Revista ‘Veja’ não publicou reportagem sobre reforma no Ministério da Educação

Revista ‘Veja’ não publicou reportagem sobre reforma no Ministério da Educação

Postagem que viralizou traz manchete e informações falsas; Ensino Médio passará por reforma este ano, mas medidas não incluem expulsão de alunos nem exame de qualificação de professores

Jullie Pereira, especial para o Estadão

12 de janeiro de 2022 | 16h50

Circula no Facebook a imagem de uma suposta manchete da revista Veja, anunciando uma reformulação no Ministério da Educação promovida pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). A postagem afirma que ocorreria a expulsão de “alunos que espancarem professores”; a seleção de professores “após rigoroso teste de qualificação” e o “fim da pornografia infantil de Haddad”, como se essas informações estivessem na reportagem. A Veja, no entanto, não publicou nenhum texto com esse teor. 

Em pesquisa no site do veículo não foram encontradas reportagens com a mensagem compartilhada, apenas notícias com a cobertura de trocas de ministros, a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a crise no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e os impactos da pandemia no ensino.

O Ministério da Educação (MEC) foi procurado para falar sobre a possível reformulação, mas não respondeu. Em 2022, escolas de todo o País devem colocar em prática medidas aprovadas para o Novo Ensino Médio, com base em lei de 2017. As medidas não incluem seleção de professores por testes de qualificação ou expulsão de alunos, como é possível conferir no texto da legislação. 

Entre as principais alterações está a mudança na grade curricular das escolas, que não terão as disciplinas divididas individualmente, mas separadas em áreas do conhecimento. Serão elas: linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas. 

Além das quatro áreas, os alunos também poderão escolher uma disciplina extra para se aprofundar dentro da área de formação técnica e profissional. O intuito é que a transição da escola para o mercado de trabalho seja mais fácil. Com isso, os estudantes também terão a carga horária, passando de 4h para, no mínimo, 5h.   

Boatos sobre Fernando Haddad 

A imagem analisada aqui também anuncia o “fim da pornografia infantil” do ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT). No entanto, não há qualquer fundamento para relacionar o petista à pornografia infantil. 

Há anos, opositores do PT chamam de “kit gay” o material “Escola sem homofobia”, que foi produzido no MEC quando Haddad era ministro. Era um caderno educativo com orientações para evitar atitudes discriminatórias. A cartilha foi vetada pela presidente à época, Dilma Rousseff (PT), e não foi divulgada nas escolas. 

Em outras ocasiões, o Estadão Verifica desmentiu conteúdos que associavam Haddad e o PT ao assunto. Em 2018, uma checagem comprovou que mamadeiras com bico de borracha em formato de pênis não foram distribuídas em creches, diferente do que foi compartilhado em vídeo publicado no Facebook. 

Também em 2018 outra verificação desmentiu que o MEC tenha distribuído um “kit gay” com imagens de casais fazendo sexo. Na realidade, as ilustrações eram de uma cartilha produzida pelo Ministério da Saúde sobre prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e do HIV,  e não foi enviada para escolas. 

Naquele mesmo ano, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro exibiu, em rede nacional, o livro Aparelho sexual e Cia, afirmando que o MEC teria comprado a obra para entregar em escolas, o que também foi desmentido por checagens. O ministério nunca comprou os exemplares. 

A publicação no Facebook tem mais de 22 mil compartilhamentos e mais de 1,5 mil curtidas. 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.