Não é verdade que vacinas contra a covid-19 liberem fibrinas no sangue

Não é verdade que vacinas contra a covid-19 liberem fibrinas no sangue

Relato duvidoso de mulher em vídeo que circula no WhatsApp não tem embasamento científico; Anvisa afirma que imunizantes são seguros e orienta aplicação em pessoas com mais de 12 anos

Samuel Lima

18 de novembro de 2021 | 18h52

Circula no WhatsApp um vídeo em que uma mulher sem identificação diz que observou a presença de fibrinas no sangue em um microscópio e alega que elas teriam sido liberadas pela vacina contra a covid-19. A mulher afirma que agora precisará de tratamento para o resto da vida, o que causou preocupação em usuários do aplicativo de mensagens. O relato, porém, é duvidoso e não tem respaldo científico. 

O Estadão Verifica recebeu o conteúdo de vários leitores pelo WhatsApp (11) 97683-7490 — clique para mandar mensagem. Consultamos um especialista e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para esclarecer o assunto.

Vacinas contra a covid-19 são seguras, segundo autoridades de saúde. Foto: Carl de Souza/AFP

Não há qualquer indício de que as vacinas “liberem fibrinas” na corrente sanguínea, como alega o vídeo. Além disso, a recomendação das autoridades de saúde do Brasil é que todos os brasileiros com mais de 12 anos procurem os postos de saúde e recebam a vacina indicada. Os imunizantes previnem a infecção e reduzem o risco de hospitalização e de morte por covid-19, independentemente da faixa etária.

As fibrinas nada mais são do que proteínas que atuam no processo de coagulação do sangue, produzidas naturalmente pelo corpo humano quando ocorre uma lesão. Têm função de formar uma espécie de malha para conter hemorragias, ou seja, para evitar a perda de sangue a partir do rompimento de um ou mais vasos sanguíneos. A reação ocorre em poucos segundos em pessoas saudáveis.

Essa rede de fibrina acaba retendo células do sangue, como plaquetas e hemácias, e interrompe o sangramento enquanto o tecido danificado se regenera. A estrutura formada nesse processo é chamada de coágulo. Apesar de fundamental para a sobrevivência do organismo, distúrbios na coagulação podem trazer riscos para a saúde — quando uma quantidade elevada de agrupamentos passa a obstruir a circulação, por exemplo.

Procurada pelo Estadão Verifica, a Anvisa encaminhou uma nota explicando o funcionamento da fibrina e sustentando que o relato carece de embasamento científico. “Com cerca de 260 milhões de doses já aplicadas no país, os dados apontam que as vacinas são seguras e superam todos os riscos relativos à contaminação do covid-19. Não há indicação de que a vacina provoque a liberação de fibrinas no organismo.”

Pedro Silvio Farsky, cardiologista do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo, afirmou que desconhece qualquer estudo que sustente a alegação do vídeo. O médico acrescenta que a visualização das fibrinas não é possível em microscópios comuns, por serem muito pequenas, o que traz dúvidas sobre a veracidade do relato.

Para isso, segundo ele, seria necessário o uso de equipamentos “extremamente sofisticados”, como microscópios eletrônicos de varredura. Estes são capazes de gerar imagens de alta definição, como a que aparece nesta reportagem da revista National Geographic. Ainda assim, seria preciso coletar uma amostra específica de sangue, pois as fibrinas têm uma ação restrita e não ficam circulantes por muito tempo, e contar com a análise de um profissional qualificado.

A autora do vídeo declara, de forma vaga, que participou de um suposto evento em Brasília, onde teria analisado o próprio sangue. Ela também declara ter se vacinado contra a covid-19, mas não informa quando, nem apresenta provas disso. Mesmo que a mulher realmente tenha observado fibrinas em seu sangue em um equipamento potente o suficiente, a alegação é insustentável. Não existe comprovação alguma de que a situação tenha sido causada pelo imunizante e não por uma outra condição no momento da coleta.

Vacinas são seguras e geram reações leves na maioria dos casos

As quatro vacinas contra a covid-19 aprovadas no Brasil — Comirnaty (Pfizer/BioNTech), Covishield (Oxford/Astrazeneca), Coronavac (Sinovac) e Janssen — passaram por testes rigorosos de segurança e eficácia e tiveram os dados referendados por órgãos de saúde de referência global, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), e pela Anvisa.

A maioria das pessoas imunizadas apresenta reações adversas de caráter leve a moderado, como dores no braço e sintomas semelhantes a uma gripe, em um intervalo de poucos dias após a aplicação das doses. Alguns possíveis efeitos colaterais excepcionalmente raros foram reportados a partir do uso das vacinas em larga escala, o que não difere de outros medicamentos.

Equipe itinerante do SUS aplica segunda dose contra covid-19 em moradora de São Paulo. Foto: Marcelo Chello/Estadão — 19/08/21

A partir do momento que um padrão de efeito adverso raro é constatado pelas autoridades de saúde, os laboratórios são orientados a modificarem o conteúdo das bulas. Para checar os documentos, basta acessar o site da Anvisa e as páginas dedicadas às quatro vacinas.

Não há evidências que os imunizantes aprovados no Brasil possam causar infarto ou mortes, como sugere a autora do vídeo viral. Cientistas, no entanto, levantaram a hipótese de que duas vacinas, a Oxford/Astrazeneca e a Janssen, que usam adenovírus na sua formulação, poderiam estar relacionadas com a incidência de eventos muito raros de síndrome de trombose com trombocitopenia (TTS), quadro caracterizado pela obstrução de vasos acompanhado de uma redução da quantidade de plaquetas no sangue.

Segundo uma nota técnica de outubro do Ministério da Saúde, que orienta o monitoramento da condição, os casos de TTS foram descritos em países europeus em um período de até 28 dias após a vacinação e numa ordem de 1 a 8 casos por milhão de indivíduos após a primeira dose — ou seja, em 0,0001% a 0,0008% do total de vacinas aplicadas na população. 

Em compensação, o risco de pacientes de covid-19 desenvolverem um quadro de trombose venosa cerebral é pelo menos de 14 vezes mais alto do que a população em geral, segundo documento publicado em agosto pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), braço da OMS no continente. Uma pesquisa preliminar da Universidade de Oxford estimou, em abril, que o Sars-Cov-2 gera um risco de 8 a 10 vezes maior do que as vacinas nessa mesma comparação.

O cardiologista Pedro Silvio Farsky afirma que pacientes de covid-19 comprovadamente podem apresentar complicações relacionadas com a formação de trombos. Estudos apontam risco de embolia pulmonar, acidente vascular cerebral e trombose venosa, por exemplo. Essas descobertas foram importantes para orientar a prática médica durante a pandemia e antecipar terapias por meio de exames como a dosagem de dímero D, um marcador de degradação da fibrina — e não microscopia. A boa notícia é que as vacinas ajudam a prevenir tudo isso.

Dados oficiais do Ministério da Saúde apontam para uma taxa de letalidade pela covid-19 no Brasil de 2,78%. Foram 611.851 mortes entre os mais de 21,9 milhões de casos até 11 de novembro de 2021. O índice de mortalidade é calculado em 291 a cada 100 mil habitantes.

O Fato ou Fake,Boatos.org e a Lupa desmentiram o mesmo boato.

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