Site distorce resultados de pesquisa israelense para promover campanha contra vacinas

Site distorce resultados de pesquisa israelense para promover campanha contra vacinas

Estudo analisou prevalência da variante sul-africana em pessoas contaminadas, e não probabilidade de contrair o coronavírus antes e depois de receber imunizante da Pfizer/BioNTech

Samuel Lima, especial para o Estadão

20 de abril de 2021 | 12h59

Não é verdade que as pessoas imunizadas contra a covid-19 tenham “oito vezes mais chances de contrair a variante sul-africana do novo coronavírus do que aquelas não vacinadas”, como alega um texto do site “Crítica Nacional”. A publicação enganosa distorce as conclusões de um estudo recente de pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, de Israel, que ainda não foi revisado por pares ou publicado em revistas científicas.

Site distorce pesquisa israelense para promover campanha contra vacinas. Foto: Reprodução / Arte: Estadão

Essa pesquisa, disponível na plataforma de preprints (estudos não revisados) medRxiv, mapeou apenas casos confirmados de covid-19 em Israel, com uma amostra total de 792 testes RT-PCR que deram resultado positivo em uma rede hospitalar do País. Metade das pessoas não havia sido vacinada quando contraiu o vírus e a outra metade se contaminou depois de receber ao menos uma dose do imunizante desenvolvido pela Pfizer/BioNTech.

Ou seja, o estudo não é capaz de apontar a probabilidade de as pessoas serem infectadas antes e depois de receber a vacina porque ele simplesmente não investiga esse aspecto. Os dois grupos de pessoas contaminadas, na verdade, eram propositalmente idênticos, de forma a entregarem um resultado mais exato.

O objetivo dos autores era verificar a prevalência das variantes do novo coronavírus entre três grupos de infectados: população não vacinada (grupo controle), população parcialmente vacinada (contraíram o vírus no intervalo entre a primeira e a segunda dose do imunizante ou até uma semana depois) e população totalmente vacinada (aqueles contaminados após esse período).

O que os pesquisadores israelenses descobriram é que a incidência de casos da variante B.1.351, identificada primeiro na África do Sul, era de 5,4% entre a amostra que havia tomado as duas doses do imunizante da Pfizer/BioNTech, contra 0,7% no grupo controle, que não havia recebido nada no momento da infecção. 

Portanto, considerando que esses dados estejam corretos, o estudo diz o seguinte: entre 1.000 pessoas que foram contaminadas em Israel sem receber nenhuma dose da vacina da Pfizer, 7 delas estavam infectadas com a variante sul-africana; em um outro grupo equivalente de pessoas que foram infectadas mesmo depois de terem tomado as duas doses do imunizante, o número sobe para 54.

Isso não quer dizer que a vacina da Pfizer tenha aumentado as chances de as pessoas serem infectadas. O que os autores argumentam é que a B.1.351 pode estar tendo mais sucesso em contaminar a população vacinada e “quebrar” a barreira de proteção do que outras formas do novo coronavírus presentes em Israel — como a variante B.1.1.7, descoberta originalmente no Reino Unido.

A prevalência da B.1.1.7 na amostra analisada pela mesma pesquisa foi de 92,6% na amostra de contaminados não vacinados, percentual que cai para 89,9% no grupo totalmente vacinado — ou seja, entre aqueles que contraíram o vírus ao menos uma semana depois da aplicação da segunda dose. O mesmo vale para as mutações classificadas no estudo como “tipos selvagens”, cuja frequência é reduzida de 6,7% para 4,7% nessa mesma comparação. O movimento é oposto ao da variante sul-africana. 

O estudo apresenta limitações importantes, mencionadas pelos próprios autores. A principal delas é que a amostra de casos de pessoas contaminadas com a variante B.1.351 é pequena em todos os grupos — 11 dos 792 testes positivos, ao todo. Dessa forma, um aumento não significativo de casos pode resultar em uma taxa desproporcionalmente alta. 

Os cientistas também alertam para eventuais efeitos comportamentais no grupo de vacinados. Os autores disseram que foi preciso descartar algumas amostras de carga viral mais baixa, em razão da dificuldade no sequenciamento. Outro aspecto citado é que o ponto de corte da “população totalmente vacinada” foi estabelecido em sete dias após a segunda dose, mas é possível que indivíduos desse grupo tenham se contaminado antes de contar com uma resposta imune adequada.

Por fim, os pesquisadores deixam claro que o estudo não é capaz de medir o desempenho da vacina da Pfizer. “Nosso estudo não foi desenhado para constatar a eficácia da vacina contra qualquer variante, pois observamos apenas pessoas contaminadas, e não taxas de infecção absolutas em populações vacinadas e grupo controle”, diz o estudo. “Portanto, podemos apenas especular com cautela sobre o desempenho da vacina contra as linhagens B.1.1.7 e B.1.351 até esse momento.”

Eficácia da vacina foi comprovada em testes

Para que os pesquisadores pudessem avaliar as chances de se contaminar com a variante sul-africana mesmo entre os vacinados, eles teriam que aplicar o imunizante da Pfizer em um grupo e uma substância inócua (placebo) em outro, em um ambiente de alta prevalência da cepa, e depois comparar o número de infecções em cada um deles. A boa notícia é que isso já vem sendo feito — e os dados preliminares foram positivos.

Em 1º de abril, a Pfizer divulgou um comunicado em que aponta eficácia global atualizada de 91,3%, com base em um total de 927 casos confirmados de pacientes com sintomas de covid-19 que fizeram parte de estudos clínicos e foram acompanhados por seis meses. Entre eles, 850 estavam no grupo controle (que recebem placebo em vez da vacina) e apenas 77 entre os imunizados. Os dados mais recentes ainda não foram publicados.

Na África do Sul, onde a linhagem B.1.351 é dominante, foram identificados nove casos. Todos eles estavam no grupo controle. O resultado indica eficácia de 100% da vacina, mas não é conclusivo, devido ao baixo número de eventos. Não houve nenhum caso preocupante em termos de segurança do produto na fase 3 dos testes clínicos, que ainda monitora 12 mil voluntários.

Alguns testes in vitro, ou seja, conduzidos em laboratório, sugeriram que a proteção da vacina contra a variante sul-africana pode ser menor do que a esperada. Um estudo realizado por cientistas da Pfizer/BioNTech e da University of Texas Medical Branch (UTMB) e divulgado em fevereiro, por exemplo, indicou que a proteção de anticorpos da vacina poderia diminuir em cerca de dois terços.

A incidência e o impacto desse fator no mundo real, no entanto, ainda é incerto. Como não há um parâmetro de referência estabelecido para determinar o nível de anticorpos necessários para proteger contra o coronavírus, esse tipo de pesquisa não é capaz de verificar se a vacina seria ineficaz nesse contexto. Os resultados foram publicados, com as devidas ressalvas, na revista científica New England Journal of Medicine (NEJM)

Fontes mencionadas corroboram a checagem

No rodapé do texto enganoso, o “Crítica Nacional” cita como fontes a agência Reuters e o jornal Times of Israel, conteúdos confiáveis publicados pela imprensa profissional. Mas a leitura atenta desses documentos apenas contradiz a alegação do site e reforça a conclusão desta checagem, de que o estudo foi distorcido.

A notícia publicada pela Reuters, em 12 de abril, deixa claro que os percentuais se referem à taxa de prevalência da variante entre grupos de pessoas contaminadas. Em um trecho da reportagem, por exemplo, ela afirma que “a pesquisa não teve a intenção de deduzir a eficácia geral da vacina contra qualquer variante, pois ela apenas observa pessoas que já haviam testado positivo para a covid-19, e não taxas de infecção”.

Segundo a Reuters, o que a pesquisa sugere é que a vacina seria “menos efetiva contra a variante sul-africana, em comparação com o coronavírus original e a variante identificada primeiro no Reino Unido, que se tornou responsável por praticamente todos os casos de covid-19 em Israel”. O texto acrescenta ainda que a pesquisa da Universidade de Tel Aviv contou com uma pequena amostra de pessoas infectadas pela B.1.351, e por isso deve ser vista com cautela.

Da mesma forma, o Times of Israel anuncia que “a variante sul-africana do coronavírus é notavelmente mais competente em ‘quebrar’ a proteção da vacina da Pfizer/BioNTech do que outras variantes”, segundo a pesquisa conduzida no País. Os cientistas novamente comentam sobre o fato de ela ter contado com uma quantidade pequena de casos da variante na amostra e defendem a realização de mais estudos antes de se chegar a uma conclusão sobre o assunto.

A reportagem entrou em contato, por e-mail, com o site “Crítica Nacional” nesta terça-feira, 20. Ainda não houve resposta.

Essa checagem foi produzida a partir de sugestões de leitores do Estadão Verifica. Recebeu algum conteúdo suspeito no WhatsApp? Encaminhe para o blog pelo número: (11) 97683-7490.

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