Frase que chama televisão de ‘monstro’ não é de Morgan Freeman

Frase que chama televisão de ‘monstro’ não é de Morgan Freeman

Não há registros de que ator de 84 anos seja o autor da citação; palavras foram associadas a outras figuras públicas

Clarissa Pacheco

14 de janeiro de 2022 | 13h03

O ator norte-americano Morgan Freeman, 84 anos, é mais um dos artistas que têm suas imagens associadas nas redes sociais a frases de efeito que, na verdade, nunca disseram. Um post no Facebook com quase 25 mil interações usa uma fotografia do ator junto com uma citação que circula pela internet ao menos desde 2016: “E se eu te dissesse que… televisão é o monstro da sua casa. E é chamado de programa por um motivo. Sua televisão nada mais é do que um dispositivo eletrônico que altera a mente. Ele foi projetado para mudar psicologicamente a maneira como você vê a realidade”.

Não há indícios, contudo, de que o ator, conhecido pelo tom de voz grave com o qual narrou filmes como Guerra dos Mundos (2005), seja o autor da citação. Esta declaração não é encontrada em vídeos, textos, posts nas redes sociais ou entrevistas do norte-americano. Freeman já participou de diversos projetos para a televisão ao longo de sua extensa carreira — um dos mais recentes é a série de documentários The Story of Us, do canal National Geographic. Por outro lado, a mesma frase aparece em vários outras postagens sem a imagem de Freeman e sem qualquer indicação de autoria.

O post mais antigo com a foto do ator e a citação é de 2016 e foi feito em uma conta do Facebook gerenciada por um usuário nos Estados Unidos. Nos comentários, pessoas alertam que a frase não foi dita por Freeman, afirmam que o conteúdo é falso e até criticam o uso deliberado da imagem do ator para advogar por uma causa sobre a qual ele não se pronunciou.

Outra figura pública teve sua imagem associada à mesma mensagem: o advogado, comentarista e escritor conservador norte-americano Ben Shapiro. Uma postagem com a citação e a foto dele viralizou em 2020. Em junho do mesmo ano, o ator Dave Vescio publicou exatamente a mesma frase no Twitter, sem indicar a autoria.

O uso da imagem de figuras conhecidas para impulsionar frases de efeito não é incomum. Recentemente, o Estadão Verifica mostrou que citações foram falsamente atribuídas aos atores Anthony Hopkins e Clint Eastwood, além do líder soviético Vladimir Lênin e o escritor Antonio Gramsci.

Voz grave e papel de Deus em filme

No caso de Freeman, sua voz grave pode ser uma das explicações para que esta e outras frases de tom “filosófico” acabem atribuídas a ele. Um post com a crítica à televisão feito no dia 2 de fevereiro de 2017 na plataforma Me.Me inclui uma frase adicional: “Talvez, apenas talvez, se Morgan Freeman dissesse isso, soaria melhor”.

Post no site Me.Me em 2 de fevereiro de 2017. Imagem: Reprodução

Em janeiro de 2018, um perfil no Reddit compartilhou a mesma imagem, com o título: “O que Morgan Freeman tem a ver com isso?”. Um usuário comenta que a associação com o norte-americano faz com que a citação seja lida “na voz dele”. Outro acrescenta: “Morgan Freeman interpreta Deus nos filmes, então as pessoas associam sua voz com a voz de Deus”. O ator interpretou Deus no filme Todo Poderoso (2003).

Post no Reddit de 2018 questiona ligação entre frase e Morgan Freeman. Imagem: Reprodução

Criar um meme com a imagem de Morgan Freeman não é tarefa difícil. No site Imgflip, por exemplo, o gerador de memes oferece dez fotos do ator que podem ser usadas em um modelo padrão de duas frases. Para cada uma das imagens mais utilizadas, há pelo menos 20 memes prontos utilizando uma foto do ator. Em uma delas, a imagem de Freeman é associada a uma citação de Nelson Mandela.

Também é comum que memes usem a primeira parte da suposta citação de Freeman, “E se eu te dissesse que…”. A frase costuma aparecer em conteúdos ligados aos filmes da franquia Matrix, sobretudo ao personagem Morpheus (Laurence Fishburne), que tenta explicar a Neo (Keanu Reeves) o que é a Matrix — uma simulação da realidade criada por máquinas que escravizam toda a humanidade. Nos últimos anos, os filmes foram apropriados pela extrema-direita americana como símbolo de contestação ao status quo — o que é rejeitado pelas criadoras da franquia, as irmãs Lilly e Lana Wachowski.

Ator foi associado a conteúdo crítico à imprensa

Em dezembro de 2012, outro conteúdo atribuído a Morgan Freeman se espalhou pelas redes e foi compartilhado por milhares de pessoas. Mas o texto, uma crítica à cobertura da imprensa sobre um tiroteio na escola primária de Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, nos Estados Unidos, não era da autoria dele. Na ocasião, o assessor de Freeman, Stan Rosenfield, disse ao site The Wrap que a equipe do ator estava tentando identificar a origem da publicação, um longo texto que criticava a visibilidade que os veículos de comunicação concediam aos atiradores.

Na época, usuários do Reddit apontaram que o texto atribuído a Freeman era idêntico a uma postagem feita no Facebook por um homem chamado Mark, de Vancouver (Canadá). O último comentário deixado por Mark em seu próprio post dizia. “Se eu conheço a internet, alguém atribuirá a citação a Morgan Freeman ou Betty White e se tornará viral”.

O ator Morgan Freeman e seus agentes, Stan Rosenfield e Fred Specktor, foram procurados, mas não responderam até o fechamento deste texto.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.