Texto com informações incompletas sobre lockdown de Araraquara é usado para atacar restrição de circulação
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Texto com informações incompletas sobre lockdown de Araraquara é usado para atacar restrição de circulação

Cidade paulista reduziu casos e óbitos após adotar fechamento total em fevereiro; alta na quantidade de pacientes em UTI reflete fluxo da rede e maior capacidade de atendimento hospitalar

Samuel Lima, especial para o Estadão

08 de abril de 2021 | 12h34

Atualizada no dia 13 de abril para incluir resposta do site checado.

Um texto publicado pelo site “Oeste” tem sido usado para desacreditar medidas que restringem a circulação de pessoas como forma de evitar o colapso do atendimento à saúde durante a pandemia. A publicação, com informações incompletas e sem contexto, afirma que o número de pacientes internados em leitos de UTI com covid-19 aumentou em Araraquara (SP) “após um mês de lockdown”. O texto leva a interpretações errôneas e alimenta a falsa narrativa de que promover confinamentos é inútil na contenção da pandemia.

Em primeiro lugar, Araraquara não teve um mês de lockdown, como o título sugere, mas dez dias. Em segundo lugar, o que mais aumentou foi a chegada de pacientes de outras cidades, e não o número de moradores da cidade internados em UTI. Ao falar dessa evolução, o texto omite que, antes do lockdown, a cidade tinha fila de espera para UTI e precisou transferir pacientes para outras localidades. Foram omitidos ainda outros indicadores que mostram impacto positivo da medida restritiva.

Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Araraquara mostram que a cidade reduziu em 57,5% o número de casos um mês depois da adoção do bloqueio total, que ocorreu entre os dias 21 de fevereiro e 2 de março. O Estadão Verifica compilou os dados abaixo a partir dos boletins epidemiológicos diários divulgados pela prefeitura.

Na semana que antecedeu o confinamento, foram registrados 1.327 novos casos de covid-19 em Araraquara. Um mês depois, esse número caiu para 564, recuando 57,5%. E a tendência de queda se manteve até o momento, com 438 e 398 testes positivos nas duas semanas seguintes, respectivamente.

A tabela de óbitos pela covid-19 segue uma trajetória semelhante, mas com um atraso de cerca de duas semanas em relação a de casos. Esse período coincide com o tempo médio de internação até a morte em São Paulo, que fica entre 10 e 14 dias, segundo levantamento recente da Secretaria de Saúde do Estado, e também com o período médio de incubação do vírus.

Antes da adoção do lockdown, o número de vítimas da doença em Araraquara era de 25 por semana. O índice cresceu nas duas semanas seguintes e alcançou o ponto máximo no início de março, com 41 mortes em sete dias, mas despencou na sequência. 

Ao completar um mês depois do fechamento, a cidade já havia reduzido em 39% o número de mortes em relação ao pico e igualado a semana pré-confinamento. Os registros caem depois para 16 e 10 óbitos a cada sete dias.

Número de internados em Araraquara

Os boletins oficiais confirmam que o número de internados em UTI na cidade de Araraquara subiu no intervalo de um mês, de 63 para 86 pacientes, como alega a peça que circula nas redes. Esse dado, no entanto, não mostra que o lockdown deu errado, porque o número não está diretamente relacionado com o nível de contágio na cidade.

Prefeitura de Araraquara adotou lockdown total para tentar conter avanço da covid Foto: Everton Sylvestre/Estadão

 

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Araraquara explicou que essa alta é causada pela entrada de mais pacientes de fora do município a partir do momento que a cidade reduziu a demanda interna e ampliou a oferta de vagas. Além disso, os posts ignoram o fato de que a cidade tinha fila de espera por UTI em fevereiro e teve inclusive de encaminhar pacientes em estado grave para outros municípios.

“Em fevereiro, no auge da crise, cerca de 10 a 15 pessoas, em média, ficavam diariamente e simultaneamente no aguardo de vagas de UTI e enfermaria SUS na UPA da Vila Xavier”, respondeu a Secretaria Municipal de Saúde em nota, fazendo referência ao polo de atendimento para covid-19 no município. “Muitos pacientes de Araraquara, na época, foram transferidos para outras cidades da região, em virtude da lotação de 100% da UTI e 100% das enfermarias nos hospitais públicos e privados. Há cerca de 30 dias não temos mais essa espera.”

O gráfico abaixo mostra que Araraquara conseguiu desafogar a rede de saúde ao ampliar o número de leitos em cuidados intensivos de 64 para 97 naquele intervalo de um mês, mas a menor procura na cidade também colaborou para o fato. Ao zerar a fila de espera, a cidade passou a atender mais pacientes de fora do município, o que fez a taxa de ocupação continuar alta.

Em 21 de fevereiro, quando o lockdown foi adotado, a cidade tinha 21 pacientes transferidos de outros municípios. Esse número chegou a 37 no mês seguinte, o que significa dizer que o grupo cresceu proporcionalmente de 33% para 43%. Em 7 de abril, dos 81 doentes em tratamento intensivo na cidade, 52 foram transferidos de outras localidades, o equivalente a 64%. 

Mesmo quando analisados hoje, os dados sobre os pacientes internados em UTI mostram que o número está acima do que naquela época (81 contra 63), mas a quantidade de pacientes exclusivamente de Araraquara reduziu de 42 para 29. A queda de 31% é ainda mais drástica considerando que nem todas as pessoas que precisavam de leitos em fevereiro eram contempladas.

Além de publicar dados incompletos sobre pacientes internados em UTI, o texto publicado pela “Oeste” omite ainda que a quantidade total de pessoas internadas em Araraquara, somada com os leitos de enfermaria, diminuiu um mês depois da adoção do lockdown. Em 21 de fevereiro, a cidade tinha 218 pacientes, enquanto em 21 de março o número era de 172. Em 7 de abril, estava em 104.

O movimento de maior entrada de pacientes de fora da cidade também ocorre nos leitos de enfermaria, como pode ser observado em um mapa interativo criado por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com a vigilância sanitária do município.

A prefeitura de Araraquara também entende que a presença da variante P.1., identificada pela primeira vez em Manaus (AM), está elevando o tempo médio de internação na rede hospitalar. As autoridades municipais acreditam que a nova cepa do coronavírus aumenta o risco de evolução dos pacientes para quadros graves na região, ao mesmo tempo em que amplia o período de atendimento.

Outros indicadores do sistema de saúde

Os boletins epidemiológicos de Araraquara trazem outros dados positivos que sinalizam a desaceleração do contágio na cidade paulista. O número de pessoas com covid-19 cumprindo quarentena domiciliar, por exemplo, passou de 1.512, na data de início do confinamento, para 490, em 21 de março, um mês após o bloqueio. O documento mais recente informa 411 casos ativos, em 7 de abril.

As informações publicadas pelos pesquisadores da UFSCar mostram ainda que a ocupação dos leitos de UTI na cidade vem oscilando em torno de 90%, enquanto as vagas para enfermaria ficam em cerca de 70%. Entre 6 de fevereiro e 2 de março, apenas em um dia a cidade não teve lotação máxima em alguma dessas modalidades de internação. 

Em 17 de março, o Observatório Covid-19 da Fiocruz apontou o município de Araraquara como “um dos exemplos atuais de como medidas de restrição de atividades não essenciais evitam o colapso ou o prolongamento da situação crítica nos serviços e sistemas de saúde”. A instituição de pesquisa classificou a ação como bem sucedida a partir de dados preliminares de redução da média móvel de novos casos no município já naquele momento.

Lockdown durou 10 dias, e não o mês todo

A Secretaria de Saúde de Araraquara informou que a cidade ficou 10 dias em bloqueio total, e não o mês inteiro, como sugere o título do texto em circulação nas redes sociais. A medida incluiu a paralisação até de supermercados e postos de gasolina, a suspensão do transporte público e a montagem de barreiras nas ruas para evitar que as pessoas saíssem de casa sem motivo. “Desses 10 dias, seis foram com os mercados e similares sem atendimento presencial (atendendo apenas por delivery)”, acrescentou a secretaria. O prefeito Edinho Silva (PT) relatou ter recebido ameaças de morte pela decisão.

Após o período, a cidade voltou a seguir a fase emergencial do Plano SP. Os estabelecimentos não essenciais estão fechados desde 8 de fevereiro, quando a região foi colocada na fase vermelha. A Associação Comercial e Industrial de Araraquara conseguiu uma liminar que permitia a volta do atendimento presencial em 26 de março, mas a decisão foi derrubada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo no dia seguinte. A prefeitura havia recorrido da primeira decisão.

Uma reportagem recente do Estadão mostra que Araraquara foi o primeiro município paulista com mais de 100 mil habitantes a proibir a circulação de veículos e pessoas ao longo do dia, a não ser em casos excepcionais, e virou exemplo para cidades que também chegaram ao colapso no sistema de saúde. “Sabíamos que a medida daria resultado, mas não esperávamos que viesse tão rápido, além da nossa expectativa. Estamos vivendo situação bem mais tranquila”, afirmou a secretária municipal de Saúde, Eliana Honain. A reportagem apresenta um comparativo entre a média móvel de casos e óbitos de Araraquara com o Brasil e o Estado de São Paulo.

Outro lado

Entramos em contato com a revista online “Oeste” por e-mail na terça-feira, 6. No dia 13, o site publicou um texto em que disse ter sido “vítima de fake news da agência de checagem” e afirmou que “o objetivo da reportagem de Oeste era tratar unicamente das internações em leitos de UTI”. O Estadão Verifica mantém a conclusão desta checagem.

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