Spray com potencial efeito anticovid vendido em Israel não é o mesmo que interessou governo brasileiro
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Spray com potencial efeito anticovid vendido em Israel não é o mesmo que interessou governo brasileiro

Mensagem confunde produto citado por Bolsonaro com medicamento de empresa canadense que recebeu autorização emergencial de uso no país do Oriente Médio

Victor Pinheiro

16 de julho de 2021 | 15h59

Uma mensagem viral nas redes sociais confunde produtos diferentes ao afirmar que um spray nasal que motivou o governo brasileiro a enviar uma comitiva a Israel, em março deste ano, apresentou eficácia contra covid e será comercializado em farmácias no país do Oriente Médio. Até sexta-feira, 16, o conteúdo contava com mais de 3,7 mil compartilhamentos no Twitter e foi reproduzido no Facebook.

A postagem compartilha uma matéria do jornal israelense The Jerusalem Post sobre o spray nasal Enovid, desenvolvido pela empresa canadense Sanotize, que recentemente passou a ser comercializado em Israel. O medicamento em fase de pesquisa que atraiu o interesse do governo brasileiro, entretanto, é o spray nasal EXO-CD24, cuja viabilidade é estudada no centro hospitalar Ichilov, em Israel. 

Os dois produtos estão em etapas de desenvolvimento diferentes. Além disso, embora sejam investigados para auxiliar no combate ao novo coronavírus, os medicamentos apostam em mecanismos distintos para tratar a doença. 

O spray vendido em Israel

No início de julho, a Sanotize anunciou a chegada do spray nasal Enovid às farmácias israelenses, conforme um comunicado da empresa. A companhia já havia garantido uma autorização provisória para comercializar o medicamento em Israel e na Nova Zelândia como um tratamento para covid, após ensaios clínicos de fase II sugerirem que o spray é seguro e pode reduzir até 95% da carga viral em pacientes com diagnóstico confirmado, no período de 24 horas. O estudo envolveu 80 pacientes com quadros leves da doença. 

Documento

Apesar da autorização emergencial em Israel, os resultados ainda precisam ser confirmados na terceira etapa de pesquisas clínicas, que envolve um número maior de voluntários. É nesta fase de desenvolvimento que cientistas coletam dados mais precisos sobre a verdadeira eficácia de uma substância.

O medicamento ainda não foi autorizado para uso no Canadá, mas segundo o comunicado da empresa, a agência de saúde canadense aprovou, em junho, um pedido da Sanotize para iniciar o recrutamento de pacientes para a próxima fase da pesquisa. 

Como explica a matéria do Jerusalem Post, a aposta dos cientistas responsáveis é de que o óxido nítrico presente na fórmula do spray funcione como uma barreira contra o novo coronavírus na região nasal e, assim, diminua o potencial de contágio e o desenvolvimento de formas mais graves de covid. 

O spray nasal EXO-CD24

Já o spray que atraiu a atenção do governo brasileiro, e eventualmente é citado por Jair Bolsonaro em lives e entrevistas, passou somente pela primeira fase de ensaios clínicos e ainda não tem autorização para ser comercializado em Israel. O EXO-CD24 foi testado em 30 pacientes com sintomas graves e moderados, dos quais 29 (96%) se recuperaram após o período de três a cinco dias de tratamento. 

O inventor do produto, Nadir Aber, reforçou em entrevista ao site UOL, em fevereiro, que os dados ainda precisam ser confirmados nas demais etapas de testes clínicos. A proposta do EXO-CD24 é impedir ou minimizar a tempestade inflamatória do sistema imunológico que pode ser desencadeada em casos mais severos da covid-19. 

No fim de maio, a agência governamental de saúde israelense autorizou o início dos ensaios de fase II e III do spray nasal. Em entrevista à revista The Algemeiner, Aber afirmou que pretende protocolar um pedido de uso emergencial do EXO-CD24 na agência regulatória estadunidense FDA e outros órgãos sanitários entre o final deste ano e o início de 2022.

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