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Texto atribuído a ‘Centro de Epidemiologia de Milão’ divulga dados imprecisos sobre covid-19

Corrente no WhatsApp traz informações incorretas sobre o medicamento remdesivir e o uso de esteroides em pacientes com coronavírus

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

24 de novembro de 2020 | 16h23

Circula no WhatsApp uma mensagem falsamente atribuída a um “Centro de Epidemiologia de Milão”, que dissemina afirmações exageradas e imprecisas a respeito de tratamentos e sintomas da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. A checagem desse conteúdo foi sugerida por uma leitora pelo WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 97683-7490.

Diferente do que é informado no texto, a mensagem não foi elaborada por um centro de pesquisas italiano. A mensagem afirma que há “uma probabilidade maior de sobrevivência para aqueles que serão infectados (com a covid-19) nove meses depois, como em novembro de 2020”, em comparação com os que contraíram a doença em fevereiro. Uma pesquisa do Estadão Verifica encontrou versões antigas da corrente com a mesma sentença e estrutura textual, mas com o número de meses distintos. 

A mesma mensagem foi verificada pela agência de checagem de fatos espanhola Maldita.es e pelo site Boatos.org. Para esclarecer a precisão das afirmações da mensagem, a reportagem entrevistou a professora do departamento de Farmácia e Análises Clínicas da Universidade de Brasília (UnB) Fabiana Brandão. 

Veja a checagem de trechos da mensagem:

“O COVID-19 foi inicialmente pensado como causador de mortes por pneumonia – uma infecção pulmonar – e assim os ventiladores foram considerados a melhor maneira de tratar pacientes doentes que não podiam respirar. Agora sabemos que o vírus causa coágulos sanguíneos nos vasos sanguíneos dos pulmões e outras partes do corpo, o que provoca oxigenação reduzida. Agora sabemos que simplesmente fornecer oxigênio por meio de ventiladores não vai ajudar, mas temos que prevenir e dissolver micro coágulos nos pulmões.”

É verdade que a covid-19 pode desregular a atividade de coagulação do organismo e provocar deficiências na oxigenação do corpo. Uma série de estudos, incluindo iniciativas brasileiras, mostram a ocorrência de formação de microcoágulos nos vasos sanguíneos dos pulmões e de outros tecidos de pacientes em estado grave. 

Não é possível afirmar, no entanto, que a insuficiência respiratória causada por tromboses seja a única ou principal causa de mortes por covid-19, como explicou a pneumologista do Hospital Sírio-Libanês Elnara Márcia Negri, em entrevista ao projeto Comprova. Um editorial da revista Lancet, publicado em junho, indica que a incidência de complicações de trombose em pacientes de covid-19 internados em unidades de terapia intensiva (UTI) varia de 16% a 49%, de acordo com dados estudos preliminares. 

“Há de fato uma desregulação da cascata de coagulação, mas existe também a pneumonia causada pela destruição da estrutura pulmonar, devido à carga viral [da covid-19] ser muito exacerbada”, ressaltou Fabiana Brandão ao Verifica

“Agora temos 2 medicamentos importantes FAVIPIRAVIR E REMDESIVIR, que são ANTIVIRAIS que podem matar o coronavírus.  Usando esses dois medicamentos, podemos evitar que os pacientes se infectem seriamente e, portanto, curá-los ANTES DE IR PARA HIPÓXIA.”

Não existe consenso científico de que os medicamentos citados na corrente possam ajudar no tratamento da covid-19, muito menos curar pacientes. Segundo Fabiana Brandão, o remdesivir e o favipiravir apresentaram resultados promissores em experimentos em laboratório, mas estudos clínicos com pacientes ainda não confirmaram os benefícios das substâncias contra a doença. 

Um artigo publicado na revista Journal of the American Medical Association (JAMA) em outubro apontou que o redemsivir diminui o tempo de recuperação em adultos hospitalizados com covid-19. O estudo também identificou uma taxa menor de mortalidade para o grupo que recebeu o medicamento em comparação com pacientes que receberam substâncias inativas. 

Remdesivir. Foto: Ulrich Perrey/POOL/AFP

Em contrapartida, uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que o medicamento não foi capaz de reduzir a mortalidade de pacientes em experimentos com 11 mil participantes. Na quinta-feira, 19, a entidade declarou que não recomenda o redemsivir para o tratamento da covid-19. Segundo reportagem do The New York Times, há críticas em torno da metodologia aplicada no projeto.

“Ainda não é possível bater o martelo”, diz Brandão sobre os medicamentos citados. Ela explica que a importância dos ensaios clínicos dos remédios se dá justamente porque os resultados identificados em estudos laboratoriais podem não ser os mesmos no corpo humano. A cientista pontua ainda que é equivocada a ideia de que o remdesivir poderia inativar o vírus, uma vez que o fármaco supostamente age sobre uma enzima do microorganismo e impede sua replicação. 

“A partir de agosto de 2020, sabemos que os medicamentos facilmente disponíveis chamados esteroides, que médicos em todo o mundo vêm usando há quase 80 anos, podem ser usados para prevenir a tempestade de citocinas em alguns pacientes”.

De fato, existem evidências de que alguns esteroides podem ajudar no tratamento da covid-19. Um estudo brasileiro recentemente publicado na revista JAMA indicou que a dexametasona foi capaz de reduzir o tempo de entubação em pacientes com quadros graves de covid-19. 

Em publicação na British Medical Journal (BMJ), especialistas internacionais do Grupo de Desenvolvimento de Orientações da OMS registraram a recomendação de uso de corticoides, entre eles a dexametasona, para tratar casos severos da doença, mas ressaltaram que o medicamento é contraindicado para pacientes com sintomas brandos da infecção. 

Brandão explica que os esteroides têm um potente efeito imunodepressor e podem funcionar contra quadros inflamatórios severos. Ela ressalta que estes medicamentos não devem ser administrados pelo próprio paciente ou usados para prevenir a doença.

“Além disso, algum tempo atrás, cientistas israelenses descobriram que uma substância química conhecida como Alpha Defensin, produzida pelos glóbulos brancos, pode causar micro coágulos nos vasos sanguíneos dos pulmões e isso poderia ser prevenido por um medicamento chamado Colchicina, usado por muitas décadas no tratamento da gota”.

A informação carece de contexto. Um estudo de pesquisadores da rede hospital israelense Hadassah, divulgado em junho, realmente identificou altas concentrações de alfa-defensina, uma molécula produzida por células de defesa do organismo, em amostras de sangue de pacientes com quadros severos de covid-19. 

A pesquisa concluiu que a molécula poderia estar relacionada com a formação de coágulos nos tecidos de pacientes. Os cientistas também conduziram experimentos com o anti-inflamatório colchicina, que conseguiu reduzir os níveis de alfa-defensina e coágulos sanguíneos no organismo de ratos. 

Para Fabiana Brandão, no entanto, o papel da alfa-defensina ainda é controverso. Segundo ela, um outro estudo, publicado em outubro, mostra que pacientes em estado grave apresentam um aumento de circulação da alfa-defensina. A pesquisa aponta, porém, que esse acréscimo não seria responsável pela formação de coágulos, mas a consequência de uma tentativa do organismo para equilibrar a resposta imunológica ao coronavírus.

A pesquisadora ressalta que a colchicina teria um papel não sobre a alpha defensina , mas desempenharia um papel de anti-inflamatório. Um estudo da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto indicou que o fármaco pode acelerar a recuperação de pacientes com covid-19 hospitalizados

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Em entrevista à Agência Fapesp, um dos autores do estudo, Paulo Louzada Júnior, esclareceu que os benefícios foram relacionados apenas a pacientes com formas moderadas e graves de covid-19. “Não recomendamos o uso indiscriminado do fármaco, nem para prevenção e nem para tratar sintomas leves da doença”, destacou. Os autores ainda declararam que, mesmo no caso de pacientes em estado grave, os benefícios ainda precisam ser confirmados em uma pesquisa com um número maior de participantes. 

“Anteriormente, os pacientes caíam mortos na rua ou mesmo antes de chegarem ao hospital devido a redução do oxigênio no sangue. Isso aconteceu pelo que é conhecido como HAPPY HYPOXIA, onde embora a saturação de oxigênio fosse gradualmente reduzida, os pacientes com COVID-19 não apresentavam sintomas até que estivessem criticamente reduzidos, como às vezes em até 70%”.

A Happy Hypoxia, ou hipóxia silenciosa, de fato pode acometer pacientes com covid-19. Neste quadro, os enfermos não apresentam desconforto respiratório diante da pneumonia causada pelo coronavírus, embora mantenham níveis baixíssimos de oxigenação do sangue. Para Fabiana Brandão, no entanto, dizer que pacientes caíam mortos na rua é um exagero. Em janeiro, a Agência Lupa checou uma foto de pessoas deitadas em uma via na China, que foi enganosamente atribuída a mortes por covid-19. 

Segundo Brandão, nem todos os pacientes apresentam a hipóxia silenciosa durante a infecção e que as causas deste sintoma ainda não foram completamente desvendadas por cientistas. Em artigo de opinião no The New York Times, o médico norte-americano Richard Levitan descreve que muitos pacientes manifestam outros sintomas da doença, mas passam a sentir falta de ar somente em um estágio avançado de pneumonia. 

O autor apresenta a hipótese de que o coronavírus ataca as células produtoras de surfactante pulmonar, uma substância que reduz a tensão superficial do pulmão e ajuda a manter os alvéolos abertos entre as respirações. 

“Quando a inflamação da pneumonia por covid começa, ela provoca o colapso dos sacos de ar e os níveis de oxigênio caem”, afirma Levin. “No entanto, os pulmões inicialmente permanecem ’em conformidade’, ainda não rígidos nem cheios de líquido. Isso significa que os pacientes ainda podem expelir dióxido de carbono – e, sem acúmulo de dióxido de carbono, os pacientes não sentem falta de ar.”

Ele recomenda o monitoramento da oxigenação de pacientes com sintomas de covid-19 com um oxímetro de pulso. Um texto publicado na revista Science em maio apresenta a hipótese de que a hipóxia silenciosa pode estar relacionada com os efeitos coagulantes do quadro inflamatório da doença. O artigo destaca, no entanto, que ainda havia incertezas sobre a validade do uso de oxímetros domésticos. 

“Agora também sabemos que as pessoas com hipóxia melhoram apenas fazendo com que deitem de bruços, o que é conhecido como posição prona.”

Embora alguns estudos indiquem benefícios da posição prona para o tratamento da covid-19, não é correto dizer que a aplicação da técnica é suficiente para melhorar as deficiências de oxigenação de pacientes com a doença.

Um estudo do departamento de emergência médica de Nova Iorque publicado em abril na revista Academic Emergency Medicine associou a posição prona à melhora da saturação média de oxigênio de 50 pacientes com síndromes respiratórias agudas provocadas por covid-19 atendidos em hospitais no condado de Lincoln. Apesar disso, 24% dos participantes não conseguiram atingir ou manter níveis de oxigenação suficientes e foram entubados. 

Os próprios autores alertam que “são necessários mais estudos para apoiar a causalidade [entre a melhora da oxigenação e a posição prona] e determinar o efeito na gravidade e mortalidade da doença”. Uma outra pesquisa, divulgada na revista Lancet, também indicou benefícios da técnica para recuperação dos níveis de oxigênio de pacientes com covid-19. Ainda assim, a pronação não foi capaz de  impedir a entubação de participantes. 

Já um estudo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que a técnica não pode ser associada a taxas de entubação mais baixas. “É necessário ter cuidado antes da adoção generalizada desta técnica, enquanto se aguardam os resultados de ensaios clínicos”, diz o artigo, também publicado na Academic Emergency of Medicine

O protocolo de manejo de síndromes respiratórias graves de covid-19 da Organização Mundial da Saúde (OMS)  recomenda o uso da pronação para pacientes em estado grave submetidos a ventilação mecânica. 

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