Técnica ensinada em post viral para evitar envenenamento de pets não é recomendada por veterinários
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Técnica ensinada em post viral para evitar envenenamento de pets não é recomendada por veterinários

Postagem no Facebook aconselha usar mistura de azeite e carvão, mas especialistas alertam que isso pode fazer mal à saúde dos animais

Gabi Coelho, especial para o Estado

14 de outubro de 2020 | 16h21

Um post com mais de 31 mil compartilhamentos no Facebook recomenda oferecer uma mistura de azeite de oliva e carvão ativado a animais de estimação que tiverem sido envenenados. Especialistas consultados pelo Estadão Verifica, no entanto, não recomendam tentar a técnica ensinada na postagem. O melhor a fazer em caso de suspeita de envenenamento é levar os pets ao veterinário.

De acordo com a mestranda em Patologia Animal na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Bárbara Ribeiro de Souza, o carvão ativado de fato é usado em alguns casos de animais intoxicados. No entanto, o carvão é utilizado no processo de lavagem estomacal, que deve ser feito somente por profissionais.

“As indicações para o uso do produto (carvão ativado) são delicadas, e uma pessoa que não tem conhecimento não vai saber se é indicado à situação em que o animal se encontra”, explica ela. “A lavagem (estomacal) é feita por um veterinário, sob anestesia geral e com uma sonda gástrica. Não é simplesmente dar o carvão ativado pela via oral”. 

O veterinário e integrante da Comissão de Medicina Veterinária de Minas Gerais José Lasmar explica que o carvão ativado é usado por profissionais em casos específicos, e deve ser combinado com outros tratamentos contra o envenenamento. “O carvão ativado só deve ser utilizado até no máximo uma hora após a ingestão do produto tóxico, e por um profissional”, diz ele. “Após isso, a eficácia diminui consideravelmente. E essa mistura é feita somente com água, não com azeite ou outra substância oleosa. Isso pode prejudicar a saúde do animal”. 

A publicação no Facebook recomenda oferecer o carvão com azeite, para que o animal ingira a mistura com mais facilidade. Bárbara esclarece que usar esse preparado não é a forma correta de desintoxicar animais e que a técnica não é adotada por clínicas especializadas. “Ingerir vários líquidos na boca do animal de forma forçada pode fazer esse líquido entrar nas vias pulmonares, ainda mais se ele estiver com sintomas de envenenamento”, alerta ela. Alguns desses sintomas incluem diminuição da sensibilidade e do movimento, convulsões e tremedeiras. 

Bárbara reforça que forçar a ingestão de carvão pode prejudicar a saúde dos animais — possíveis consequências incluem pneumonia gangrenosa e até a morte.

Recomendações em caso de envenenamento 

A orientação da especialista para casos de envenenamento é, em primeiro lugar, observar se existiam produtos tóxicos ao alcance do animal antes de ele se sentir mal. Quando houver convulsão, não é recomendado forçar o cão ou o gato a vomitar, pois eles podem se engasgar. Se o animal estiver calmo, faça uma solução de 200 ml de água com três colheres de sal para ajudá-lo a expelir o veneno. Essa dose serve para animais de médio porte e deve ser ajustada conforme o tamanho do pet.

Mesmo com essas recomendações, Bárbara reforça que o mais adequado é buscar um veterinário. “Só (seguir essas recomendações) não vai ajudar”, diz ela. “Essas ações precisam ser feitas em até 1 hora após o envenenamento, e mesmo assim só vai eliminar uma parte do que estiver no estômago do pet. O restante precisa ter um acompanhamento médico”. 

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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