Site brasileiro amplifica boato dos EUA sobre Joe Biden
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Site brasileiro amplifica boato dos EUA sobre Joe Biden

Rumor foi disseminado por radialista americano que não apresentou qualquer evidência para sua alegação

Tiago Aguiar

01 de outubro de 2020 | 21h52

Uma publicação do site Terça Livre alega que o candidato democrata à Casa Branca Joe Biden recebeu as perguntas antes do primeiro debate com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que concorre à reeleição. O texto atribui o rumor ao radialista Todd Starnes, mas não há evidências que sustentem essa alegação. O primeiro encontro presencial entre os dois candidatos à presidência ocorreu na última terça-feira, 29, e foi transmitido pelo canal Fox News.

Starnes tuitou no dia 29, horas antes do debate, que haveria um rumor circulando de que Biden teria recebido as perguntas com antecedência. O radialista citou como fonte uma entrevista com o autor conservador Jerome Corsi, que ocorreu no último dia 24. O tuíte fez com que diversas publicações americanas — e o site brasileiro Terça Livre — aumentassem o alcance do boato ao longo do dia.

Na entrevista citada, Jerome não deu nenhuma evidência que baseasse sua alegação contra Biden. Ele foi procurado pelo site FactCheck.org para responder qual era a fonte da acusação, mas não retornou os contatos. Jerome tem um longo currículo de promoção de teorias conspiratórias contra políticos democratas. Em 2008, ele já era conhecido por fazer alarmismo quanto a uma suposta dúvida sobre o local de nascimento de Barack Obama. O ex-presidente americano nasceu em Honolulu, capital do Havaí.

Ao jornal The New York Times, uma representante da Fox News disse que a alegação sobre o envio prévio de perguntas a Biden é “completamente falsa”O próprio site do radialista que espalhou o boato em primeiro lugar atualizou o texto que replicava a informação falsa, agora destacando que a Fox negou o caso. Ao Politifact, Todd Starnes negou ter feito uma acusação própria contra Biden e disse que estava apenas replicando o que foi dito na entrevista.

No início do programa, o moderador do debate, o jornalista da Fox News Chris Wallace, disse que não passou as perguntas previamente para os candidatos. No último dia 22, antes da entrevista com Jerome, a Comissão de Debates Presidenciais dos Estados Unidos anunciou os tópicos escolhidos por Chris Wallace para o debate. A lista foi divulgada publicamente e incluía os temas gerais, não perguntas específicas.

A publicação do Terça Livre foi veiculada ainda na terça-feira, e no dia seguinte o site brasileiro “Jornal Vera Cruz” reproduziu o boato no mesmo formato — com título considerando o rumor como fato e no texto atribuindo a informação a Todd Starnes.

O portal Terça Livre já teve outras publicações desmentidas pelo Estadão Verifica. Em novembro do ano passado, o site relacionou, de forma enganosa, a soltura de dois homens acusados de matar uma criança no Maranhão à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância.

O site também já distorceu uma “entrevista” de uma repórter do Estadão, promovendo desinformação. Em 2018, o portal divulgou, sem nenhuma evidência, que uma quadrilha que tentava sacar um cheque de R$ 68 milhões na Bahia atuava para beneficiar o então presidenciável Fernando Haddad (PT).

O empresário Allan Lopes dos Santos, um dos três sócios do Terça Livre, foi um dos alvos da operação da Polícia Federal contra fake news em maio deste ano.

Este conteúdo também foi verificado pelo jornal The New York Times, pelo Politifact e pela FactCheck.org.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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