Tempo de espera para medir temperatura depende do termômetro

Tempo de espera para medir temperatura depende do termômetro

Relato que viralizou nas redes sociais afirma que é necessário esperar cinco minutos antes de retirar o termômetro digital

Pedro Prata

14 de maio de 2020 | 12h03

Uma postagem que viralizou no Facebook utiliza texto genérico para questionar a confiabilidade de termômetros de temperatura corporal. A publicação generaliza a precisão e o modo de uso de todos os aparelhos ao dizer que é preciso esperar até 5 minutos para termômetros digitais registrarem a temperatura corporal correta. Na verdade, a informação não é consenso na área médica.

Desde que foi publicado em 15 de abril, o post já foi visualizado mais de 3,4 milhões de vezes em duas publicações. O texto não identifica a autora do relato. Ele narra a ida de uma mãe ao pronto socorro com o filho febril, onde um médico teria lhe ensinado que o termômetro só identifica a temperatura corporal correta se estiver em contato com o corpo durante quatro ou cinco minutos.

Fabricantes de termômetros informam que a temperatura foi aferida corretamente após o aviso sonoro, o que leva em torno de um minuto. No entanto, o dia a dia na clínica mostrou a Ricardo Luiz Affonso Fonseca, coordenador médico do pronto atendimento pediátrico do Hospital Sírio-Libanês, que um tempo maior de medição da temperatura pode levar a um resultado mais preciso.

Os especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica ressaltaram a importância de se verificar a certificação pelos órgãos de controle. Foto: Pixabay/@guvo59/Divulgação

“Se o termômetro for mantido de três a cinco minutos em posição correta, a temperatura tende a subir em torno de 0,5 a 1 ºC”, explicou Fonseca ao Estadão Verifica. “Portanto, para uma medida correta da temperatura, orientamos que o equipamento seja avaliado em relação à bateria e funcionamento, seja posicionado corretamente e seja mantido em posição por 3 a 5 minutos, apesar do soar do beep.”

Por outro lado, o presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria, Tadeu Fernando Fernandes, diz que não há problema em retirar o termômetro depois de ouvir o aviso sonoro. Os aparelhos são regulamentados por uma portaria do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), que detalha as especificações técnicas de termômetros. “Em resumo, termômetros digitais validados pelo Inmetro podem ser retirados ao apitar, e teremos uma temperatura de validade, segundo normas mundiais”, disse Fernandes.

Documento

A coordenadora da Câmara Técnica de Atenção à Saúde do Conselho Federal de Enfermagem, Viviane Camargo, diz que não é possível generalizar o modo de uso de todos os termômetros digitais — cada um tem características específicas. Ela ainda disse desconhecer a necessidade de se manter o termômetro em contato com o corpo mais tempo do que o indicado.

“Tem aparelho que não tem registro na Anvisa, tem aparelhos cuja precisão é questionável porque ele não é feito para verificação de febre. Há uma série de coisas que precisam ser levadas em consideração”, disse Camargo.

Os termômetros digitais substituíram os termômetros com mercúrio em 2018, quando a fabricação, importação e comercialização dos aparelhos que utilizam coluna de mercúrio foi proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica ressaltaram a importância de se verificar a certificação os termômetros pelos órgãos de controle.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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