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Tamanho do esquema investigado pelo Facebook surpreendeu especialistas

Analistas divergem quanto à ação da empresa contra páginas ligadas ao MBL, mas concordam que faltou transparência

Alessandra Monnerat, Caio Sartori e Luiz Raatz

26 Julho 2018 | 21h08

O grande número de páginas banidas pelo Facebook na manhã da quarta-feira, 25, surpreendeu analistas que acompanham o tema na internet. O professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP Pablo Ortellado monitorava cerca de 20 endereços ligados ao Movimento Brasil Livre (MBL) no projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital. De uma tacada só, porém, o Facebook removeu uma rede de 196 páginas. “Não sabíamos da existência dessas páginas. Provavelmente estavam sendo criadas para ser usadas na eleição”, diz Ortellado.

Segundo o acadêmico, a rede social tem seguido há alguns meses a política de não arbitrar sobre a veracidade de um conteúdo. A responsabilidade da verificação fica por conta de agências de checagem que trabalham em parceria com a plataforma. Por isso, a justificativa da retirada das páginas foi a não-conformidade com as regras da comunidade — especificamente, com termos de autenticidade, que proíbem perfis falsos. “É muito complicado para uma empresa privada arbitrar sobre o que é uma notícia falsa ou não. A não ser em casos muito explícitos, a linha entre notícia falsa e tendenciosa não é tão clara”, afirma.

O professor Marcio Moretti, que também participa do projeto de monitoramento das redes, reitera que a decisão teve como base uma violação dos termos de serviço do Facebook. “Foi o primeiro passo que o Facebook deu no Brasil para incidir nessa questão da divulgação de notícias que interfiram de maneira deletéria no debate público”, aponta. “O perigo é o quanto isso afeta a liberdade das pessoas se comunicarem na plataforma. É um campo delicado e a sociedade precisa fazer esse debate.”

Analistas têm visões diferentes sobre liberdade de expressão

Os especialistas divergem quanto a um suposto cerceamento à liberdade de expressão por parte do Facebook — o MBL está acusando a empresa de censura. Para Thiago Rondon, diretor do Instituto de Tecnologia e Equidade (IT&E), a plataforma não está desrespeitando a legislação. “Estão corretos de acordo com sua política. Inclusive porque não há regras para isso. O Facebook tem um modelo de negócio e eles atuam dentro dele. Eles têm a liberdade de retirar qualquer cliente”, diz.

Já o sociólogo Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC, afirma que “remoção de conteúdo só pode ser feita com ordem judicial”.

Os especialistas convergem quanto à falta de transparência do Facebook ao explicar a investigação que gerou as remoções. “É muito importante que tenhamos denúncias embasadas, que possam ser apuradas dentro do digital. Se não tomarmos esse cuidado da transparência nessas tomadas de decisão, podemos ter novos problemas”, indica Rondon.