da fronteira, sem invasão ao Brasil: “Realmente ocorreu o exercício na fronteira. As Forças Armadas têm monitorado todo tipo de exercício. E a nossa cibernética tem condição de contrapor diversos tipos de ação, mas isso está em constante atualização, é sempre atualizado. Posso dizer ao senhor que realmente ocorreu o exercício, mas, que eu tenha conhecimento, não houve nenhuma invasão de fronteira, foi tudo do outro lado da fronteira. Não houve nada. Mas, toda vez que há mobilização, acompanhamos e monitoramos todo tipo de exercício. E esse realmente existiu. Quanto ao ataque ao lado de cá, não houve nada que tenha chegado ao nosso conhecimento”.

Embora o caso tenha vindo à tona em 2021, já havia notícia sobre a presença de militares russos na Venezuela pelo menos desde dezembro de 2019, quando a jornalista venezuelana Mariana Reyes publicou em sua conta no Twitter um fio com informações sobre a chegada de 40 militares da Rússia à cidade de Canaima, na Venezuela, a cerca de 70 quilômetros da fronteira com o Brasil.

O Estadão Verifica entrou em contato com o Ministério da Defesa e o Comando Militar da Amazônia para questionar sobre as alegações do vídeo viral, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

As imagens

O vídeo viral usa imagens de fontes variadas para construir sua narrativa. Boa parte delas foi capturada pela TV Encontro das Águas, afiliada à TV Brasil em Manaus (AM), que produziu uma reportagem especial sobre a Operação Amazônia de 2020. São cerca de 10 minutos de gravação, incluindo uma entrevista com um dos comandantes, que também aparece no vídeo que viralizou recentemente. A TV Encontro das Águas mostra, por exemplo, um treinamento para abater aeronaves utilizando como alvo um aeromodelo.

Outras imagens sem informações sobre local e contexto também são usadas no vídeo viral, como, por exemplo, o trecho de um exercício protagonizado por fuzileiros navais. É possível ver mar ao fundo da imagem, o que já indica que ela não poderia ter sido feita na fronteira entre Brasil e Venezuela, que não é banhada por águas marítimas.

Utilizando a ferramenta de busca de imagens do Yandex, o Estadão Verifica localizou a mesma imagem em um tuíte de um pesquisador  e na página oficial da TV estatal russa Zvezda no Instagram: eram exercícios militares no Mar Báltico, em abril de 2019. O Báltico banha, além da Rússia, também Dinamarca, Suécia, Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia e Alemanha.

Resposta à presença de Mike Pompeo?

O autor do vídeo ainda tenta relacionar a presença dos militares russos na Venezuela à chegada do então secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, à cidade de Boa Vista, capital de Roraima. Segundo ele, os russos se moveram para a fronteira do Brasil porque o objetivo da ida de Pompeo à cidade brasileira era derrubar o regime chavista de Nicolás Maduro.

Mais uma vez, a narrativa não se sustenta, já que Pompeo de fato esteve em Boa Vista e conversou com refugiados venezuelanos, mas isso ocorreu em setembro de 2020, meses depois de já se constatar a presença de militares russos na Venezuela.


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