Um ano após a morte de Marielle Franco, boatos sobre a vereadora persistem
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Um ano após a morte de Marielle Franco, boatos sobre a vereadora persistem

Psolista já foi associada a traficantes, organizações criminosas e corrupção; confira as mentiras disseminadas

Alessandra Monnerat e Caio Sartori

14 de março de 2019 | 16h33

Apesar de ter transcorrido um ano desde o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, alegações falsas sobre ela continuam a circular. Algumas das pesquisas mais realizadas por usuários em ferramentas de busca, mapeadas nas ferramentas Google Trends e Answer The Public, estão relacionadas a boatos disseminados sobre o caso Marielle e mostram que ainda há curiosidade sobre quem é Marielle de verdade. Veja abaixo quais são as informações verdadeiras sobre a vereadora.

Vereadora Marielle Franco foi assassinada em 14 de março, no centro do Rio Foto: Mário Vasconcellos/CMRJ

Marielle Franco é filha de Fernandinho Beira-Mar?

Não. Marielle não tinha nenhuma relação conhecida com o traficante Fernandinho Beira-Mar. O pai da vereadora assassinada chama-se Antônio Francisco da Silva Neto. Recentemente, a família participou de uma homenagem no desfile da escola de samba Unidos de Vila Isabel à memória de Marielle.

Segundo o site Boatos.Org, a informação falsa sobre Marielle foi espalhada com uma foto da filha de verdade de Fernandinho Beira-Mar, Fernanda Izabel Costa, vereadora em Duque de Caxias.

Marielle Franco é namorada de Marcinho VP?

Outro boato também tentava ligar Marielle a um dos traficantes que usam o codinome Marcinho VP. Trata-se de mais uma mentira. Como checou o site Aos Fatos à época, não há nenhum ponto de contato entre a vereadora morta e os dois criminosos que utilizavam a alcunha de Marcinho — um deles, personagem do livro ‘Abusado’, do jornalista Caco Barcellos, morreu na prisão em 2003, e o segundo está preso em Maceió há mais de 20 anos. A desinformação utilizava ainda uma foto não relacionada, feita em 2005.

O mesmo boato afirmava ainda que Marielle tinha engravidado ao 16 anos. Na data de sua morte, a vereadora tinha 38 anos e sua filha, Luyara Santos, tinha 19. Portanto, ela ficou grávida entre 18 e 19 anos.

A informação falsa viralizou de tal forma que até a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a compartilhou. Na época, foi aberto um procedimento para analisar a conduta da magistrada.

A vereadora foi companheira da arquiteta Mônica Tereza Benício por 12 anos. Nesta quarta-feira, quando se completa um ano do assassinato, a viúva de Marielle postou uma foto das duas no Instagram com a legenda “não teve uma noite sequer que eu não tenha sentido sua falta”.

Marielle foi eleita pelo Comando Vermelho?

Mais uma desinformação que tentava relacionar Marielle ao tráfico. Como explicou checagem publicada pelo portal UOL na época da morte da vereadora, a psolista foi eleita principalmente com votos de bairros da zona sul, área mais nobre do Rio de Janeiro, especialmente em Leblon, Gávea, Copacabana, Ipanema e Lagoa. Nesses territórios, não há domínio do Comando Vermelho.

Na Maré e em seus arredores, onde Marielle se criou, ela recebeu apenas 1,6 mil de seus mais de 46,5 mil votos. Nas regiões da favela onde a vereadora tinha raízes mais fortes, também não havia domínio do CV, segundo o UOL.

O financiamento da campanha de Marielle Franco para a Câmara dos Vereadores do Rio  está detalhado no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e também não aponta para relações com o tráfico. Do total de R$ 92,1 mil arrecadados, 23% veio da Direção Municipal e Estadual do PSOL, 8% de doação da campanha à Prefeitura de Marcelo Freixo e 3% de recursos próprios. Outras 48 pessoas físicas fizeram doações, mas nenhuma respondia a processos criminais, segundo o UOL.  

Marielle Franco era contra policiais militares?

Não. Como mostrou reportagem do portal G1 de março do ano passado, a vereadora atendia policiais militares vítimas de violência quando trabalhava na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Lotada no gabinete do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), Marielle passou 10 anos oferecendo auxílio jurídico e psicológico a famílias de policiais vitimados.

Manifestante segura cartaz de Marielle em protesto na Maré Foto: WILTON JUNIOR / ESTADÃO

“Só para você ter uma ideia, a Marielle não tinha carro nessa época. Nem era vereadora. Chegou de trem. Não posso falar hoje que essa pessoa não me ajudou. Quem é que vai até Duque de Caxias, uma outra cidade, de trem só para ajudar? Só a Marielle”, contou Rose Vieira, mãe de um policial assassinado, ao G1.

Apesar disso, a psolista denunciava a violência policial em suas redes sociais. “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, publicou o perfil de Marielle no Twitter, um dia antes de ela ser executada.

Marielle Franco queria desarmar policiais?

O partido de Marielle, o PSOL, defende a desmilitarização da PM. Isso não implica, no entanto, no desarmamento dos agentes de segurança pública. As principais críticas da legenda estão voltadas à estrutura organizacional da instituição, com hierarquia similar à do Exército.

Em sua atuação na Câmara dos Vereadores do Rio, Marielle defendeu a derrubada de um projeto de lei que pretendia armar a Guarda Municipal, que não tem relação com a Polícia Militar, de âmbito estadual. “O debate da segurança pública não se resolve com mais armamento. Esse modelo de uma segurança pública que não é preventiva e não é de inteligência não nos atende”, disse ela ao jornal ‘O Dia’ na abertura do ano legislativo de 2017. O projeto não foi aprovado.

Marielle Franco era corrupta?

Outra pergunta recorrente nos sites de busca questiona se Marielle já havia se envolvido com corrupção. Não há nenhum registro ou indício que aponte para isso. A primeira campanha da vereadora foi justamente a de 2016 — e não houve nenhuma irregularidade constatada nela.

Marielle virou nome de rua na Alemanha?

O nome de Marielle foi colocado com um adesivo em uma placa de rua em Colônia, na Alemanha, em dezembro do ano passado. A manifestação é parecida com a ocorrida no Rio em outubro de 2018, quando foram distribuídas placas com o nome da vereadora assassinada. O ato foi em repúdio à atitude de então candidatos do PSL, incluindo o atual governador do Rio, Wilson Witzel, que quebraram uma homenagem a Marielle durante a campanha eleitoral.

Mil placas em homenagem a Marielle foram distribuídas no Rio de Janeiro. Foto: Fabio Motta/Estadão