Texto distorce dados de pesquisas para questionar eficácia da Coronavac
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Texto distorce dados de pesquisas para questionar eficácia da Coronavac

Não há embasamento médico ou jurídico para recomendar que vacinados com a Coronavac entrem na Justiça para receber doses de outros imunizantes

Ana Carolina Santos

17 de junho de 2021 | 16h49

Um texto que circula no WhatsApp distorce dados de estudos para questionar a eficácia da Coronavac, vacina contra a covid-19 produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. A postagem de um blog afirma que a eficiência do imunizante varia entre 3% e 50% para pessoas de 70 a 80 anos e que isso deve motivar processos judiciais. Esses números, no entanto, estão errados: a efetividade da vacina após duas doses pode variar de 28% a 61,8% nessa faixa etária, de acordo com um estudo preliminar.

O texto enganoso sugere que vacinados com a Coronavac procurem receber doses de outros imunizantes, e entrem com ações na Justiça para exigir a revacinação. Especialistas consultados pelo Estadão Verifica, no entanto, afirmam que não existe nenhum embasamento médico ou jurídico para fazer essa recomendação. Importante ressaltar que a vacina foi aprovada para uso emergencial pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em análises que atestaram sua qualidade, segurança e eficácia.

Veja abaixo a checagem do Estadão Verifica. O conteúdo verificado foi enviado por leitores por WhatsApp, 11 97683-7490.

Blog distorce dados sobre eficácia da Coronavac

Quais os números de efetividade da Coronavac?

O autor do texto analisado não deixa claro, mas alguns dos números citados são de uma pesquisa feita pelo grupo Vebra Covid-19, que reúne cientistas brasileiros e estrangeiros. O estudo preliminar (ainda não revisado por pares) concluiu que a efetividade da Coronavac varia de 61,8% a 28% a partir dos 70 anos. A média no grupo de idosos avaliados ficou em 41,6% depois de 14 dias da 2ª dose. Entre as pessoas que têm mais de 80 anos, a efetividade encontrada foi de 28% depois da aplicação da 2ª dose. Nos que têm de 75 a 79 anos, essa taxa foi de 48,9%, e na faixa etária de 70 a 74, 61,8%.

A efetividade é diferente da eficácia. Como o Estadão já explicou, a efetividade é medida na “vida real”, o desempenho do imunizante usado em massa na população em geral. Eficácia se refere à taxa encontrada em estudos clínicos, entre os voluntários da pesquisa. Nesse caso, a eficácia geral da Coronavac é de 50,7%. Esse índice pode chegar a 62% se o intervalo entre a primeira e a segunda dose for igual ou superior a 21 dias.

Os dados da pesquisa Vebra abriram um debate sobre a revacinação de idosos, com uma dose de reforço da Coronavac. Esse debate, no entanto, ainda está em aberto, e não há definição oficial do Ministério da Saúde sobre o assunto. Diferentemente do que afirma o texto analisado aqui, não existe discussão sobre vacinação com doses de outras vacinas, nem sobre judicialização da questão.

O infectologista Julio Croda, que faz parte do grupo Vebra Covid-19, advoga pela revacinação: “O que a gente está pensando neste momento é revacinar para prevenir ainda mais o adoecimento nesse grupo acima de 80 anos, que é o que tem o maior risco e é uma parcela pequena da população”, afirmou ele em recente entrevista ao Estadão.

O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou em declaração enviada ao Estadão Verifica que “neste momento não existe necessidade de se preocupar com uma terceira dose”. “Todos os estudos que o Butantan tem feito, e são muitos, aqui no Brasil, na cidade de São Paulo, no município Serrana, no estado do Ceará e também no Chile, mostram que essa vacina tem uma alta eficiência, ou seja, ela é capaz de proteger contra os sintomas da doença, contra as internações e contra os óbitos”, disse ele.

A cidade de Serrana, no interior paulista, diminuiu em 95% o número de óbitos por covid-19 após vacinação em massa com a Coronavac. Segundo resultados preliminares divulgados pelo Butantan, o número de casos sintomáticos caiu 80% e as internações foram reduzidas em cerca de 86%, enquanto 15 cidades vizinhas registravam alta no número de infectados.

Outro estudo preliminar, feito pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e pelo Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), chegou à conclusão de que a aplicação de vacinas contra a covid-19 pode aumentar a proteção contra mortes e internações em quase 100% para idosos acima de 90 anos. O levantamento mostra que tanto a Coronavac como a AstraZeneca proporcionaram um índice de segurança próximo a 90% para aqueles entre 75 e 79 anos, de cerca de 95% naqueles entre 80 a 89 anos e de quase 100% para idosos acima de 90 anos.

O texto checado aqui afirma ainda que a eficiência da Coronavac pode ser de 3%. Esse número é de um estudo diferente, feito pela Universidade do Chile, e se refere à efetividade após a primeira dose. A taxa aumenta para 56,6% duas semanas após a segunda dose. A maioria das vacinas contra covid-19 aplicadas no Brasil precisam de duas doses para oferecer a proteção completa.

Em entrevista ao Estadão, o infectologista da Universidad de Chile e integrante do comitê de vacinas do Ministério da Ciência e Tecnologia Miguel O’ Ryan explica que já é possível ver um efeito da vacinação no Chile. “Primeiro vimos uma diminuição no número de pacientes na UTI com mais de 70 anos, depois entre 60 e 70, e agora já observamos uma redução na internação de pacientes entre 50 e 60 anos”, relatou.

Apesar da vacinação acelerada, o país andino tem passado por um aumento no número de casos de covid-19. Os especialistas ainda não têm respostas certeiras para essa alta. Um dos fatores que pode ter contribuído para a alta foi o excesso de confiança na rapidez da campanha de imunização, o que teria causado um relaxamento nas medidas de proteção. A circulação de novas variantes também é apontada como agravante. De acordo com o biólogo e colunista do Estadão Fernando Reinach, possíveis explicações incluem diferenças climáticas, novas cepas e o relaxamento prematuro do distanciamento social.

O infectologista Edimilson Migowski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz coro à opinião de Reinach: “As pessoas que tomam as duas doses passam a se considerar protegidas e negligenciam a gravidade da doença. Passam a sair de casa com mais frequência e relaxam nos cuidados. Se têm sintomas, negligenciam a possibilidade de ser covid por estarem imunizadas.”

É seguro ou recomendado misturar doses de vacinas diferentes?

Ao questionar a efetividade da Coronavac, o texto aconselha que as pessoas que já se vacinaram procurem doses de outros imunizantes. O autor afirma que “cientificamente já há comprovação de que doses de outros laboratórios podem ser aplicadas em indivíduos que recentemente tomaram a vacina do Butantan” — mas isso não é verdade, de acordo com Migowski. “Não há consenso na comunidade científica sobre mescla de doses de diferentes laboratórios”, afirmou.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não recomenda que pessoas imunizadas com a Coronavac busquem vacinas de outros laboratórios. “Não existe esta orientação e não existem ainda estudos de intercambialidades entre estas vacinas, ou seja, estudos que demonstrem que uma vacina pode ser combinada com outra de forma eficaz e segura”, informou o órgão em nota

No texto verificado, há uma sugestão para que as pessoas que foram imunizadas com a Coronavac entrem na Justiça para “garantir uma nova aplicação de vacinas de outros laboratórios”. Como já foi mencionado, não existe recomendação para “mistura” de vacinas. Além disso, o professor titular Fernando Aith, de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e da pós-graduação da Faculdade de Direito, afirma que não há fundamento jurídico para exigir doses de outro imunizante.

“Seria uma lide temerária [termo jurídico que designa uma ação proposta de maneira ilegal ou ilícita, a fim de obter vantagem], porque sem fundamento jurídico e fático nenhum”, assinala Aith. “E há grande probabilidade de o cidadão perder essa ação e ainda ter que pagar com custas processuais. Parece-me uma irresponsabilidade esse tipo de difusão. Não tem fundamento nem jurídico, nem técnico”.

O que diz o autor do texto

O texto analisado aqui foi publicado pelo blog de Diego Emir. Procurado, o autor do texto disse que teve como fonte o médico e deputado estadual do Maranhão Yglesio Moyses (PROS), que defende a revacinação de pessoas imunizadas com a Coronavac. Sobre a mescla de vacinas de diferentes laboratórios, o autor usou como base um estudo espanhol que descobriu que administrar uma dose do imunizante da Pfizer em pessoas que receberam a primeira dose da AstraZeneca é “seguro e eficaz”. Não há estudos sobre mescla com doses da Coronavac.

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