Ponte sobre canal do São Francisco mostrada em vídeo foi entregue por Temer, não Bolsonaro

Ponte sobre canal do São Francisco mostrada em vídeo foi entregue por Temer, não Bolsonaro

Gravação que viralizou nas redes sociais mostra desvio da BR-232 em Pernambuco feito durante obras do Eixo Leste da transposição

Clarissa Pacheco e Samuel Lima

04 de janeiro de 2022 | 20h57

Um vídeo com afirmações falsas a respeito de um trecho de obra da Transposição do Rio São Francisco, no Nordeste do Brasil, circula pela internet e acumula mais de 150 mil interações somente no Facebook. Na gravação de menos de um minuto, um homem desce de um carro e afirma que, num determinado ponto, passava uma rodovia “na era do PT”, mas que agora a pista segue sobre uma ponte que cruza o canal de transposição. Ele atribui a obra ao atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), mas o trecho foi entregue, na verdade, por Michel Temer (MDB), em 2017.

O homem não se identifica e não diz em que local gravou as imagens, mas é possível ver que ele está de pé sobre uma pista asfaltada que é interrompida pelo canal de Transposição do Rio São Francisco. Do ponto onde faz as imagens, é visível uma ponte que passa por cima do canal e por onde transitam carros. “O PT vinha só tomando voto dos pobres dos nordestinos, levando na conversa e na balela a fim de angariar votos, e só iludia, só enganava. Aí o meu presidente genocida veio e fez”, diz o homem, apontando para um trecho do canal da transposição.

Nos comentários, uma pessoa afirma que a obra fica na BR-232, em Sertânia. O Estadão Verifica, então, buscou informações e contatos com sites locais de notícia, que levaram até um engenheiro que participou das obras do Eixo Leste.

Vídeo foi feito em Sertânia (PE)

O trecho em questão fica no povoado de Barra do Rio, no município de Sertânia, em Pernambuco, às margens da BR-232. O Estadão Verifica entrou em contato com o engenheiro Paulo Henrique Carvalho, que trabalhou como coordenador da Supervisão do Eixo Leste – onde fica a ponte – e ele informou a localização exata de onde o vídeo foi feito e a data da entrega do trecho.

“Esse trecho que ele está falando foi inaugurado ainda por Temer”, explica Paulo Henrique. “Todo o Eixo Leste da Transposição foi inaugurado por Temer. Esse trecho é na BR-232, na ponte do Rio da Barra. Nós fizemos esse desvio na época para executar a ponte sobre o canal. Tem o traçado da BR e nós fizemos o desvio para poder escavar e fazer essa ponte”.

Ele acrescenta que o Eixo Leste da Transposição, que foi inaugurado primeiro, parte de Petrolândia (PE) e vai até Monteiro (PB). “Então, quem colocou água na Paraíba, quem inaugurou o Eixo Leste da Transposição, foi Michel Temer”, diz.

O governo Bolsonaro também fez uma inauguração em Sertânia, mas não no mesmo local onde o homem mostra as imagens. Em outubro de 2021, Bolsonaro inaugurou o chamado Ramal do Agreste.

Estadão Verifica procurou o Ministério do Desenvolvimento Regional para obter mais informações sobre o trecho mostrado no vídeo que viralizou, mas não conseguiu resposta.

Responsabilidade inflada

Essa não é a primeira vez que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro compartilham conteúdos inflando a responsabilidade do atual chefe do Executivo nas obras da transposição do Rio São Francisco. Em junho do ano passado, por exemplo, o Projeto Comprova desmentiu um conteúdo que afirmava, enganosamente, que só havia “areia” nos 13 anos de governo do PT e que a situação mudou em apenas dois anos de governo Bolsonaro.

Na realidade, o atual presidente assumiu o mandato com pelo menos de 90% das obras concluídas por administrações anteriores. A obra ocorre desde o segundo mandato de Lula (PT) e atravessou os governos Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), seguindo na gestão Bolsonaro. Michel Temer, em 2017, inaugurou o começo do Eixo Leste. Em 2020, Bolsonaro deu início ao funcionamento de uma parte do Eixo Norte.

A previsão, quando a transposição foi iniciada, em 2007, era de que o empreendimento ficaria pronto até 2012, mas o processo tem sido marcado por aditivos e atrasos, bem como diversos problemas de planejamento, verba e execução. Com custo inicial de R$ 4,5 bilhões, a obra já está orçada em R$ 12 bilhões, e a previsão mais recente era de execução completa somente em 2024, em razão de “obras e serviços auxiliares e complementares”.

Dividida em dois eixos (Leste e Norte), a transposição capta água no Rio São Francisco – um dos mais importantes do Brasil – e a transporta por meio de túneis, adutoras, estações de bombeamento e barragens para bacias hidrográficas do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte.

Assim, ao interligar açudes estratégicos ao São Francisco – que nasce em Minas Gerais e passa por Bahia, Pernambuco, Sergipe e termina em Alagoas – conseguiria garantir segurança hídrica às regiões que sofrem historicamente com a escassez e a irregularidade das chuvas.

No Eixo Norte, com 260 km de extensão, o empreendimento tem início em Cabrobó (PE) e passa por Salgueiro, Terranova, Verdejante (PE), Penaforte, Jati, Brejo Santo, Mauriti, Barro (CE), São José de Piranhas, Monte Horebe e Cajazeiras (PB). Já o Eixo Leste, com 217 km, atravessa as cidades de Floresta, Custódia, Betânia, Sertânia (PE) e Monteiro (PB).

Ao Comprova, o governo federal destacou que, desde 2019, foram investidos cerca de R$ 2,5 bilhões em obras, ações, operação e manutenção dos eixos norte e leste da transposição do Rio São Francisco, e no Ramal do Agreste, uma obra complementar que levará as águas do Velho Chico ao interior de Pernambuco. Também foi aberta uma licitação para a construção do Ramal do Apodi/Salgado.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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