Vacinados podem pegar covid-19? Saiba mais sobre caso de cirurgião que circula nas redes

Vacinados podem pegar covid-19? Saiba mais sobre caso de cirurgião que circula nas redes

Médico Ricardo Gomes de Lemos, que morreu no dia 3 de abril, tinha recebido duas doses da Coronavac; Butantan e especialistas afirmam que é necessário investigar causa do óbito

Samuel Lima e Alessandra Monnerat

07 de abril de 2021 | 11h32

A notícia da morte de um cirurgião tem sido compartilhada nas redes sociais e no WhatsApp com o objetivo de questionar a eficácia da vacina Coronavac. O médico Ricardo Gomes de Lemos morreu no dia 3 de abril. De acordo com a família, ele já havia recebido duas doses do imunizante, nos dias 28 de janeiro e 13 de fevereiro. O caso de Lemos, no entanto, ainda precisa de investigação e não significa que a vacina seja ineficaz ou insegura. 

O Hospital Albert Einstein, onde Lemos estava internado, não confirmou se a causa da morte foi por covid-19. Em nota distribuída para a imprensa, a família do cirurgião também não comentou esse ponto, mas o cunhado postou uma mensagem no Facebook dizendo que o médico “perdeu a luta para essa terrível covid”. Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde não quis repassar informações sobre o caso. 

O Instituto Butantan, que fabrica a Coronavac no Brasil, comunicou que “é prematura e temerária qualquer afirmação sobre óbitos de pessoas vacinadas contra covid-19”. A instituição informou que é necessária uma investigação epidemiológica sobre a causa da morte, que deve levar em conta o “conjunto de aspectos clínicos, como comorbidades e outros fatores não relacionados à vacinação”.

O pesquisador Gustavo Cabral de Miranda, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP) e da Fapesp, também afirma que não é possível tirar conclusões sobre a eficácia da vacina a partir de apenas um caso. “Já vacinamos milhões de pessoas no mundo e no Brasil, então nós temos a confiança, com base em dados, que as vacinas têm salvado vidas”, disse o especialista. “É preciso investigar individualmente casos extremamente isolados”.

Instituto Butantan é um dos responsáveis pelo desenvolvimento da Coronavac Foto: Amanda Perobelli/ Reuters

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) divulgou nota em que pede cautela ao compartilhar casos de pessoas que foram infectadas com o novo coronavírus mesmo após a vacinação. “Em diversas situações, o intervalo entre o início dos sintomas e a aplicação da vacina não foi suficiente para a esperada resposta de anticorpos desencadeada pela vacinação. Ou seja, não houve tempo para impedir a infecção”, afirmou. “Além disso, falhas vacinais acontecem com qualquer vacina: nenhuma tem 100% de eficácia”.

O Butantan reafirmou a segurança da Coronavac, testada em mais de 12,5 mil voluntários, e lembrou que o objetivo do produto é “prevenir o agravamento de infecções pelo novo coronavírus”. “A resposta imune (proteção) requer a aplicação de duas doses no intervalo previsto em bula (de 14 a 28 dias) e não representa uma ‘barreira’ para a infecção”, afirmou o instituto. “É, portanto, essencial manter os protocolos não farmacológicos de prevenção, como distanciamento social, uso de máscaras e higienização”.

O Hospital Albert Einstein não indicou em que data o médico foi hospitalizado, nem se apresentou os primeiros sintomas mais de duas semanas após receber a segunda dose. A família também não divulgou essas informações. 

De acordo com o Butantan, “algumas pessoas podem ainda desenvolver a doença mesmo tendo sido vacinadas, mas isso é exceção à regra”. Nos dados apresentados à Anvisa sobre os testes com a Coronavac, a instituição mostrou que nenhum dos 6.110 vacinados tinha desenvolvido a forma mais grave da covid-19 — ocorre que apenas um dos 6.128 voluntários no grupo de controle (que recebeu o placebo, substância sem efeito) teve complicações que precisaram de hospitalização na UTI. Por isso, o dado de que a vacina evitaria 100% dos casos muito graves é estatisticamente insignificante.

Documento

“O que eles tinham é que, em casos documentados até aquele momento, ninguém chegou a desenvolver casos graves que tenham levado à morte”, explica Miranda. “E o primeiro objetivo, na verdade, de todas as vacinas é esse, evitar casos graves que venham a causar fatalidades”.

Em relação à prevenção de casos moderados (que precisam de hospitalização) e leves (necessitam de assistência médica), a vacina se mostrou 78% eficaz. Nenhum dos voluntários dos estudos com a Coronavac morreu ou teve reação alérgica grave. Até o momento, não há qualquer registro de mortes causadas pelo imunizante.

Vacinas continuam a ser monitoradas, mesmo após a aprovação pela Anvisa. É a chamada fase 4, de farmacovigilância. De acordo com a SBIm, é preciso aguardar dados mais robustos para tirar conclusões sobre possíveis falhas vacinais. “Todas as notificações estão sendo acompanhadas e investigadas pela Vigilância. Precisamos aguardar a publicação dos dados da avaliação da efetividade das vacinas na vida real (fase 4) e sobre possíveis falhas vacinais”, informou a instituição em nota.

Em reportagem recente, o jornal O Globo explicou por que algumas pessoas podem desenvolver a doença mesmo depois da vacinação. Especialistas comentam que, no momento da infecção, os indivíduos podem ainda não ter gerado uma resposta imune suficiente, que é esperada dentro de duas a três semanas após a aplicação da segunda dose. Destacam ainda que a incidência de casos graves excepcionais na população imunizada não significa que as pessoas devam deixar de tomar as vacinas, mas reforça a necessidade de cuidados, principalmente em grupos mais expostos, enquanto a circulação do vírus no País continua alta.

O pesquisador do ICB/USP Gustavo Cabral de Miranda afirma que manter as medidas individuais de proteção, como distanciamento social e uso de máscara, também é importante para evitar que o vírus seja transmitido para outras pessoas que ainda não receberam a vacina. “Se você pegar esse vírus, a vacina faz com que ele não desenvolva muito no corpo, não alcance uma carga viral alta, mas pode ser que você acabe transmitindo para outras pessoas suscetíveis. E isso pode causar a morte do outro, por falta de responsabilidade em continuar se cuidando”.

Pouco mais de um mês após o início da vacinação de grupos prioritários, em janeiro, a internação de idosos acima de 90 anos caiu 20%. O grupo de brasileiros com 60 anos ou mais teve redução de 2,7% nas hospitalizações. Os números levantados pelo Estadão em 14 de março apontam um possível impacto positivo da vacinação no País.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.